Questão de Medicina — Oncologia — FGV 2024
- Código
- fg095415
- Banca
- FGV
- Órgão
- SES-MT
- Ano
- 2024
- Nível
- Superior
- Cargo
- Médico Oncologista
- AI e II, apenas.
- BI e III, apenas.
- CI, II e III, apenas.
- DI, II, III e IV.
GabaritoB — I e III, apenas.
Gabarito: letra B — corretos os itens I e III. O item I descreve com precisão a epidemiologia e o comportamento agressivo do CPPC (forte associação com tabagismo, crescimento rápido e apresentação metastática em mais de 70% dos casos), e o item III está correto ao afirmar que o estadiamento pode ser feito pelo sistema Veterans' Affairs ou pela classificação AJCC/TNM, sendo o primeiro mais utilizado pela praticidade e aplicabilidade terapêutica. O item II está incorreto porque a biópsia de medula óssea não é indicada como rotina no estadiamento do CPPC, e o item IV está incorreto porque a radioterapia torácica tem papel tanto na doença limitada quanto na doença extensa, com ganho de sobrevida global também nesse cenário.
O carcinoma de pulmão de pequenas células (CPPC) é uma neoplasia neuroendócrina pulmonar, fortemente associada ao tabagismo, que se caracteriza por crescimento rápido e disseminação metastática precoce. Diferentemente do carcinoma de pulmão de não pequenas células (CPNPC), o CPPC raramente é diagnosticado em estágio inicial, sendo que a maioria dos pacientes já apresenta doença metastática ao diagnóstico. Essa agressividade biológica explica por que o tratamento sistêmico (quimioterapia e imunoterapia) é a espinha dorsal do manejo, com a radioterapia torácica desempenhando papel importante tanto na doença limitada quanto na doença extensa.
O estadiamento do CPPC pode ser realizado por dois sistemas: o sistema Veterans' Affairs (VALG) e a classificação AJCC/TNM. O sistema VALG divide a doença em limitada (restrita a um hemitórax, podendo incluir linfonodos hilares e mediastinais ipsilaterais) e extensa (doença além desses limites). Essa classificação é amplamente utilizada na prática clínica por sua simplicidade e por orientar diretamente a estratégia terapêutica: doença limitada é tratada com quimioterapia associada à radioterapia torácica definitiva, enquanto doença extensa é tratada predominantemente com quimioterapia sistêmica. A classificação AJCC/TNM, por sua vez, é mais detalhada e permite melhor estratificação prognóstica, sendo cada vez mais incorporada à prática, mas o sistema VALG ainda é o mais utilizado em virtude de sua praticidade.
A radioterapia torácica tem papel estabelecido na doença limitada, onde, associada à quimioterapia, melhora a sobrevida global. Na doença extensa, a radioterapia torácica também demonstrou benefício em sobrevida global em pacientes que respondem à quimioterapia, especialmente naqueles com doença residual torácica. Além disso, a radioterapia é amplamente utilizada para controle de sintomas (paliação) em casos selecionados, como hemoptise, dor torácica ou obstrução de via aérea. Portanto, afirmar que a radioterapia torácica "só tem papel na doença limitada" é incorreto, pois há evidência de ganho de sobrevida global também na doença extensa.
A biópsia de medula óssea, historicamente utilizada no estadiamento do CPPC, não é mais indicada como rotina. Com o advento de métodos de imagem mais sensíveis, como a tomografia computadorizada e a PET-TC, a biópsia de medula é reservada para situações específicas, como alterações suspeitas no hemograma pré-tratamento ou metástases ósseas identificadas em exames de imagem. Essa mudança reflete a evolução do estadiamento, que busca evitar procedimentos invasivos desnecessários.
A pegadinha desta questão está na sutileza dos itens II e IV. O item II parece correto ao afirmar que a biópsia de medula não é rotina, mas a justificativa apresentada ("devendo ser considerada se houver alterações suspeitas no hemograma pré-tratamento e/ou metástases ósseas em cintilografia óssea ou PET-TC") está incorreta, pois a biópsia de medula não é indicada nesses cenários. O item IV, por sua vez, parece correto ao afirmar que a radioterapia torácica pode ser considerada para controle de sintomas na doença extensa, mas erra ao afirmar que "só tem papel na doença limitada" e que não há evidência de ganho de sobrevida global nesse cenário.
O item I está correto. O CPPC compreende cerca de 13% das neoplasias pulmonares, é o tipo histológico com maior associação com o tabagismo, caracteriza-se por crescimento rápido e disseminação metastática precoce, apresentando-se como doença metastática em mais de 70% dos casos ao diagnóstico. Essas características são amplamente descritas na literatura oncológica e refletem a biologia agressiva do tumor.
O item II está incorreto. Embora a biópsia de medula óssea não seja indicada como rotina no estadiamento do CPPC, a justificativa apresentada está errada. A biópsia de medula não é considerada rotineiramente mesmo na presença de alterações suspeitas no hemograma ou metástases ósseas, pois esses achados são melhor avaliados por métodos de imagem e por outros exames laboratoriais. A indicação de biópsia de medula é excepcional e não segue os critérios mencionados.
O item III está correto. O estadiamento do CPPC pode ser realizado pelo sistema Veterans' Affairs (VALG) ou pela classificação AJCC/TNM. O sistema VALG é mais utilizado na prática clínica por sua praticidade e aplicabilidade terapêutica, pois divide a doença em limitada e extensa, orientando diretamente a estratégia de tratamento, incluindo a indicação de radioterapia torácica definitiva na doença limitada.
O item IV está incorreto. A radioterapia torácica não tem papel apenas na doença limitada. Na doença extensa, a radioterapia torácica demonstrou ganho de sobrevida global em pacientes que respondem à quimioterapia, além de ser utilizada para controle de sintomas em casos selecionados. Portanto, a afirmação de que "só tem papel na doença limitada" e que "não há evidência de ganho em sobrevida global nesse cenário" está incorreta.
Conclusão: corretos os itens I e III, portanto o gabarito é a letra B.
Gabarito: letra B
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