Questão de Medicina — Neurologia — FGV 2024
- Código
- fg095581
- Banca
- FGV
- Órgão
- SES-MT
- Ano
- 2024
- Nível
- Superior
- Cargo
- Médico Pediatra
- AF, V e F.
- BF, V e V.
- CV, F e F.
- DV, V e F.
GabaritoD — V, V e F.
Gabarito: letra D — sequência V, V e F. As duas primeiras afirmativas são verdadeiras: a encefalite herpética pode, sim, desencadear encefalite autoimune após recuperação inicial, e tumores como neuroblastoma e teratomas ovarianos podem ativar o sistema imunológico contra proteínas neuronais. A terceira é falsa, pois a recuperação não é rápida — o quadro costuma ser grave, com sequelas e necessidade de suporte multidisciplinar prolongado. O conhecimento aqui é essencialmente clínico, baseado na fisiopatologia das encefalites autoimunes descrita na literatura médica.
A encefalite autoimune é um grupo de doenças inflamatórias do cérebro associadas a anticorpos dirigidos contra proteínas de superfície de células neuronais, canais iônicos ou receptores — como NMDAR, AMPAR, GABA e LGI1. Diferentemente das síndromes paraneoplásicas clássicas, em que os anticorpos miram antígenos intracelulares, na encefalite autoimune os anticorpos ligam-se a epítopos extracelulares, o que explica a resposta muitas vezes favorável à imunoterapia. Dois gatilhos potenciais são reconhecidos: tumores e encefalite viral — e é exatamente nesses dois pontos que as afirmativas I e II se ancoram.
O mecanismo por trás da afirmativa I é fascinante e muito cobrado: o vírus herpes simples (HSV-1), ao infectar o lobo temporal, causa destruição neuronal e liberação de antígenos que antes eram "escondidos" do sistema imunológico. Após o tratamento antiviral e a recuperação inicial, o sistema imune pode reagir de forma cruzada contra esses antígenos neuronais agora expostos, desencadeando uma encefalite autoimune secundária. Esse fenômeno é bem documentado e explica por que pacientes com encefalite herpética podem apresentar recaídas mesmo com o vírus controlado.
A afirmativa II aborda o gatilho paraneoplásico. Tumores como neuroblastoma (mais comum em crianças) e teratomas ovarianos (frequentemente associados à encefalite anti-NMDAR) expressam proteínas neuronais que o sistema imunológico reconhece como estranhas, gerando anticorpos que atacam o tecido nervoso normal. No teratoma ovariano, por exemplo, o tumor contém tecido neural imaturo que expressa receptores NMDAR, e a resposta imune contra esse tecido acaba atingindo o cérebro.
A afirmativa III é a pegadinha clássica: a recuperação nas encefalites autoimunes raramente é rápida. O quadro é frequentemente grave, com sintomas neuropsiquiátricos intensos (psicose, convulsões, alterações de comportamento), e o tratamento envolve imunoterapia (corticoides, imunoglobulina, plasmaférese) e suporte multidisciplinar prolongado — muitas vezes com meses de internação e reabilitação. A palavra "rápida" é o termo que torna a afirmativa falsa.
A banca explora a inversão do tempo de recuperação. O candidato pode associar "encefalite" a um quadro agudo que melhora rápido, mas na encefalite autoimune a evolução é arrastada, com sequelas frequentes. Fique atento a palavras como "rápida", "imediata" ou "completa" — elas costumam sinalizar a falsidade da afirmativa.
A afirmativa está correta. A encefalite herpética é um gatilho reconhecido para encefalite autoimune. O HSV-1 causa destruição neuronal no lobo temporal, expondo antígenos que desencadeiam resposta autoimune secundária. Pacientes que apresentam recuperação inicial e depois recaem podem estar desenvolvendo encefalite autoimune, mesmo com o vírus controlado. Esse é um fenômeno bem documentado na literatura e um ponto importante na prática clínica.
A afirmativa está correta. Tumores como neuroblastoma e teratomas ovarianos podem ativar o sistema imunológico contra proteínas neuronais. No teratoma ovariano, o tumor expressa receptores NMDAR, e a resposta imune contra esse tecido acaba atingindo o cérebro — mecanismo clássico da encefalite anti-NMDAR. O neuroblastoma, por sua vez, expressa antígenos neuronais que podem desencadear resposta paraneoplásica. Esse é o gatilho tumoral das encefalites autoimunes.
A afirmativa está incorreta. A recuperação nas encefalites autoimunes não é rápida. O quadro é frequentemente grave, com sintomas neuropsiquiátricos intensos, e o tratamento envolve imunoterapia e suporte multidisciplinar prolongado — muitas vezes com meses de internação e reabilitação. A palavra "rápida" é o termo que torna a afirmativa falsa. A recuperação costuma ser lenta e incompleta, com sequelas frequentes.
Conclusão: Verdadeiras: 1 e 2; Falsa: 3 → sequência V, V, F → letra D.
Gabarito: letra D
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