Questão de Medicina — Doenças Reumatológicas e do Sistema Imunológico — FGV 2025
Medicina›Doenças Reumatológicas e do Sistema Imunológico
Código
fg105125
Banca
FGV
Órgão
AL-AM
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Analista Legislativo - Médico - Clinico Geral
Mulher de 46 anos procura atendimento por fadiga há cerca de 2 a 3 meses. Relata olhos secos, com sensação de prurido e irritação ocular, além de dificuldade para engolir alimentos secos devido à secura bucal persistente. Nega regurgitação nasal de alimentos, disfagia de transferência ou de condução. Descreve episódios recorrentes de aumento de volume parotídeo bilateral, com dor leve e consistência elástica, sem sinais inflamatórios ou febre, que regridem espontaneamente após alguns dias.Ao exame físico, encontra-se em bom estado geral, com pressão arterial de 118/72 mmHg, ausculta cardíaca e pulmonar normais, mucosas orais ressecadas e glândulas parótidas discretamente aumentadas, móveis e indolores. Abdome plano, sem visceromegalias nem linfonodomegalias palpáveis. Exame osteoarticular: sem alterações.Radiografia de tórax: sem alargamento mediastinal ou alterações parenquimatosas.Ultrassonografia de rins e vias urinárias: sem anormalidades.Hemograma: hemoglobina 13 g/dL; VCM 85 fL; leucócitos 5.200/mm³ (diferencial normal); plaquetas 250.000/mm³.Sorologias virais para hepatites B e C e HIV: negativas.Autoanticorpos: FAN (padrão nuclear pontilhado fino, 1:320), antiSSA/Ro positivo, fator reumatoide discretamente elevado (40 UI/mL; VR <20), anti-CCP negativo, anti-DNA de dupla hélice, antiSm e antifosfolipídeos negativos. Complemento sérico, IgG e subtipos: dentro da normalidade. Hepatograma e eletroforese de proteínas: normais.Biópsia de glândula salivar labial: mostra sialadenite linfocítica focal, com infiltrado linfocitário periductal denso, contendo ao menos um foco (agrupamento de ≥50 linfócitos) por 4 mm² de tecido glandular, associado a destruição parcial dos ácinos e preservação de ductos maiores e vasos.Exames laboratoriais recentes mostram acidose metabólica (pH sérico 7,29; bicarbonato 14 mEq/L), com ânion gap normal (10) e hipocalemia (3,0 mEq/L).A urina é alcalina, sem hematúria.A proteinúria é de 400 mg/24h, com creatinina sérica de 1,0 mg/dL, cálcio e CPK normais.Com base no quadro clínico e nos achados laboratoriais, assinale a opção que apresenta o diagnóstico mais provável e a manifestação associada.
ASarcoidose – Nefrolitíase.
BDoença relacionada à IgG4 – Hidronefrose bilateral.
CArtrite Reumatóide – Crioglobulinemia mista.
DLúpus eritematoso sistêmico – Nefrite lúpica classe IV.
ESíndrome de Sjögren – Acidose tubular renal distal (Tipo I).
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
Síndrome de Sjögren: diagnóstico e manifestações sistêmicas
Gabarito: letra E. O quadro é de Síndrome de Sjögren (SS) — mulher de meia-idade com síndrome sicca (olhos e boca secos), aumento parotídeo recorrente e bilateral, FAN pontilhado fino 1:320, anti-SSA/Ro positivo e biópsia de glândula salivar com sialadenite linfocítica focal (≥1 foco de 50 linfócitos/4mm²). A manifestação associada é a acidose tubular renal distal (ATR tipo I), evidenciada pela acidose metabólica com ânion gap normal, hipocalemia e urina alcalina — padrão clássico da ATR distal, que é a manifestação renal mais típica da SS.
A Síndrome de Sjögren é uma doença autoimune crônica que afeta principalmente as glândulas exócrinas, levando à diminuição da produção de lágrimas e saliva — a chamada síndrome sicca. A paciente apresenta exatamente esse quadro: xeroftalmia (olhos secos, prurido, irritação), xerostomia (dificuldade para engolir alimentos secos) e aumento parotídeo bilateral, indolor e de consistência elástica, que regride espontaneamente — um achado clássico, presente em 30-40% dos pacientes. O diagnóstico é confirmado pela combinação de autoanticorpos (anti-SSA/Ro positivo, FAN com padrão pontilhado fino) e pela biópsia de glândula salivar mostrando sialadenite linfocítica focal com focos de ≥50 linfócitos por 4mm² — critério histopatológico essencial.
A SS não é apenas uma doença de glândulas. Ela pode cursar com manifestações extraglandulares, e o rim é um dos órgãos mais acometidos. A manifestação renal mais característica é a nefrite intersticial, que se apresenta tipicamente como acidose tubular renal (ATR). A ATR tipo I (distal) é a mais comum na SS: o túbulo distal não consegue excretar íons hidrogênio (H⁺), resultando em acidose metabólica com ânion gap normal, hipocalemia (pela perda urinária de potássio) e urina persistentemente alcalina (pH > 5,5), mesmo diante da acidemia. É exatamente o que a paciente apresenta: pH sérico 7,29, bicarbonato 14 mEq/L, ânion gap normal (10), potássio 3,0 mEq/L e urina alcalina. A proteinúria leve (400 mg/24h) e a creatinina normal são compatíveis com a nefrite intersticial inicial, sem glomerulonefrite.
A distinção crucial é entre a ATR distal (tipo I) e a ATR proximal (tipo II). Na ATR distal, o defeito está na secreção de H⁺ no túbulo coletor — a urina não acidifica, permanecendo alcalina, e há hipocalemia. Na ATR proximal, há perda de bicarbonato no túbulo proximal, cursando com acidose e, frequentemente, com glicosúria, aminoacidúria e fosfatúria (síndrome de Fanconi). A SS pode causar ambos, mas a distal é a mais frequente. A banca explora exatamente essa associação: a paciente tem SS e a manifestação renal é a ATR tipo I — não nefrite lúpica, não nefrolitíase, não hidronefrose.
A pegadinha desta questão está em duas frentes. Primeiro, a paciente tem FAN positivo e fator reumatoide elevado, o que pode levar o candidato a pensar em lúpus (LES) ou artrite reumatoide (AR). Mas o anti-DNA, anti-Sm e anti-CCP são negativos, e o padrão clínico é de síndrome sicca — não há critérios para LES (sem rash, sem artrite, sem serosite, sem nefrite lúpica) nem para AR (sem artrite erosiva, anti-CCP negativo). Segundo, a acidose metabólica com ânion gap normal e hipocalemia pode confundir com outras causas de ATR, mas a urina alcalina em presença de acidemia é o achado que fecha o diagnóstico de ATR distal. Guarde o par: SS → ATR tipo I (distal) — é a associação mais cobrada e a que a alternativa E espelha.
Critério
Síndrome de Sjögren (SS)
Lúpus Eritematoso Sistêmico (LES)
Manifestação renal típica
Nefrite intersticial → ATR distal (tipo I)
Glomerulonefrite (ex.: classe IV)
Achados urinários
Urina alcalina (pH > 5,5), proteinúria leve, sem hematúria
Hematúria, proteinúria importante (> 1g/24h), cilindros
Sorologia característica
Anti-SSA/Ro positivo, FAN pontilhado fino
Anti-DNA e anti-Sm positivos
Sintomas clássicos
Síndrome sicca (xeroftalmia, xerostomia), aumento parotídeo
Rash, artrite, serosite, fotossensibilidade
Síndrome de Sjögren
1Manifestações glandulares
Xeroftalmia (olhos secos)
Xerostomia (boca seca)
Aumento parotídeo bilateral
2Manifestações extraglandulares
Renal: nefrite intersticial
ATR distal (tipo I)
Acidose metabólica (AG normal)
Hipocalemia
Urina alcalina
Hematológica
Pulmonar
3Diagnóstico
Anti-SSA/Ro positivo
FAN pontilhado fino
Biópsia: sialadenite linfocítica focal
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Alternativa A — ❌ Incorreta
A sarcoidose pode causar aumento parotídeo e hipercalcemia, mas não explica a síndrome sicca com anti-SSA positivo nem a biópsia com sialadenite linfocítica focal. A nefrolitíase não é a manifestação renal típica da sarcoidose — a acidose tubular renal não é o padrão esperado, e a paciente não tem hipercalcemia (cálcio normal). A sarcoidose cursaria com linfadenopatia hilar (ausente na radiografia de tórax) e, frequentemente, com hipercalcemia.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A doença relacionada à IgG4 pode causar aumento de glândulas salivares e nefrite túbulo-intersticial, mas o anti-SSA/Ro positivo e a biópsia com focos linfocitários (e não fibrose em estrela ou infiltrado rico em IgG4) apontam para SS. A hidronefrose bilateral não é manifestação típica da doença por IgG4 — a ultrassonografia de rins e vias urinárias foi normal, afastando obstrução. Além disso, a IgG4 sérica não foi dosada, mas o quadro clínico e sorológico é muito mais compatível com SS.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A artrite reumatoide (AR) pode ter síndrome de Sjögren secundária, mas a paciente não tem artrite (exame osteoarticular normal), anti-CCP negativo e FR apenas discretamente elevado. A crioglobulinemia mista pode ocorrer na SS, mas não é a manifestação renal apresentada — a paciente tem ATR distal, não glomerulonefrite crioglobulinêmica (que cursaria com hematúria, proteinúria mais importante e, possivelmente, hipocomplementemia). O diagnóstico primário é SS, não AR.
Alternativa D — ❌ Incorreta
O lúpus eritematoso sistêmico (LES) pode cursar com FAN positivo e síndrome sicca, mas a paciente não preenche critérios para LES: anti-DNA e anti-Sm negativos, sem manifestações cutâneas típicas, sem artrite, sem serosite, sem citopenias. A nefrite lúpica classe IV (proliferativa difusa) cursaria com hematúria, proteinúria importante (frequentemente > 1g/24h), cilindros e, muitas vezes, hipertensão — a paciente tem proteinúria leve (400 mg/24h), sem hematúria, creatinina normal e urina alcalina, o que é muito mais compatível com nefrite intersticial da SS do que com glomerulonefrite lúpica. A acidose tubular renal não é a apresentação típica da nefrite lúpica classe IV.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A paciente tem todos os elementos para o diagnóstico de Síndrome de Sjögren: síndrome sicca (xeroftalmia e xerostomia), aumento parotídeo bilateral recorrente, FAN pontilhado fino 1:320, anti-SSA/Ro positivo e biópsia de glândula salivar com sialadenite linfocítica focal (≥1 foco de 50 linfócitos/4mm²). A manifestação associada é a acidose tubular renal distal (tipo I): acidose metabólica com ânion gap normal (10), hipocalemia (3,0 mEq/L) e urina alcalina — o trio clássico da ATR distal, que é a manifestação renal mais característica da SS (nefrite intersticial). A proteinúria leve e a creatinina normal são compatíveis com o quadro inicial.
NÃO CAIA NESSA!
A banca arma a questão em duas camadas. Primeiro, o FAN positivo e o FR elevado tentam atrair o candidato para lúpus (alternativa D) ou artrite reumatoide (alternativa C) — mas os anticorpos específicos (anti-DNA, anti-Sm, anti-CCP) são negativos e não há critérios clínicos para essas doenças. Segundo, a acidose metabólica com ânion gap normal e hipocalemia pode ser atribuída a várias causas, mas a urina alcalina na presença de acidemia é o achado que fecha o diagnóstico de ATR distal — e é a associação SS → ATR tipo I que a alternativa E espelha. O candidato que não conhece as manifestações renais da SS cai na alternativa D, achando que a proteinúria indica nefrite lúpica.
PEGA ESSA DICA!
Para questões de síndrome sicca, monte o raciocínio em etapas: (1) reconheça a tríade olhos secos + boca seca + aumento parotídeo → pense em SS; (2) confirme com anti-SSA/Ro e biópsia; (3) diante de acidose metabólica com ânion gap normal, hipocalemia e urina alcalina → ATR distal (tipo I), a manifestação renal clássica da SS. Lembre-se: a ATR distal é a mais comum na SS, e a proximal (tipo II) é menos frequente. Na dúvida entre nefrite lúpica e ATR da SS, a ausência de hematúria e a urina alcalina apontam para a segunda.