Questão de Medicina — Neurologia — FGV 2024
- Código
- fg095275
- Banca
- FGV
- Órgão
- SES-MT
- Ano
- 2024
- Nível
- Superior
- Cargo
- Médico Neurologista
- AInsônia.
- BIntoxicação por chumbo.
- CAtaque isquêmico transitório.
- DSíndrome das pernas inquietas.
GabaritoD — Síndrome das pernas inquietas.
Gabarito: letra D. O fenômeno da aumentação (augmentation phenomenon) é uma complicação clássica do tratamento farmacológico da síndrome das pernas inquietas (SPI), caracterizada pela piora dos sintomas após o início do uso de medicamentos dopaminérgicos, especialmente a levodopa. As demais alternativas (insônia, intoxicação por chumbo e ataque isquêmico transitório) não têm relação direta com esse fenômeno.
A síndrome das pernas inquietas é um distúrbio neurológico do movimento caracterizado por uma necessidade irresistível de mover as pernas, geralmente acompanhada de sensações desagradáveis (como formigamento, dor ou "rastejamento"), que pioram em repouso e melhoram com o movimento, com predomínio no período noturno. O tratamento de primeira linha envolve fármacos dopaminérgicos, como a levodopa e os agonistas dopaminérgicos (pramipexol, ropinirol, rotigotina), além de outras opções como gabapentina e clonazepam.
O fenômeno da aumentação é um efeito paradoxal do tratamento: em vez de melhorar, os sintomas da SPI pioram, tornam-se mais intensos, podem se espalhar para outras partes do corpo (como braços) e passar a ocorrer mais cedo no dia. Esse fenômeno está diretamente ligado ao uso de medicamentos dopaminérgicos, sendo mais frequente e mais grave com a levodopa do que com os agonistas dopaminérgicos. Estima-se que a aumentação possa ocorrer em até 70% dos pacientes em uso prolongado de levodopa, enquanto com os agonistas dopaminérgicos o risco é menor, em torno de 30%.
O mecanismo exato da aumentação não é totalmente compreendido, mas acredita-se que esteja relacionado a alterações na sensibilidade dos receptores dopaminérgicos no sistema nervoso central, possivelmente por um efeito de dessensibilização ou por alterações na homeostase do ferro no cérebro. Fatores de risco identificados incluem doses mais altas de levodopa (acima de 200 mg) e níveis baixos de ferritina sérica, o que reforça a importância de se avaliar o status de ferro em pacientes com SPI antes e durante o tratamento.
A conduta diante da aumentação envolve o encaminhamento ao especialista e a reavaliação da estratégia terapêutica, que pode incluir a redução da dose do dopaminérgico, a troca para um agonista de ação prolongada (como a rotigotina) ou a mudança para uma classe terapêutica diferente, como os ligantes da subunidade alfa-2-delta (gabapentina, pregabalina). A prevenção é fundamental: recomenda-se usar a menor dose eficaz de levodopa, preferencialmente de forma intermitente (menos de 3 vezes por semana) em casos de sintomas leves, e monitorar a ferritina sérica.
A pegadinha desta questão está em associar a aumentação a condições que não têm relação com o fenômeno. A insônia (alternativa A) é um distúrbio do sono que pode coexistir com a SPI, mas não é a condição à qual a aumentação está ligada. A intoxicação por chumbo (alternativa B) pode causar neuropatia e sintomas neurológicos, mas não é a condição associada à aumentação. O ataque isquêmico transitório (alternativa C) é um evento vascular cerebral transitório, sem relação com o fenômeno. A síndrome das pernas inquietas (alternativa D) é a condição correta, pois a aumentação é uma complicação do seu tratamento farmacológico.
A insônia é um distúrbio do sono caracterizado por dificuldade de iniciar ou manter o sono, ou sono não reparador. Embora a SPI possa causar insônia secundária (dificuldade para dormir devido às sensações desconfortáveis nas pernas), a aumentação não é um fenômeno ligado à insônia em si, mas sim ao tratamento da SPI. A confusão pode surgir porque ambas são condições relacionadas ao sono, mas a aumentação é especificamente uma complicação do uso de dopaminérgicos na SPI.
A intoxicação por chumbo (saturnismo) pode causar diversos sintomas neurológicos, como neuropatia periférica, encefalopatia e dores abdominais, mas não está associada ao fenômeno da aumentação. A aumentação é um conceito específico da farmacoterapia da síndrome das pernas inquietas, não tendo relação com intoxicação por metais pesados. O candidato pode confundir porque ambas podem envolver sintomas neurológicos, mas a etiologia e o contexto são completamente diferentes.
O ataque isquêmico transitório (AIT) é um episódio transitório de disfunção neurológica causado por isquemia focal cerebral, sem infarto agudo. É um evento vascular, com sintomas como fraqueza, dormência, alteração visual ou de fala, que se resolvem em até 24 horas. Não há qualquer relação entre AIT e o fenômeno da aumentação, que é uma complicação do tratamento da SPI. A confusão pode ocorrer porque ambos envolvem o sistema nervoso, mas são entidades completamente distintas.
A síndrome das pernas inquietas (SPI) é a condição correta. O fenômeno da aumentação é uma complicação bem documentada do tratamento farmacológico da SPI, especialmente com o uso de levodopa. A tabela de manejo farmacológico da SPI indica que, com o uso prolongado de levodopa, pode haver piora dos sintomas (aumentação) em até 70% dos pacientes, e que o risco é maior com doses acima de 200 mg e quando há ferritina/ferro sérico baixos. Os agonistas dopaminérgicos apresentam risco menor de aumentação (cerca de 30%). Portanto, a aumentação está intrinsecamente ligada à SPI e ao seu tratamento.
Gabarito: letra D — a aumentação é um fenômeno ligado à síndrome das pernas inquietas, sendo uma complicação do tratamento com fármacos dopaminérgicos, especialmente a levodopa.
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