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Questão de Medicina — Doenças Reumatológicas e do Sistema Imunológico — FGV 2025

MedicinaDoenças Reumatológicas e do Sistema Imunológico
Código
fg105161
Banca
FGV
Órgão
AL-AM
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Analista Legislativo - Médico - Clinico Geral
Uma mulher de 56 anos, natural do interior do Amazonas, apresenta astenia há 3 meses associada a episódios recorrentes de púrpura palpável em membros inferiores, artralgia simétrica em pequenas articulações das mãos e punhos e fenômeno de Raynaud. Relata transfusão de hemocomponentes aos 28 anos, após politrauma em acidente automobilístico. Nega febre, tosse persistente, sintomas de vias aéreas superiores ou uso de drogas. O exame físico revela hipertensão arterial, edema em membros inferiores e ausência de sopros cardíacos.Exames laboratoriais: • Creatinina: 1,8 mg/dL • Proteinúria: 2 g/24h • Complemento C4: reduzido • Fator reumatoide: positivo • Anti-CCP: não reagente • FAN: não reagente • Sorologia: reagente para hepatite C; negativa para hepatite B, HIV e VDRL. • EAS: presença de hematúria Sobre essa condição, é correto afirmar que
  1. Atrata-se de vasculite necrosante mediada por ANCA, e o tratamento inicial deve incluir corticoide e ciclofosfamida.
  2. Bo quadro é compatível com vasculite mediada por imunocomplexos; o tratamento principal é antiviral com antivirais de ação direta (DAAs) e, em casos graves, pode-se associar rituximabe.
  3. Co diagnóstico de certeza depende de biópsia de pele mostrando granulomas necrosantes com células gigantes.
  4. Do uso de antivirais está contraindicado até normalização do complemento sérico.
  5. Ea ausência de febre e de FAN positivo exclui a possibilidade de vasculite sistêmica.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — o quadro é compatível com vasculite mediada por imunocomplexos; o tratamento principal é antiviral com antivirais de ação direta (DAAs) e, em casos graves, pode-se associar rituximabe.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Vasculite crioglobulinêmica associada à hepatite C: diagnóstico e tratamento

Gabarito: letra B. O quadro clínico-laboratorial — púrpura palpável, artralgia, fenômeno de Raynaud, glomerulonefrite (proteinúria e hematúria), complemento C4 reduzido, FAN não reagente e sorologia reagente para hepatite C — é clássico de vasculite crioglobulinêmica mista, uma vasculite de pequenos vasos mediada por imunocomplexos. O tratamento principal é antiviral com antivirais de ação direta (DAAs), e o rituximabe pode ser associado em casos graves. A alternativa B espelha exatamente essa conduta.

A vasculite crioglobulinêmica é uma vasculite sistêmica que afeta predominantemente pequenos vasos (capilares, vênulas e arteríolas), causada pela deposição de crioglobulinas — imunoglobulinas que precipitam a temperaturas abaixo de 37°C e se dissolvem com o reaquecimento. No contexto da infecção crônica pelo vírus da hepatite C (HCV), o antígeno viral estimula a produção de crioglobulinas mistas (tipo II e III), que formam imunocomplexos que se depositam na parede dos vasos, ativando o complemento e desencadeando a inflamação vascular. Por isso, o C4 (via clássica do complemento) costuma estar reduzido, enquanto o C3 pode estar normal ou discretamente baixo.

O quadro clínico é polimórfico e inclui a tríade clássica: púrpura palpável (lesões elevadas, não empalidecem à digitopressão, predominando em membros inferiores), artralgia/artrite (geralmente simétrica, poupando grandes articulações) e glomerulonefrite (proteinúria, hematúria, hipertensão e insuficiência renal). O fenômeno de Raynaud também é frequente. A paciente do caso apresenta todos esses elementos, além do antecedente de transfusão sanguínea — via clássica de transmissão do HCV antes da triagem obrigatória nos bancos de sangue.

O diagnóstico é essencialmente clínico-laboratorial, podendo ser confirmado pela dosagem de crioglobulinas (que deve ser feita com coleta e transporte a 37°C) e pela biópsia (pele ou rim) que evidencia vasculite leucocitoclástica com depósito de imunocomplexos. A biópsia, no entanto, não é obrigatória para o diagnóstico, e o achado de granulomas necrosantes com células gigantes é típico de outra vasculite — a granulomatose com poliangiite (GPA), associada a ANCA.

O tratamento mudou radicalmente na última década. Antes, a base era imunossupressão (corticoides, ciclofosfamida) e interferon. Hoje, com os antivirais de ação direta (DAAs), a erradicação do HCV é alcançada em mais de 95% dos casos, levando à remissão da vasculite na maioria dos pacientes. O rituximabe (anticorpo monoclonal anti-CD20) é a principal opção imunossupressora adjuvante, especialmente em casos graves (glomerulonefrite rapidamente progressiva, neuropatia grave, úlceras cutâneas extensas), sendo preferível à ciclofosfamida por melhor perfil de segurança. A alternativa B captura essa abordagem moderna.

A pegadinha central desta questão é a troca do mecanismo fisiopatológico: a banca oferece a alternativa A com "vasculite mediada por ANCA" e tratamento com corticoide e ciclofosfamida, que é o esquema das vasculites associadas a ANCA (GPA, poliangiite microscópica, granulomatose eosinofílica com poliangiite). No caso, porém, a presença de hepatite C, C4 baixo e FAN negativo aponta inequivocamente para a vasculite crioglobulinêmica, que é mediada por imunocomplexos e não por ANCA. Guarde essa distinção: vasculites por imunocomplexos (crioglobulinemia, Henoch-Schönlein, lúpus) × vasculites ANCA-associadas (GPA, MPA, EGPA) — é nela que as alternativas se dividem.

Critério

Vasculite Crioglobulinêmica (HCV)

Vasculite ANCA-associada

Mecanismo

Imunocomplexos (crioglobulinas)

ANCA (autoanticorpos)

Complemento (C4)

Reduzido

Normal

FAN

Geralmente negativo

Geralmente negativo

Sorologia HCV

Reagente

Não relacionada

Tratamento de 1ª linha

Antiviral (DAAs)

Corticoide + imunossupressor (ex.: ciclofosfamida)

Adjuvante em casos graves

Rituximabe

Rituximabe ou ciclofosfamida

Achado histológico típico

Vasculite leucocitoclástica

Granulomas necrosantes (na GPA)

1Mecanismo
Imunocomplexos
C4 reduzido
FAN não reagente
2Clínica
Púrpura palpável
Artralgia simétrica
Glomerulonefrite
Raynaud
3Tratamento
DAAs (principal)
Rituximabe (casos graves)
Vasculite crioglobulinêmica (HCV)
LEVELsoulevel.com.br
Vasculite crioglobulinêmica (HCV): Mecanismo (Imunocomplexos, C4 reduzido, FAN não reagente); Clínica (Púrpura palpável, Artralgia simétrica, Glomerulonefrite, Raynaud); Tratamento (DAAs (principal), Rituximabe (casos graves))

Alternativa A — ❌ Incorreta

Afirma tratar-se de vasculite necrosante mediada por ANCA, com tratamento inicial com corticoide e ciclofosfamida. O erro é duplo: (1) o mecanismo é de imunocomplexos, não ANCA — a paciente tem hepatite C, C4 reduzido e FAN negativo, padrão típico de crioglobulinemia; (2) o tratamento de primeira linha da vasculite crioglobulinêmica associada ao HCV é antiviral com DAAs, não imunossupressão com ciclofosfamida. A ciclofosfamida é reservada para casos refratários ou graves, e mesmo assim o rituximabe é preferido. A alternativa confunde o manejo das vasculites ANCA-associadas com o da crioglobulinemia.

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

O quadro é de vasculite mediada por imunocomplexos — especificamente vasculite crioglobulinêmica associada à hepatite C. O tratamento principal é antiviral com DAAs, que erradica o HCV e leva à remissão da vasculite na maioria dos casos. Em casos graves (glomerulonefrite rapidamente progressiva, neuropatia grave, úlceras extensas), pode-se associar rituximabe, que depleta os linfócitos B produtores de crioglobulinas. A alternativa está correta em todos os seus termos.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Afirma que o diagnóstico de certeza depende de biópsia de pele mostrando granulomas necrosantes com células gigantes. Esse achado histopatológico é típico da granulomatose com poliangiite (GPA), uma vasculite ANCA-associada — não da vasculite crioglobulinêmica. Na crioglobulinemia, a biópsia de pele mostra vasculite leucocitoclástica (infiltrado neutrofílico com fragmentação nuclear — cariorrexe — ao redor dos vasos), com depósito de imunocomplexos. Além disso, o diagnóstico de certeza não depende de biópsia: é clínico-laboratorial, com dosagem de crioglobulinas e sorologia para HCV.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Afirma que o uso de antivirais está contraindicado até a normalização do complemento sérico. É o inverso da conduta correta: os DAAs são o tratamento principal e devem ser iniciados o quanto antes, independentemente dos níveis de complemento. A normalização do C4 é uma consequência esperada da erradicação viral, não um pré-requisito para o tratamento. A alternativa inverte a lógica terapêutica.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Afirma que a ausência de febre e de FAN positivo exclui a possibilidade de vasculite sistêmica. É uma generalização indevida: febre e FAN positivo não são critérios obrigatórios para o diagnóstico de vasculite sistêmica. A paciente tem vasculite crioglobulinêmica com manifestações clássicas (púrpura palpável, glomerulonefrite, artralgia) mesmo sem febre e com FAN negativo — aliás, o FAN negativo é esperado na crioglobulinemia, que não é uma doença autoimune clássica, mas sim uma doença por imunocomplexos desencadeada pelo HCV. A ausência desses marcadores não exclui o diagnóstico.

Gabarito: letra B — a alternativa correta é a que reconhece a vasculite por imunocomplexos e o tratamento antiviral com DAAs, com rituximabe como adjuvante em casos graves.

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