Questão de História e Geografia de Estados e Municípios — História e Geografia do Estado do Pará — FGV 2024
História e Geografia de Estados e Municípios›História e Geografia do Estado do Pará
Código
fg103626
Banca
FGV
Órgão
TCE-PA
Ano
2024
Nível
Superior
A respeito da obra do artista contemporâneo Éder Oliveira, leia um trecho de sua entrevista e observe uma de suas telas.Essa obra é um autorretrato do meu trabalho. Ali consta tudo que venho fazendo nos últimos anos. Em um primeiro plano, tem um homem que está sendo forçado por um policial a ser fotografado. O policial puxa o rosto dele. Depois a foto vai para um jornal, eu me aproprio do jornal. E nessa de transformar em pintura, eu propositalmente cubro um pouco a identidade desse homem. Quando ele vira pintura, ele deixa de ser aquela pessoa. Eu pinto essas pessoas todas de vermelho, de azul. Isso ajuda a torná-los menos reconhecíveis enquanto indivíduos, enquanto fulano que foi preso por tal coisa. Então, é por isso que o meu braço cobre a identidade dele fazendo uma tarja vermelha. Uma alegoria do meu trabalho, um autorretrato.Trecho adaptado de entrevista com o artista paraenese Éder de Oliveira in: https://www.revistaderivasanaliticas.com.br/index.php/ederCom base na entrevista e na imagem, analise as afirmativas a seguir sobre a obra de Éder Oliveira.I. O artista se especializou no gênero autorretrato, usado para investigar a própria individualidade, única e irrepetível, em um contexto paraense marcado pelo hibridismo cultural.II. As fotos, publicadas em jornais, de homens presos, ou supostos autores de crimes, são ressignificadas pictoricamente e denunciam a construção de uma identidade social negativa e violenta associada aos ditos homens comuns, os negros, mestiços e caboclos amazonenses.III. A obra explora as relações entre retrato, imagem e identidade, estabelecendo um diálogo entre arte e mídia para denunciar mecanismos de invisibilidade e estigmatização social.Está correto o que se afirma em
AI, apenas.
BI e II, apenas.
CI e III, apenas.
DII e III, apenas.
EI, II e III.
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GabaritoD — II e III, apenas.
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Éder Oliveira: retrato, imagem e identidade na arte paraense
Gabarito: letra D (II e III, apenas). A obra de Éder Oliveira não se limita ao gênero autorretrato — o artista se apropria de fotografias jornalísticas de homens presos e as ressignifica em pintura, cobrindo a identidade dos retratados com tarjas coloridas para denunciar a estigmatização social. As afirmativas II e III capturam corretamente esse processo; a afirmativa I erra ao reduzir a obra a uma investigação da individualidade do artista, quando o foco é a construção social da identidade dos retratados.
A obra de Éder Oliveira, artista contemporâneo paraense, dialoga diretamente com a tradição do retrato, mas o subverte. Em vez de celebrar a individualidade única do retratado, o artista parte de fotografias publicadas em jornais — imagens de homens presos ou supostos autores de crimes — e as transforma em pinturas. Nesse processo, ele cobre parcialmente o rosto dos retratados com tarjas de cor (vermelho, azul), tornando-os menos reconhecíveis como indivíduos específicos. O que interessa ao artista não é "quem é aquela pessoa", mas o que ela representa socialmente: o homem comum, negro, mestiço ou caboclo, que a mídia e o imaginário social associam à criminalidade.
Essa operação artística tem um duplo movimento. Primeiro, a apropriação: o artista retira a imagem do contexto jornalístico (onde ela cumpre uma função informativa, muitas vezes sensacionalista) e a insere no campo da arte. Segundo, a ressignificação: ao pintar o rosto com cores chapadas e cobrir a identidade, ele transforma o retrato individual em um símbolo — o retrato de uma condição social. A tarja vermelha, como o próprio artista explica, é uma "alegoria do meu trabalho": ela cobre a identidade para revelar o mecanismo de estigmatização. Não é um apagamento, mas uma denúncia do apagamento que a sociedade já opera sobre esses sujeitos.
A relação entre arte e mídia é central. O artista não apenas usa o jornal como fonte de imagens, mas critica o papel da mídia na construção de identidades sociais negativas. A foto publicada no jornal já é, em si, um ato de rotulação: ela apresenta o homem como "suspeito", "criminoso", antes de qualquer julgamento. Ao se apropriar dessa imagem e cobri-la com tinta, Éder Oliveira expõe esse mecanismo — a pintura não esconde o crime, mas esconde o indivíduo para mostrar como a sociedade o enxerga. É uma crítica à violência simbólica exercida pela mídia e pelo Estado sobre as populações marginalizadas da Amazônia.
A questão explora, portanto, três eixos: o gênero do retrato (e sua subversão), a relação entre arte e mídia, e a construção social da identidade. A pegadinha está na afirmativa I: o artista não se especializou em autorretrato, e a obra não investiga a própria individualidade do artista, mas a identidade social dos retratados. O autorretrato mencionado na entrevista é metafórico — a obra é um autorretrato do trabalho do artista, não de sua pessoa. Guarde essa distinção: é ela que separa as alternativas.
Éder Oliveira: obra e processo: Ponto de partida (Fotos de jornal (homens presos), Apropriação da imagem); Transformação em pintura (Tarjas coloridas (vermelho, azul), Cobre a identidade do retratado); Efeito (Indivíduo vira símbolo, Denúncia da estigmatização social); Relação com a mídia (Crítica à rotulação, Violência simbólica)
Item I — ❌ Incorreto
A afirmativa erra ao afirmar que o artista "se especializou no gênero autorretrato, usado para investigar a própria individualidade". A obra de Éder Oliveira não é um autorretrato no sentido tradicional — o artista não pinta a si mesmo. A entrevista deixa claro que a obra é um "autorretrato do meu trabalho", ou seja, uma síntese de sua produção, não de sua imagem. O foco não é a individualidade única do artista, mas a identidade social dos retratados — homens comuns, negros, mestiços e caboclos, estigmatizados pela mídia. A afirmativa confunde o sentido metafórico de "autorretrato" com o gênero artístico literal.
Item II — ✅ Correto
A afirmativa descreve com precisão o processo de ressignificação pictórica das fotos jornalísticas. O artista se apropria de imagens de homens presos ou supostos autores de crimes publicadas em jornais e as transforma em pintura, cobrindo a identidade dos retratados. Essa operação denuncia a construção de uma identidade social negativa e violenta associada aos "ditos homens comuns, os negros, mestiços e caboclos amazonenses" — exatamente o que a entrevista e a obra evidenciam. A tarja vermelha que cobre o rosto é a materialização dessa denúncia: o indivíduo deixa de ser "fulano que foi preso por tal coisa" para se tornar símbolo de uma condição social imposta.
Item III — ✅ Correto
A afirmativa sintetiza corretamente os eixos centrais da obra: a exploração das relações entre retrato, imagem e identidade, e o diálogo entre arte e mídia. A obra parte de imagens midiáticas (fotos de jornal) e as transforma em pintura, questionando como a mídia constrói identidades sociais. Ao cobrir o rosto dos retratados, o artista denuncia os mecanismos de invisibilidade (o indivíduo é apagado como pessoa) e de estigmatização (ele é reduzido à condição de suspeito ou criminoso). A afirmativa está correta em todos os seus termos.
Conclusão: Corretos os itens II e III → portanto, a alternativa é a letra D.