Questão de Medicina — Clínica Médica Humana — FGV 2025
Medicina›Clínica Médica Humana
Código
fg105155
Banca
FGV
Órgão
AL-AM
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Analista Legislativo - Médico - Clinico Geral
Homem de 36 anos, previamente hígido, apresenta dor abdominal em hipocôndrio direito, aumento progressivo do volume abdominal e edema de membros inferiores há duas semanas. Nega febre, consumo de álcool ou uso de drogas ilícitas, mas refere uso recente de anabolizantes injetáveis. Nega dispneia ou dor torácica.Ao exame físico, encontra-se em bom estado geral, sem alterações cardiopulmonares, porém com hepatomegalia dolorosa, ascite moderada e colaterais venosas abdominais proeminentes. A pressão arterial é de 125×80 mmHg, a frequência cardíaca é de 96 bpm e a temperatura é 36,8 °C.Exames laboratoriais: • ALT: 420 U/L (VR < 45) • AST: 380 U/L (VR < 45) • Bilirrubina total: 3,8 mg/dL (direta 2,4 mg/dL) • Albumina: 3,0 g/dL • INR: 1,5 • Plaquetas: 250.000/mm³ • Sorologias virais: HBsAg não reagente, Anti-HBs reagente, Anti-HBc total não reagente; Anti-HAV IgM e IgG não reagentes; Anti-HCV e Anti-HIV não reagentes. A ultrassonografia com Doppler evidencia ausência de fluxo nas veias hepáticas direita e média, hipertrofia do lobo caudado e presença de colaterais intra-hepáticas serpiginosas. Não há dilatação das vias biliares, nódulos hepáticos nem trombose da veia porta e/ou esplênica. Vesícula Biliar sem alterações. Com base nos achados clínicos e de imagem descritos, o diagnóstico mais provável é
Ahepatite viral aguda.
Bsíndrome de Budd–Chiari.
Ccarcinoma hepatocelular (CHC).
Dadenoma hepático.
Einsuficiência cardíaca direita.
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GabaritoB — síndrome de Budd–Chiari.
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Síndrome de Budd-Chiari: diagnóstico em paciente jovem com uso de anabolizantes
Gabarito: letra B. O quadro é de síndrome de Budd-Chiari: homem jovem, uso recente de anabolizantes injetáveis (fator de risco trombofílico), hepatomegalia dolorosa, ascite, colaterais venosas abdominais e, no Doppler, ausência de fluxo nas veias hepáticas direita e média com hipertrofia do lobo caudado — achado patognomônico de obstrução ao fluxo de saída hepático (pós-sinusoidal). A ultrassonografia com Doppler é o exame que fecha o diagnóstico ao demonstrar a trombose das veias hepáticas.
A síndrome de Budd-Chiari é uma doença rara, caracterizada pela obstrução do fluxo venoso hepático em qualquer ponto entre as veias hepáticas e a junção da veia cava inferior com o átrio direito. Essa obstrução pode ser por trombose, membranas ou compressão extrínseca. O que a distingue das outras causas de hipertensão portal é justamente o bloqueio pós-sinusoidal: o sangue chega ao fígado pela veia porta, mas não consegue sair pelas veias hepáticas, gerando congestão hepática, hepatomegalia dolorosa (distensão da cápsula de Glisson), ascite de rápida instalação e circulação colateral. O uso de anabolizantes é um fator de risco reconhecido para trombose venosa, inclusive das veias hepáticas, por seus efeitos pró-trombóticos (aumento de fatores de coagulação e plaquetas, redução de anticoagulantes naturais).
O diagnóstico é essencialmente de imagem. A ultrassonografia com Doppler é o exame inicial de escolha e, no caso, já demonstra o achado decisivo: ausência de fluxo nas veias hepáticas direita e média. A hipertrofia do lobo caudado é um sinal clássico e ocorre porque esse lobo tem drenagem venosa própria, direta para a veia cava inferior, que costuma ser poupada na obstrução — ele então hipertrofia como mecanismo compensatório. As colaterais intra-hepáticas serpiginosas são o fluxo de retorno alternativo que se desenvolve. A ausência de trombose da veia porta e esplênica afasta a trombose portal como causa da hipertensão portal, e a ausência de nódulos hepáticos afasta neoplasia.
O diagnóstico diferencial com as outras alternativas é o ponto central da questão. A hepatite viral aguda (A) cursa com transaminases elevadas, mas não causa obstrução ao fluxo venoso hepático — o Doppler mostraria fluxo normal nas veias hepáticas. O carcinoma hepatocelular (C) e o adenoma hepático (D) são lesões focais, e a ultrassonografia não evidenciou nódulos. A insuficiência cardíaca direita (E) causa hepatomegalia congestiva e ascite, mas o paciente não tem alterações cardiopulmonares ao exame físico (sem turgência jugular, sem dispneia, sem sopros) e o Doppler mostraria fluxo hepático venoso preservado, apenas com padrão de congestão. A presença de colaterais venosas abdominais proeminentes em paciente jovem, sem cirrose prévia, é um forte indicativo de obstrução do fluxo de saída hepático.
A pegadinha da banca está em associar a hepatomegalia dolorosa e a ascite à insuficiência cardíaca direita (E), que é o diagnóstico diferencial clássico, mas o exame físico sem alterações cardiopulmonares e o Doppler com ausência de fluxo nas veias hepáticas fecham o diagnóstico de Budd-Chiari. Guarde o par: hepatomegalia dolorosa + ascite + Doppler com ausência de fluxo nas veias hepáticas = síndrome de Budd-Chiari.
Síndrome de Budd-Chiari: Obstrução do fluxo venoso hepático (Pós-sinusoidal, Veias hepáticas → veia cava inferior); Causas (Trombose (anabolizantes), Membranas, Compressão extrínseca); Quadro clínico (Hepatomegalia dolorosa, Ascite de rápida instalação, Circulação colateral); Diagnóstico (Doppler) (Ausência de fluxo nas veias hepáticas, Hipertrofia do lobo caudado, Colaterais intra-hepáticas)
Alternativa A — ❌ Incorreta
A hepatite viral aguda causa hepatomegalia dolorosa e elevação de transaminases, mas não obstrui o fluxo venoso hepático. O Doppler mostraria fluxo normal nas veias hepáticas. Além disso, as sorologias virais são negativas (HBsAg não reagente, Anti-HBc total não reagente, Anti-HAV IgM e IgG não reagentes, Anti-HCV não reagente), afastando hepatite B, A e C agudas. O Anti-HBs reagente indica apenas imunização prévia (vacina ou infecção curada), não infecção ativa.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A síndrome de Budd-Chiari é a obstrução do fluxo venoso hepático, e o Doppler demonstra exatamente isso: ausência de fluxo nas veias hepáticas direita e média. A hipertrofia do lobo caudado (drenagem venosa própria poupada) e as colaterais intra-hepáticas serpiginosas são achados clássicos. O uso de anabolizantes é o fator de risco trombofílico que desencadeou a trombose das veias hepáticas. O quadro clínico de hepatomegalia dolorosa, ascite e colaterais venosas abdominais em paciente jovem sem doença hepática prévia é típico.
Alternativa C — ❌ Incorreta
O carcinoma hepatocelular (CHC) é uma neoplasia hepática que, em geral, surge em fígado cirrótico. A ultrassonografia não evidenciou nódulos hepáticos, o que afasta o CHC. Além disso, o CHC não causa obstrução das veias hepáticas com o padrão descrito; quando invade as veias, costuma ser a veia porta. O paciente é jovem, sem cirrose prévia, e o uso de anabolizantes não é fator de risco clássico para CHC (embora possa estar associado a adenoma).
Alternativa D — ❌ Incorreta
O adenoma hepático é um tumor benigno, mais comum em mulheres em uso de anticoncepcionais orais, e pode estar associado ao uso de anabolizantes. Porém, é uma lesão focal, e a ultrassonografia não evidenciou nódulos hepáticos. O adenoma não causa obstrução das veias hepáticas nem o quadro de hipertensão portal aguda com ascite e colaterais. O achado de ausência de fluxo nas veias hepáticas é decisivo para afastar essa hipótese.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A insuficiência cardíaca direita (ICD) causa hepatomegalia congestiva dolorosa, ascite e edema de membros inferiores, simulando o quadro. Porém, o paciente não apresenta alterações cardiopulmonares ao exame físico: sem turgência jugular, sem dispneia, sem sopros, sem refluxo hepatojugular. Além disso, o Doppler com ausência de fluxo nas veias hepáticas é um achado de obstrução mecânica, não de congestão passiva — na ICD, o fluxo venoso hepático estaria presente, apenas com padrão de congestão (veias hepáticas dilatadas, mas pérvias). A ausência de fluxo é o diferencial definitivo.
Gabarito: letra B — síndrome de Budd-Chiari, confirmada pelo Doppler com ausência de fluxo nas veias hepáticas e hipertrofia do lobo caudado.