Questão de Medicina — Medicina Intensiva — FGV 2024
Medicina›Medicina Intensiva
Código
fg095157
Banca
FGV
Órgão
SES-MT
Ano
2024
Nível
Superior
Cargo
Médico Intensivista
Atenção! O texto a seguir refere-se à próxima questão.A meningite bacteriana é uma infecção potencialmente letal e que geralmente demanda internação em UTI. Na década de 2000, estudo publicado no NEJM mostrou os benefícios da dexametasona em altas doses para o tratamento dessa doença, quando causada por certas bactérias.Mais recentemente, certos agentes etiológicos dessa condição vêm cursando com aumento de resistência à ceftriaxona, justificando o acréscimo de vancomicina ao esquema antimicrobiano empírico para essa doença.Considere um paciente com suspeita de meningite bacteriana cujo líquor coletado exibe, em seu exame bacterioscópico, a presença de diplococos gram-negativos.Caso, anteriormente à coleta do exame, tenham sido prescritas empiricamente dexametasona, ceftriaxona e vancomicina, após tal informação, deve-se
Amanter as três medicações.
Bsuspender apenas a vancomicina.
Csuspender apenas a dexametasona.
Dsuspender a vancomicina e a dexametasona.
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GabaritoD — suspender a vancomicina e a dexametasona.
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Meningite bacteriana: ajuste da terapia empírica após bacterioscopia
Gabarito: letra D. Diante de diplococos gram-negativos no líquor, o agente mais provável é a Neisseria meningitidis — e, nesse cenário, a conduta é suspender a vancomicina e a dexametasona, mantendo apenas a ceftriaxona. A vancomicina perde a indicação porque o meningococo é sensível à cefalosporina de terceira geração, e a dexametasona não demonstrou benefício na meningite meningocócica, conforme os estudos citados no próprio material de apoio.
A meningite bacteriana é uma emergência infecciosa que exige antibioticoterapia empírica imediata, antes mesmo da confirmação etiológica. O esquema empírico padrão no Brasil para adultos entre 16 e 50 anos é vancomicina + ceftriaxona, justamente para cobrir o Streptococcus pneumoniae resistente à penicilina e à ceftriaxona — uma preocupação crescente, como mencionado no enunciado. A vancomicina entra nesse esquema como "rede de segurança" para o pneumococo de alto nível de resistência, não para o meningococo.
Quando a bacterioscopia revela diplococos gram-negativos, o diagnóstico presuntivo é de meningite meningocócica (Neisseria meningitidis). Esse agente é naturalmente sensível à ceftriaxona, que permanece como droga de escolha. A vancomicina, portanto, torna-se desnecessária — ela só seria mantida se houvesse suspeita de pneumococo resistente. A conduta correta é suspender a vancomicina e manter a ceftriaxona como monoterapia.
Quanto à dexametasona, o racional é diferente. O benefício do corticoide na meningite bacteriana foi demonstrado principalmente na meningite pneumocócica, com redução de letalidade e sequelas neurológicas, incluindo perda auditiva. Na meningite meningocócica, porém, os estudos conduzidos no Vietnã e no Malawi não demonstraram benefício — e é exatamente esse o ponto que a questão explora. Como o agente provável é o meningococo, a dexametasona deve ser suspensa.
A pegadinha central está em distinguir o racional de cada droga: a vancomicina é suspensa por falta de indicação (o meningococo é sensível à ceftriaxona), enquanto a dexametasona é suspensa por falta de benefício comprovado nessa etiologia específica. Guarde essa dupla lógica — é ela que separa as alternativas.
Meningite bacteriana
1Bacterioscopia: diplococos gram-negativos
Agente provável: Neisseria meningitidis
Sensível à ceftriaxona
2Esquema empírico inicial
Vancomicina (cobre pneumococo resistente)
Ceftriaxona (droga de escolha)
Dexametasona (benefício na pneumocócica)
3Conduta após bacterioscopia
Suspender vancomicina (sem indicação)
Suspender dexametasona (sem benefício)
Manter ceftriaxona (monoterapia)
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Alternativa A — ❌ Incorreta
Manter as três medicações seria um erro por excesso terapêutico. A vancomicina não tem papel no tratamento da meningite meningocócica confirmada por bacterioscopia, e a dexametasona não agrega benefício nessa etiologia. Manter drogas sem indicação expõe o paciente a riscos desnecessários (nefrotoxicidade da vancomicina, hiperglicemia e imunossupressão do corticoide) sem ganho clínico.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Suspender apenas a vancomicina acerta em relação ao antibiótico, mas mantém a dexametasona indevidamente. O erro está em não considerar que o benefício do corticoide é etiologia-dependente: na meningite meningocócica, os estudos não demonstraram redução de mortalidade ou sequelas, diferentemente do que ocorre na pneumocócica. A dexametasona deve ser suspensa junto.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Suspender apenas a dexametasona mantém a vancomicina sem necessidade. O raciocínio aqui é o inverso da alternativa B: a vancomicina foi adicionada ao esquema empírico para cobrir S. pneumoniae resistente à ceftriaxona. Com a bacterioscopia mostrando diplococos gram-negativos (meningococo), essa cobertura extra perde a razão de ser — o meningococo é plenamente sensível à ceftriaxona.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Esta é a conduta correta. A bacterioscopia com diplococos gram-negativos aponta para Neisseria meningitidis, agente sensível à ceftriaxona. Portanto: suspende-se a vancomicina (perde a indicação, pois não há suspeita de pneumococo resistente) e suspende-se a dexametasona (sem benefício comprovado na meningite meningocócica). Mantém-se apenas a ceftriaxona, que é a droga de escolha para o meningococo.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a dupla justificativa para a suspensão. O candidato que só lembra que "vancomicina é para pneumococo resistente" suspende apenas a vancomicina (alternativa B) e erra. O que só lembra que "dexametasona não beneficia meningococo" suspende apenas a dexametasona (alternativa C) e também erra. A questão exige as duas coisas ao mesmo tempo: falta de indicação da vancomicina + falta de benefício do corticoide na etiologia meningocócica. Com treino, você enxerga essas duplas pegadinhas de longe 💪
PEGA ESSA DICA!
Na meningite bacteriana, monte o raciocínio em duas etapas: (1) qual agente a bacterioscopia sugere? — diplococos gram-negativos = meningococo; diplococos gram-positivos = pneumococo; (2) qual droga perde a indicação? — se meningococo, suspende vancomicina (sensível à ceftriaxona); se pneumococo, mantém vancomicina. E lembre: dexametasona só tem benefício comprovado na meningite pneumocócica — nas demais etiologias, o uso é questionável ou sem benefício.
Gabarito: letra D — suspender a vancomicina e a dexametasona, mantendo apenas a ceftriaxona.