Questão de Medicina — Anorexia, Bulimia, Vigorexia, Ortorexia — FGV 2024
- Código
- fg095366
- Banca
- FGV
- Órgão
- SES-MT
- Ano
- 2024
- Nível
- Superior
- Cargo
- Médico Nutrólogo
- AI e II, apenas.
- BII e III, apenas.
- CI e III, apenas.
- DI, II e III.
GabaritoC — I e III, apenas.
Gabarito: letra C — estão corretos os itens I e III. O item I é verdadeiro porque, na desnutrição proteico-calórica (DPC) grave, a resposta inflamatória e a febre podem estar ausentes mesmo diante de infecção aguda, devido à imunossupressão e à depleção de substratos; o item III é verdadeiro porque a subnutrição crônica e lenta (nanismo, emaciação moderada, marasmo) permite adaptações metabólicas que tornam o equilíbrio menos frágil que o do kwashiorkor agudo. O item II é falso, pois a maioria das alterações do estado nutricional se apresenta de forma crônica, e não aguda.
A avaliação do estado nutricional é um processo integrado que envolve anamnese, exame físico, antropometria e exames complementares, e busca identificar tanto a desnutrição quanto o excesso de peso. A desnutrição proteico-calórica (DPC) engloba um espectro de condições que vão desde o marasmo (deficiência energética predominante, com emagrecimento acentuado e preservação relativa de proteínas viscerais) até o kwashiorkor (deficiência proteica predominante, com edema, hipoalbuminemia e lesões de pele). A forma como a desnutrição se instala — aguda ou crônica — determina profundas diferenças na fisiopatologia e na apresentação clínica.
No marasmo, a subnutrição se desenvolve lentamente, ao longo de meses ou anos. O organismo se adapta à restrição calórica reduzindo o metabolismo basal, preservando a massa visceral e utilizando preferencialmente a gordura e a massa muscular periférica como fonte de energia. Essa adaptação confere um equilíbrio metabólico relativamente estável, embora à custa de crescimento e desenvolvimento comprometidos. Já no kwashiorkor, a instalação é mais rápida, frequentemente desencadeada por um estresse agudo (infecção, desmame abrupto), e caracteriza-se por edema, esteatose hepática, hipoalbuminemia e maior fragilidade metabólica. O paciente com kwashiorkor tem menor capacidade de resposta ao estresse e maior risco de complicações.
A ausência de sinais inflamatórios clássicos na DPC grave é um fenômeno bem documentado. A desnutrição compromete a imunidade celular e humoral, reduz a produção de citocinas pró-inflamatórias (como IL-1, IL-6 e TNF-α) e pode levar à hipotermia em vez de febre. Assim, uma infecção aguda pode cursar sem febre, sem taquicardia e sem leucocitose, o que retarda o diagnóstico e piora o prognóstico. Esse é um ponto crítico na prática clínica: a ausência de resposta inflamatória não exclui infecção grave.
A afirmativa II, por sua vez, contém um erro conceitual importante. A maioria dos casos de alteração do estado nutricional, especialmente na população geral e na atenção primária, é de natureza crônica — obesidade, desnutrição crônica, carências específicas — e não aguda. A desnutrição aguda (perda rápida de peso, como na doença crítica) é uma situação clínica relevante, mas não representa a maioria dos casos. Além disso, a avaliação nutricional não exige, na maioria das vezes, a utilização de "todos os recursos disponíveis"; ela é baseada em métodos simples e acessíveis, como antropometria e anamnese alimentar, reservando exames complementares para situações específicas.
A distinção entre desnutrição aguda e crônica é um dos eixos que a banca explora. A tabela abaixo resume as principais diferenças:
Critério | Desnutrição aguda | Desnutrição crônica |
|---|---|---|
Instalação | Rápida (dias a semanas) | Lenta (meses a anos) |
Exemplo típico | Kwashiorkor | Marasmo, nanismo |
Adaptação metabólica | Pouca ou nenhuma | Significativa |
Equilíbrio metabólico | Frágil | Mais estável |
Resposta ao estresse | Comprometida | Relativamente preservada |
Apresentação clínica | Edema, hepatomegalia | Emagrecimento, déficit de crescimento |
Guarde essa fronteira entre a forma aguda e a crônica da desnutrição: é exatamente nela que os itens I e III se sustentam e o item II se derruba.
A afirmativa está correta. Na DPC grave, a resposta inflamatória sistêmica está atenuada. A produção de citocinas pró-inflamatórias e a capacidade de elevar a temperatura corporal estão comprometidas, de modo que infecções agudas podem cursar sem febre e sem os sinais flogísticos habituais. Isso é consequência da imunossupressão e da depleção de substratos energéticos e proteicos. O item espelha exatamente essa realidade clínica.
A afirmativa está incorreta por dois motivos. Primeiro, a maioria das alterações do estado nutricional é crônica, não aguda — obesidade, desnutrição crônica e deficiências de micronutrientes predominam. Segundo, a avaliação nutricional não exige, em regra, a utilização de "todos os recursos disponíveis"; ela se baseia em métodos simples e graduais, como anamnese, antropometria e, quando necessário, exames laboratoriais. A frase "maior parte de casos... sob a forma aguda" é o erro central.
A afirmativa está correta. A subnutrição de instalação lenta (marasmo, nanismo, emaciação moderada) permite adaptações metabólicas — redução do metabolismo basal, preservação relativa de proteínas viscerais — que conferem um equilíbrio metabólico menos frágil. Já o kwashiorkor de início rápido cursa com edema, hipoalbuminemia e maior instabilidade metabólica. O item descreve com precisão essa diferença fisiopatológica.
A banca explora a confusão entre a forma aguda e a crônica da desnutrição. No item II, ela inverte a prevalência: a maioria dos casos é crônica, não aguda. No item III, ela cobra a adaptação metabólica da forma crônica — um conceito contraintuitivo, pois o senso comum imagina que a desnutrição crônica seria sempre mais grave. Lembre-se: o marasmo, apesar de grave, tem equilíbrio metabólico mais estável que o kwashiorkor agudo.
Para questões de avaliação nutricional, monte mentalmente a tabela aguda × crônica (instalação, exemplo, adaptação, equilíbrio). Se a alternativa falar em "maioria dos casos", desconfie: a maioria das alterações nutricionais é crônica. E lembre-se do paradoxo da DPC grave: infecção sem febre é sinal de alerta, não de ausência de infecção.
Gabarito: letra C — corretos os itens I e III.
Link permanente: /questoes/fg095366