Questão de Medicina — Medicina Intensiva — FGV 2024
- Código
- fg098925
- Banca
- FGV
- Órgão
- TJ-MS
- Ano
- 2024
- Nível
- Superior
- Cargo
- Técnico de Nível Superior - Médico - Clínica Médica
- AN-acetilcisteina;
- Bdesferoxamina;
- Cdimercaprol;
- Dglucagon;
- Eatropine.
GabaritoA — N-acetilcisteina;
Gabarito: letra A. A intoxicação por paracetamol é tratada com N-acetilcisteína, que repõe os estoques de glutationa hepática e neutraliza o metabólito tóxico NAPQI — é o antídoto específico e de primeira linha para esse agente. As demais alternativas são antídotos de outras intoxicações (ferro, metais pesados, betabloqueadores, organofosforados), o que configura a pegadinha central da questão.
A intoxicação por paracetamol é uma das causas mais comuns de insuficiência hepática aguda por overdose medicamentosa. O paracetamol é metabolizado no fígado por três vias: glucuronidação, sulfatação e, em pequena parcela, pelo citocromo P450 (CYP2E1), que gera o metabólito reativo N-acetil-p-benzoquinoneimina (NAPQI). Em doses terapêuticas, o NAPQI é rapidamente conjugado pela glutationa e excretado. Na overdose, os estoques de glutationa se esgotam, o NAPQI se acumula e se liga covalentemente às proteínas dos hepatócitos, causando necrose hepática centrolobular.
A N-acetilcisteína (NAC) atua como antídoto por três mecanismos principais: (1) repõe os estoques de glutationa, fornecendo cisteína, o substrato limitante para sua síntese; (2) atua diretamente como antioxidante, neutralizando o NAPQI; e (3) melhora o fluxo sanguíneo hepático e a oxigenação tecidual. O tratamento deve ser iniciado o mais precocemente possível, idealmente dentro de 8 a 10 horas da ingestão, quando é mais eficaz, mas deve ser administrado mesmo após esse período, pois ainda reduz a morbimortalidade.
A indicação do antídoto é guiada pelo nomograma de Rumack-Matthew, que correlaciona a concentração plasmática de paracetamol com o tempo decorrido desde a ingestão. A dose de ataque é de 140 mg/kg por via oral, seguida de 17 doses de 70 mg/kg a cada 4 horas. Alternativamente, pode-se usar a via intravenosa, com dose inicial de 150 mg/kg em 60 minutos, seguida de 50 mg/kg em 4 horas e 100 mg/kg nas 16 horas seguintes (protocolo de 21 horas).
A distinção que importa aqui é entre os antídotos de cada agente tóxico. A banca explora exatamente a confusão entre eles: cada alternativa incorreta corresponde a um antídoto de outra intoxicação, e o candidato que não domina a tabela de antídotos acaba errando. A regra de ouro é: para cada agente, um antídoto específico — e o paracetamol é um dos mais cobrados.
Lei 6.360/1976 (dispõe sobre vigilância sanitária a que ficam sujeitos os medicamentos):
Art. 1º — "Ficam sujeitos às normas de vigilância sanitária, os medicamentos, as drogas, os insumos farmacêuticos e correlatos, definidos na Lei nº 5.991, de 17 de dezembro de 1973, bem como os produtos de higiene, os cosméticos, perfumes, saneantes, domissanitários e outros."
Guarde a correspondência entre agente e antídoto: é exatamente nela que as alternativas se dividem. Cada letra incorreta representa um antídoto de outra intoxicação, e a correta é a única que corresponde ao paracetamol.
A N-acetilcisteína é o antídoto específico para intoxicação por paracetamol. Ela atua repondo os estoques de glutationa hepática, neutralizando o metabólito tóxico NAPQI e prevenindo a hepatotoxicidade. A dose de ataque é de 140 mg/kg VO, seguida de 17 doses de 70 mg/kg a cada 4 horas, ou o protocolo intravenoso de 21 horas (150 mg/kg em 60 min, depois 50 mg/kg em 4 h e 100 mg/kg em 16 h). A indicação é guiada pelo nomograma de Rumack-Matthew, e o tratamento deve ser iniciado precocemente, idealmente dentro de 8 a 10 horas da ingestão.
A desferoxamina é o antídoto para intoxicação por ferro, não por paracetamol. Ela quelata o ferro livre no plasma, formando um complexo excretado pelos rins. É indicada quando o ferro sérico é > 500 µg/dL ou há sinais de gravidade (diarreia com sangue, choque, acidose metabólica). A banca troca o antídoto do paracetamol pelo do ferro, uma confusão clássica entre intoxicações medicamentosas.
O dimercaprol (BAL) é um quelante usado na intoxicação por metais pesados, como arsênio, mercúrio e chumbo. Não tem nenhuma ação na intoxicação por paracetamol. A banca explora a confusão entre antídotos de diferentes classes de tóxicos — aqui, um metal pesado em vez de um fármaco.
O glucagon é o antídoto para intoxicação por betabloqueadores (como propranolol) e, em alguns casos, por bloqueadores de canais de cálcio. Ele atua aumentando o AMPc cardíaco, melhorando a contratilidade e a condução, independentemente dos receptores beta. Não tem indicação na intoxicação por paracetamol. A banca troca o antídoto do paracetamol pelo de uma intoxicação cardiovascular.
A atropina é o antídoto para intoxicação por organofosforados e carbamatos (inseticidas), agindo como antagonista muscarínico. Também é usada no tratamento de bradicardia sintomática. Não tem nenhuma relação com a intoxicação por paracetamol. A banca explora a confusão entre antídotos de intoxicações exógenas de diferentes mecanismos.
A regra de ouro para a prova: cada agente tóxico tem seu antídoto específico, e o paracetamol é um dos mais cobrados — a N-acetilcisteína é a resposta direta. Memorize a tabela de antídotos: paracetamol → N-acetilcisteína; ferro → desferoxamina; metais pesados → dimercaprol; betabloqueadores → glucagon; organofosforados → atropina.
Gabarito: letra A
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