Questão de História e Geografia de Estados e Municípios — História e Geografia do Estado do Pará — FGV 2024
História e Geografia de Estados e Municípios›História e Geografia do Estado do Pará
Código
fg103636
Banca
FGV
Órgão
TCE-PA
Ano
2024
Nível
Superior
A respeito da obra do artista contemporâneo Éder Oliveira, leia um trecho de sua entrevista e observe uma de suas telas.Essa obra é um autorretrato do meu trabalho. Ali consta tudo que venho fazendo nos últimos anos. Em um primeiro plano, tem um homem que está sendo forçado por um policial a ser fotografado. O policial puxa o rosto dele. Depois a foto vai para um jornal, eu me aproprio do jornal. E nessa de transformar em pintura, eu propositalmente cubro um pouco a identidade desse homem. Quando ele vira pintura, ele deixa de ser aquela pessoa. Eu pinto essas pessoas todas de vermelho, de azul. Isso ajuda a torná-los menos reconhecíveis enquanto indivíduos, enquanto fulano que foi preso por tal coisa. Então, é por isso que o meu braço cobre a identidade dele fazendo uma tarja vermelha. Uma alegoria do meu trabalho, um autorretrato.Trecho adaptado de entrevista com o artista paraenese Éder de Oliveira in: https://www.revistaderivasanaliticas.com.br/index.php/ederÉder Oliveira, Autorretrato, 2016. Óleo sobre tela, 297 x 205 cm.Com base na entrevista e na imagem, analise as afirmativas a seguir sobre a obra de Éder Oliveira.I. O artista se especializou no gênero autorretrato, usado para investigar a própria individualidade, única e irrepetível, em um contexto paraense marcado pelo hibridismo cultural.II. As fotos, publicadas em jornais, de homens presos, ou supostos autores de crimes, são ressignificadas pictoricamente e denunciam a construção de uma identidade social negativa e violenta associada aos ditos homens comuns, os negros, mestiços e caboclos amazonenses.III. A obra explora as relações entre retrato, imagem e identidade, estabelecendo um diálogo entre arte e mídia para denunciar mecanismos de invisibilidade e estigmatização social.Está correto o que se afirma em
AI, apenas.
BI e II, apenas.
CI e III, apenas.
DII e III, apenas.
EI, II e III.
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GabaritoD — II e III, apenas.
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Éder Oliveira: retrato, identidade e crítica social na arte paraense
Gabarito: letra D (II e III, apenas). A obra de Éder Oliveira não se limita ao gênero autorretrato como investigação da individualidade única do artista; ela parte de fotografias jornalísticas de homens presos para ressignificá-las pictoricamente, denunciando a estigmatização social de negros, mestiços e caboclos amazônidas (afirmativa II) e explorando o diálogo entre arte e mídia para criticar mecanismos de invisibilidade (afirmativa III). A afirmativa I está incorreta porque o artista não se especializa em autorretrato para investigar a própria individualidade, mas sim para discutir a construção social da identidade de um grupo.
A questão exige a leitura atenta da entrevista do artista paraense Éder Oliveira, que descreve o processo de criação de sua obra "Autorretrato" (2016). O ponto central é compreender que o título da obra é uma alegoria: o artista se coloca como aquele que cobre a identidade do homem fotografado, assim como sua pintura cobre a identidade de todos os retratados. Não se trata de um autorretrato tradicional, que busca captar a essência única do artista, mas de uma reflexão sobre como a mídia e a sociedade constroem identidades sociais negativas para certos grupos.
A entrevista é explícita ao descrever o processo: um homem é forçado por um policial a ser fotografado, a foto vai para um jornal, o artista se apropria do jornal e transforma a imagem em pintura, cobrindo propositalmente a identidade do homem com uma tarja vermelha. Essa tarja é a "alegoria do meu trabalho", ou seja, representa o próprio ato de pintar como uma forma de questionar a identidade que foi atribuída àquela pessoa pela mídia. A pintura, ao tornar o homem menos reconhecível, retira dele o estigma de "fulano que foi preso por tal coisa" e o transforma em um símbolo de uma crítica social mais ampla.
A obra se insere em um contexto de arte contemporânea que dialoga com questões sociais e políticas, especialmente as que envolvem a população amazônida. O artista, ao pintar "essas pessoas todas de vermelho, de azul", não está apenas criando uma estética, mas sim despersonalizando os retratados para que eles representem uma categoria social, e não indivíduos específicos. Essa estratégia é fundamental para a denúncia da estigmatização: ao retirar a identidade individual, o artista evidencia que a violência e a negatividade são dirigidas a um grupo social, e não a uma pessoa em particular.
A distinção crucial para resolver a questão está entre o autorretrato como gênero tradicional (investigação da individualidade) e o autorretrato como alegoria do processo artístico (crítica social). A afirmativa I erra ao reduzir a obra ao primeiro sentido, ignorando o conteúdo social e político que a entrevista evidencia. As afirmativas II e III capturam corretamente a essência da obra: a ressignificação de fotos jornalísticas e o diálogo entre arte e mídia para denunciar a estigmatização e a invisibilidade social. É exatamente essa fronteira entre o individual e o social que separa as alternativas.
Obra de Éder Oliveira: Processo (Foto jornalística de homem preso, Apropriação da imagem, Pintura cobre a identidade); Sentido do "autorretrato" (Alegoria do trabalho do artista, Não é investigação da individualidade); Crítica social (Estigmatização de negros, mestiços e caboclos, Diálogo arte × mídia, Invisibilidade do grupo social)
Item I — ❌ Incorreto
A afirmativa erra ao afirmar que o artista "se especializou no gênero autorretrato, usado para investigar a própria individualidade, única e irrepetível". A entrevista mostra que a obra é um "autorretrato do meu trabalho", ou seja, uma alegoria do processo artístico, e não uma investigação da individualidade do artista. O foco não é a subjetividade única de Éder Oliveira, mas a construção social da identidade de homens comuns, negros, mestiços e caboclos, que são estigmatizados pela mídia. O termo "autorretrato" é usado metaforicamente para descrever a prática do artista de cobrir a identidade dos retratados, e não para se enquadrar no gênero tradicional.
Item II — ✅ Correto
A afirmativa está correta ao descrever o processo de ressignificação pictórica das fotos de homens presos publicadas em jornais. A entrevista confirma que o artista se apropria dessas imagens e as transforma em pintura, cobrindo a identidade dos retratados. Essa ação denuncia a construção de uma identidade social negativa e violenta associada aos "homens comuns, os negros, mestiços e caboclos amazonenses". A pintura, ao despersonalizar os indivíduos, evidencia que a estigmatização é dirigida a um grupo social, e não a pessoas específicas.
Item III — ✅ Correto
A afirmativa está correta ao destacar que a obra explora as relações entre retrato, imagem e identidade, estabelecendo um diálogo entre arte e mídia. O artista parte de fotografias jornalísticas (mídia) para criar pinturas (arte), e nesse processo questiona a identidade que é atribuída aos retratados. A tarja vermelha que cobre o rosto do homem é um mecanismo que denuncia a invisibilidade e a estigmatização social: ao cobrir a identidade individual, o artista mostra como a sociedade enxerga esses homens não como indivíduos, mas como representantes de uma categoria estigmatizada.
Conclusão: Corretos os itens II e III → portanto a alternativa é a letra D.