Questão de Medicina — Doenças Infecto-Parasitárias — FGV 2025
Medicina›Doenças Infecto-Parasitárias
Código
fg105154
Banca
FGV
Órgão
AL-AM
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Analista Legislativo - Médico - Clinico Geral
Homem de 34 anos, portador de HIV há 8 anos, em uso irregular de terapia antirretroviral, procura o pronto-socorro por cefaleia progressiva, há três semanas, febre baixa e visão turva. Ao exame, apresenta rigidez de nuca discreta e papiledema bilateral.A análise do líquor obtido por punção lombar revela: • Pressão de abertura elevada; • Aspecto claro; • Pleocitose linfocitária discreta; • Hiperproteinorraquia; • Glicose reduzida; • Gram e cultura para germes comuns negativos; • BAAR e GeneXpert negativos; • Presença de leveduras encapsuladas na coloração pela tinta da China. O diagnóstico mais provável é
GabaritoE — meningite por Cryptococcus neoformans.
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
Meningite criptocócica em paciente com HIV/AIDS
Gabarito: letra E. O quadro clínico — cefaleia progressiva, febre baixa, rigidez de nuca discreta e papiledema bilateral — associado ao líquor com pressão de abertura elevada, pleocitose linfocitária discreta, hiperproteinorraquia, glicose reduzida e, sobretudo, presença de leveduras encapsuladas na tinta da China, é patognomônico de meningite por Cryptococcus neoformans. O achado da tinta da China é o elemento decisivo: nenhuma das outras alternativas apresenta esse padrão liquórico.
A criptococose do sistema nervoso central é a infecção fúngica oportunista mais comum em pacientes com AIDS, especialmente naqueles com contagem de linfócitos T CD4 abaixo de 100 células/mm³ e em uso irregular de terapia antirretroviral, como no caso. O Cryptococcus neoformans é uma levedura encapsulada que, ao atingir o SNC, causa uma meningite crônica de evolução subaguda. O quadro clínico clássico inclui cefaleia insidiosa e progressiva, febre baixa, e sinais meníngeos frequentemente discretos ou ausentes — o que contrasta com a exuberância da meningite bacteriana aguda. O papiledema bilateral reflete a hipertensão intracraniana, que é uma marca da doença e explica a pressão de abertura elevada na punção lombar.
O líquor na meningite criptocócica tem um padrão característico: aspecto claro (não turvo), pleocitose linfocitária discreta (geralmente < 100 células/mm³), hiperproteinorraquia e glicose normal ou discretamente reduzida. A tinta da China (nanquim) é um exame rápido e de baixo custo que evidencia a cápsula do fungo como um halo claro ao redor da levedura, com sensibilidade de 60–80% em pacientes com AIDS. A cultura em ágar Sabouraud é o padrão-ouro, e a detecção do antígeno criptocócico no soro e no líquor é altamente sensível e específica.
O diagnóstico diferencial das meningites crônicas em pacientes com HIV inclui, principalmente, a meningite tuberculosa e a neurotoxoplasmose. A meningite tuberculosa também cursa com pleocitose linfocitária, hiperproteinorraquia e hipoglicorraquia, mas a tinta da China é negativa e o BAAR/GeneXpert seriam positivos na maioria dos casos. A neurotoxoplasmose, por sua vez, manifesta-se tipicamente com lesões focais no SNC (abscessos), déficits neurológicos focais e alterações na neuroimagem, não se apresentando como meningite com líquor inflamatório. A leucoencefalopatia multifocal progressiva (LEMP) é uma doença desmielinizante causada pelo vírus JC, que cursa com déficits focais progressivos, sem febre, sem sinais meníngeos e com líquor praticamente normal. Já a meningite pneumocócica é uma meningite bacteriana aguda, com líquor turvo, pleocitose neutrofílica intensa e Gram positivo.
A banca explora a confusão entre as meningites crônicas que acometem pacientes imunocomprometidos. O ponto-chave é reconhecer que a tinta da China positiva é o achado que fecha o diagnóstico de criptococose — nenhuma outra etiologia apresenta esse resultado. Além disso, a evolução subaguda (três semanas), a febre baixa e a rigidez de nuca discreta são típicas da meningite crônica, afastando as causas bacterianas agudas.
Meningites crônicas no HIV: Criptococose (tinta da China +) (Líquor: linfocitário, glicose ↓, Pressão de abertura elevada, Tinta da China positiva); Tuberculose (BAAR/GeneXpert +) (Líquor: linfocitário, glicose ↓, Tinta da China negativa); Neurotoxoplasmose (Lesão focal (abscesso), Sem padrão meníngeo); LEMP (vírus JC) (Desmielinização focal, Líquor normal)
Alternativa A — ❌ Incorreta
A neurotoxoplasmose é a principal causa de lesão focal do SNC em pacientes com AIDS, mas não se manifesta como meningite. O quadro típico inclui déficits neurológicos focais, convulsões e alterações na tomografia (lesões hipodensas com realce anelar). O líquor pode ser inespecífico, mas não apresenta leveduras encapsuladas na tinta da China — esse achado é exclusivo da criptococose.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A meningite pneumocócica é uma meningite bacteriana aguda, com início abrupto, febre alta, sinais meníngeos exuberantes e líquor turvo com pleocitose neutrofílica intensa (geralmente > 1.000 células/mm³), glicose muito baixa e Gram positivo. O caso descrito tem evolução subaguda, líquor claro com pleocitose linfocitária discreta e tinta da China positiva — tudo incompatível com etiologia bacteriana.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A leucoencefalopatia multifocal progressiva (LEMP) é causada pelo vírus JC e caracteriza-se por desmielinização focal, com déficits neurológicos focais progressivos, sem febre, sem cefaleia e sem sinais meníngeos. O líquor é tipicamente normal ou com alterações mínimas, e a tinta da China é negativa. O papiledema e a rigidez de nuca não fazem parte do quadro.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A meningite tuberculosa também é uma meningite crônica com pleocitose linfocitária, hiperproteinorraquia e hipoglicorraquia, e pode cursar com hipertensão intracraniana. No entanto, o diagnóstico seria confirmado por BAAR positivo, GeneXpert positivo ou cultura para Mycobacterium tuberculosis — todos negativos no caso. Além disso, a tinta da China positiva é decisiva para criptococose, não para tuberculose.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A meningite por Cryptococcus neoformans é a causa mais comum de meningite crônica em pacientes com AIDS. O quadro clínico (cefaleia progressiva, febre baixa, rigidez de nuca discreta, papiledema) e o líquor (pressão elevada, pleocitose linfocitária discreta, hiperproteinorraquia, glicose reduzida) são típicos, e a presença de leveduras encapsuladas na tinta da China é o achado patognomônico que confirma o diagnóstico. O uso irregular de TARV e a imunossupressão avançada são fatores de risco clássicos.
NÃO CAIA NESSA!
A banca tenta confundir o candidato com as meningites crônicas que acometem pacientes com HIV. A meningite tuberculosa (alternativa D) tem líquor semelhante, mas a tinta da China positiva e os exames para BAAR/GeneXpert negativos apontam inequivocamente para criptococose. A neurotoxoplasmose (alternativa A) é uma lesão focal, não uma meningite. Guarde: tinta da China positiva = Cryptococcus.
PEGA ESSA DICA!
Na prova, ao se deparar com um paciente HIV+ com cefaleia crônica e líquor com pleocitose linfocitária, hiperproteinorraquia e glicose baixa, lembre-se do mnemônico "Cripto e Tuberculose" — as duas principais causas de meningite crônica. A tinta da China e o GeneXpert/BAAR são os exames que as diferenciam. Se a tinta da China for positiva, o diagnóstico é criptococose; se negativa, investigue tuberculose.