Questão de Português — Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto — FGV 2024
Português›Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto
Código
fg102093
Banca
FGV
Órgão
CGE-PB
Ano
2024
Nível
Superior
Observe o seguinte capítulo do romance Dom Casmurro, de Machado de Assis:“Pádua era empregado em repartição dependente do ministério da guerra. Não ganhava muito, mas a mulher gastava pouco, e a vida era barata. Demais, a casa em que morava, assobradada como a nossa, posto que menor, era propriedade dele. Comprou-a com a sorte grande que lhe saiu num meio bilhete de loteria, dez contos de réis. A primeira ideia do Pádua, quando lhe saiu o prêmio, foi comprar um cavalo do Cabo, um adereço de brilhantes para a mulher, uma sepultura perpétua de família, mandar vir da Europa alguns pássaros, etc.; mas a mulher, esta D. Fortunata que ali está à porta dos fundos da casa, em pé, falando à filha, alta, forte, cheia, como a filha, a mesma cabeça, os mesmos olhos claros, a mulher é que lhe disse que o melhor era comprar a casa, e guardar o que sobrasse para acudir às moléstias grandes. Pádua hesitou muito; afinal, teve de ceder aos conselhos de minha mãe, a quem D. Fortunata pediu auxílio. Nem foi só nessa ocasião que minha mãe lhes valeu; um dia chegou a salvar a vida do Pádua. Escutai; a anedota é curta.O administrador da repartição em que Pádua trabalhava teve de ir ao Norte, em comissão. Pádua, ou por ordem regulamentar, ou por especial designação, ficou substituindo o administrador com os respectivos honorários. Esta mudança de fortuna trouxe-lhe certa vertigem; era antes dos dez contos. Não se contentou de reformar a roupa e a copa, atirou-se às despesas supérfluas, deu joias à mulher, nos dias de festa matava um leitão, era visto em teatros, chegou aos sapatos de verniz. Viveu assim vinte e dois meses na suposição de uma eterna interinidade”.Sobre a esquematização do tempo nesse fragmento narrativo, é correto afirmar que:
Ao texto mostra uma evolução cronológica contínua dos fatos narrados;
Bocorre no texto acima uma prolepse, ou seja, uma antecipação das ações futuras;
Cparte do fragmento textual mostra uma pausa, ou seja, um momento em que a ação narrativa para;
Dentre os fatos narrados no texto há uma elipse de tempo, quando se salta de um momento a outro na sequência;
Eo fragmento mostra a esquematização básica dos textos narrativos: uma situação inicial, um elemento perturbador, os fatos ou acontecimentos e uma resolução final.
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GabaritoC — parte do fragmento textual mostra uma pausa, ou seja, um momento em que a ação narrativa para;
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ção temporal em Dom Casmurro
Gabarito: letra C. O fragmento apresenta uma pausa narrativa, ou seja, um momento em que a ação principal é interrompida para um comentário do narrador. Isso ocorre na passagem:
"Nem foi só nessa ocasião que minha mãe lhes valeu; um dia chegou a salvar a vida do Pádua. Escutai; a anedota é curta."
O vocativo "Escutai" e a promessa de uma anedota interrompem o fluxo cronológico para inserir uma digressão — característica típica de pausa, e não de avanço ou retrocesso no tempo diegético.
Alternativa A — ❌ Incorreta
Afirma evolução cronológica contínua. O texto, porém, interrompe a linha do tempo com a pausa e, em seguida, narra um fato anterior (a substituição do administrador), o que impede a continuidade linear. Erro: contradiz o texto.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Fala em prolepse (antecipação de futuro). Não há nenhum salto para frente no tempo; a única quebra temporal é uma analepse (volta ao passado) e uma pausa. Erro: troca de conceito.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
O fragmento contém uma pausa: o narrador dirige-se diretamente ao leitor ("Escutai; a anedota é curta"), parando a narrativa para fazer um comentário metalinguístico. Esse recurso é classificado como pausa na teoria narrativa, pois o tempo diegético não avança enquanto o narrador se desvia. A ação só retoma com a anedota.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Alega haver elipse (salto temporal não narrado). O texto não omite períodos; ele narra de forma sumariada os 22 meses ("Viveu assim vinte e dois meses"), mas isso é um sumário, e não uma elipse. Além disso, a pausa não configura elipse. Erro: confunde pausa/sumário com elipse.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Propõe que o fragmento exibe a estrutura básica completa (situação inicial, elemento perturbador, acontecimentos, resolução). O trecho é apenas parcial; não há resolução final fechada, e a anedota em si é uma digressão. Erro: extrapola ao atribuir uma estrutura completa a um fragmento.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a diferença entre pausa, elipse e sumário. O candidato pode confundir a interrupção metalinguística (pausa) com uma analepse ou com uma elipse. Lembre-se: pausa é o tempo narrativo que para, não avança nem retrocede na história.