Questão de Medicina — Neurologia — FGV 2024
- Código
- fg095273
- Banca
- FGV
- Órgão
- SES-MT
- Ano
- 2024
- Nível
- Superior
- Cargo
- Médico Neurologista
- Aamoxicilina.
- Bciclosporina.
- Cclonazepam.
- Dciclobenzaprina.
GabaritoB — ciclosporina.
Gabarito: letra B. A ciclosporina é o fármaco que confere maior risco de rabdomiólise quando associada às estatinas, devido à inibição das enzimas do citocromo P450 (especialmente CYP3A4) e dos transportadores hepáticos (OATP1B1), elevando a concentração plasmática da estatina e, consequentemente, a toxicidade muscular. As demais opções (amoxicilina, clonazepam e ciclobenzaprina) não apresentam interação clinicamente relevante com estatinas nesse contexto.
A miopatia induzida por estatinas é um efeito adverso conhecido, cuja fisiopatologia envolve a depleção de ubiquinona (coenzima Q10), essencial para a produção de ATP mitocondrial, além de outros mecanismos. O risco de rabdomiólise em monoterapia é baixo (2 a 3 casos por 100.000 pacientes-ano), mas aumenta significativamente quando a estatina é associada a fármacos que interferem em seu metabolismo ou transporte. A ciclosporina, um imunossupressor usado em transplantes e doenças autoimunes, é um potente inibidor do CYP3A4 e do OATP1B1, o que explica o aumento expressivo do risco. Essa interação é tão relevante que a combinação de ciclosporina com certas estatinas (como sinvastatina e lovastatina) é formalmente contraindicada, e com outras (como atorvastatina e rosuvastatina) exige cautela e monitoramento rigoroso.
Na prática clínica, o mecanismo é o seguinte: a estatina é metabolizada principalmente pelo fígado, via CYP3A4 (sinvastatina, lovastatina, atorvastatina) ou outras vias (pravastatina, fluvastatina, rosuvastatina). A ciclosporina bloqueia essa metabolização, aumentando a área sob a curva (AUC) da estatina em várias vezes. Além disso, a ciclosporina inibe o transportador OATP1B1, responsável pela captação hepática da estatina, o que eleva ainda mais sua concentração sistêmica. O resultado é um acúmulo do fármaco no músculo esquelético, levando à lesão das fibras musculares e à liberação de mioglobina, caracterizando a rabdomiólise.
A distinção crucial é entre fármacos que interagem com estatinas e aqueles que não interagem. Enquanto a ciclosporina é um exemplo clássico de interação grave, a amoxicilina (antibiótico), o clonazepam (benzodiazepínico) e a ciclobenzaprina (relaxante muscular) não possuem mecanismos de interação significativos com as estatinas. A banca explora exatamente essa confusão: o candidato pode ser tentado a escolher a ciclobenzaprina por ser um relaxante muscular, associando-a à miopatia, mas o risco real está na interação farmacocinética, não no efeito farmacológico direto.
Guarde o critério decisivo: o risco de rabdomiólise com estatinas aumenta quando há inibição do metabolismo hepático (CYP3A4) ou do transporte (OATP1B1). Fármacos que fazem isso — como ciclosporina, macrolídeos (claritromicina, eritromicina), antifúngicos azólicos (itraconazol, cetoconazol), fibratos (especialmente genfibrozila) e inibidores de protease — são os que conferem maior risco. É nessa fronteira que as alternativas se dividem.
A amoxicilina é um antibiótico beta-lactâmico que não interfere no metabolismo das estatinas. Não há interação farmacocinética relevante que aumente o risco de rabdomiólise. A banca incluiu essa opção como distrator, pois o candidato pode associar qualquer medicamento a um risco, mas a amoxicilina não possui mecanismo de interação com as estatinas.
A ciclosporina é um imunossupressor que inibe o CYP3A4 e o OATP1B1, enzimas e transportadores responsáveis pelo metabolismo e captação hepática das estatinas. Essa inibição aumenta a concentração plasmática da estatina, elevando o risco de miopatia e rabdomiólise. A interação é tão significativa que a combinação com sinvastatina e lovastatina é contraindicada, e com outras estatinas exige monitoramento rigoroso. É o fármaco que confere maior risco de rabdomiólise entre as opções.
O clonazepam é um benzodiazepínico, metabolizado principalmente pelo CYP3A4, mas não inibe essa enzima de forma relevante. Não há interação clinicamente significativa com estatinas que aumente o risco de rabdomiólise. A banca incluiu essa opção como distrator, pois o candidato pode confundir o fato de ambos serem metabolizados pela mesma via com uma interação perigosa, mas o clonazepam não é um inibidor potente do CYP3A4.
A ciclobenzaprina é um relaxante muscular, frequentemente usado para espasmos musculares. Apesar do nome semelhante à ciclosporina, não há interação farmacocinética relevante com estatinas que aumente o risco de rabdomiólise. A banca explora a confusão entre os nomes "ciclobenzaprina" e "ciclosporina", além da associação intuitiva entre relaxante muscular e miopatia, mas o risco real está na interação farmacocinética, não no efeito farmacológico direto.
A banca explora a semelhança fonética entre "ciclosporina" e "ciclobenzaprina" para induzir o erro. O candidato pode escolher a ciclobenzaprina por ser um relaxante muscular, associando-a à miopatia, mas o risco real está na interação farmacocinética (inibição do CYP3A4 e OATP1B1), que é exclusiva da ciclosporina. Fique atento: o nome parecido não significa mecanismo parecido.
Para questões de interação medicamentosa com estatinas, memorize os principais inibidores do CYP3A4: ciclosporina, macrolídeos (claritromicina, eritromicina), antifúngicos azólicos (itraconazol, cetoconazol), fibratos (genfibrozila) e inibidores de protease. Se a alternativa trouxer um fármaco que não está nessa lista, provavelmente é um distrator.
Gabarito: letra B
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