Questão de Medicina — Anorexia, Bulimia, Vigorexia, Ortorexia — FGV 2024
- Código
- fg095348
- Banca
- FGV
- Órgão
- SES-MT
- Ano
- 2024
- Nível
- Superior
- Cargo
- Médico Nutrólogo
- AV, V, V.
- BV, V, F
- CV, F, V.
- DV, F, F.
GabaritoA — V, V, V.
Gabarito: letra A (V, V, V). As três afirmativas estão corretas: a primeira descreve corretamente a evolução humana em ambiente de escassez, com mecanismos fisiológicos voltados a evitar a perda de peso; a segunda explica o descompasso entre nossa fisiologia e o ambiente obesogênico atual, que promove balanço energético positivo; e a terceira define corretamente a Síndrome Metabólica como um aglomerado de distúrbios (resistência à insulina/hiperglicemia, obesidade abdominal, hipertensão e dislipidemia aterogênica). A questão cobra conceitos consolidados da literatura médica sobre a gênese da obesidade e a definição de Síndrome Metabólica.
A obesidade é uma doença crônica multifatorial, e sua compreensão exige olhar para a história evolutiva da espécie humana. Durante milhões de anos, nossos ancestrais viveram em ambientes de escassez alimentar, onde a atividade física intensa era necessária para obter alimentos. Nesse contexto, os mecanismos fisiológicos que favorecem o armazenamento de energia — como a resistência à perda de peso e a eficiência metabólica — eram vantajosos para a sobrevivência. O corpo humano, portanto, desenvolveu-se para evitar a perda de peso, não para evitar o ganho. Essa é a base da chamada "hipótese do gene poupador" ou "genótipo poupador", que explica por que nosso metabolismo é tão eficiente em estocar gordura.
No ambiente atual, porém, a realidade é oposta: há abundância de alimentos altamente calóricos e ultraprocessados, e a atividade física diminuiu drasticamente. Esse ambiente "obesogênico" promove um equilíbrio energético positivo — ou seja, ingerimos mais calorias do que gastamos. Como nossa fisiologia não evoluiu para se opor a essas pressões ambientais, o resultado é o acúmulo de gordura e o aumento da prevalência da obesidade. A disparidade entre a fisiologia (adaptada à escassez) e o meio ambiente (de abundância) é a explicação central para a epidemia de obesidade.
A Síndrome Metabólica (SM) é um conjunto de distúrbios metabólicos que aumentam o risco de doenças cardiovasculares e diabetes tipo 2. Os componentes clássicos incluem: resistência à insulina ou hiperglicemia, obesidade abdominal (medida pela circunferência da cintura), hipertensão arterial e dislipidemia aterogênica (caracterizada por triglicerídeos elevados e HDL-c baixo). A definição da SM varia conforme os critérios utilizados — OMS, EGIR, NCEP-ATP III —, mas todos incluem esses componentes centrais. O NCEP-ATP III, por exemplo, exige a presença de três ou mais dos seguintes fatores: obesidade abdominal (CA > 102 cm em homens e > 88 cm em mulheres), triglicerídeos > 150 mg/dL, HDL-c baixo (< 40 mg/dL em homens e < 50 mg/dL em mulheres), pressão arterial > 130/85 mmHg e glicemia de jejum > 110 mg/dL.
A banca explora a confusão entre os critérios diagnósticos da SM e a definição conceitual. Enquanto os critérios variam entre as diretrizes, a definição conceitual é estável: um aglomerado de distúrbios metabólicos que incluem resistência à insulina, obesidade abdominal, hipertensão e dislipidemia. A afirmativa III está correta ao descrever exatamente essa definição, mencionando a dislipidemia como alta concentração de triglicerídeos ligados a VLDL e baixa concentração de HDL-c — uma descrição fisiologicamente precisa.
A banca pode tentar confundir o candidato ao inverter a direção da dislipidemia (dizer "baixo triglicerídeos e alto HDL") ou ao trocar a obesidade abdominal por obesidade generalizada. Nesta questão, porém, todas as afirmativas estão corretas, então a pegadinha é justamente a tentação de marcar alguma alternativa com F. Lembre-se: a definição conceitual da SM é ampla e inclui todos os componentes citados.
A afirmativa descreve corretamente a evolução humana em ambiente de escassez, onde altos níveis de atividade eram necessários para obter alimentos. Os mecanismos fisiológicos eram úteis para evitar a perda de peso, mas não o ganho. Isso está alinhado com a "hipótese do gene poupador", que postula que nosso metabolismo foi selecionado para armazenar energia eficientemente, protegendo contra a perda de peso em tempos de escassez. O erro que o candidato poderia cometer é pensar que os mecanismos fisiológicos também evitavam o ganho de peso, mas o oposto é verdadeiro: a fisiologia favorece o acúmulo de gordura.
A afirmativa está correta ao afirmar que o ambiente atual promove um equilíbrio energético positivo, e que nossa fisiologia não se desenvolveu para se opor a essas pressões ambientais. O aumento da prevalência da obesidade é atribuído à disparidade entre a fisiologia (adaptada à escassez) e o meio ambiente (de abundância). Essa é a explicação central da epidemia de obesidade. O candidato poderia errar ao pensar que a fisiologia humana se adaptou rapidamente ao ambiente moderno, mas a evolução é lenta, e nosso corpo ainda responde como se estivéssemos em um ambiente de escassez.
A afirmativa define corretamente a Síndrome Metabólica como um aglomerado de distúrbios metabólicos: resistência à insulina ou hiperglicemia, obesidade abdominal, hipertensão e dislipidemia (alta concentração de triglicerídeos ligados a VLDL e baixa concentração de HDL-c). Essa é a definição conceitual clássica, presente nas principais diretrizes (OMS, EGIR, NCEP-ATP III). O candidato poderia errar ao achar que a dislipidemia é descrita de forma incorreta, mas a descrição está fisiologicamente correta: na SM, há aumento de triglicerídeos (transportados por VLDL) e redução do HDL-c.
Conclusão: Todas as três afirmativas são verdadeiras, portanto a sequência correta é V, V, V, correspondente à letra A.
Gabarito: letra A
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