Paciente, 55 anos, inicia amiodarona para fibrilação atrial. Após 4 meses, encontra-se com TSH: 0,01 mUI/L, T4L: 2,8 ng/dL, T3L: 1,2 pg/mL. Ao exame físico não apresenta bócio.O diagnóstico correto é
Asuperdosagem de levotiroxina.
Btireotoxicose induzida por amiodarona tipo 1.
Cefeito Wolff-Chaikoff.
Dsíndrome do T3 baixo.
Etireotoxicose induzida por amiodarona tipo 2.
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GabaritoE — tireotoxicose induzida por amiodarona tipo 2.
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Tireotoxicose induzida por amiodarona: tipos 1 e 2
Gabarito: letra E. O paciente em uso de amiodarona há 4 meses apresenta TSH suprimido (0,01 mUI/L) com T4L elevado (2,8 ng/dL) e T3L elevado (1,2 pg/mL), sem bócio — quadro compatível com tireotoxicose induzida por amiodarona tipo 2, que é uma tireoidite destrutiva causada pelo efeito tóxico direto da droga sobre os tireócitos, levando à liberação de hormônios pré-formados. A ausência de bócio e o padrão laboratorial (T4L muito elevado, T3L relativamente menos elevado) favorecem o tipo 2 sobre o tipo 1, que ocorre por sobrecarga de iodo em tireoide com doença subjacente (doença de Graves ou nódulos autônomos).
A amiodarona é um antiarrítmico classe III rico em iodo (cada comprimido de 200 mg contém cerca de 75 mg de iodo, sendo que a dose diária recomendada de iodo é de apenas 150 µg). Por isso, ela pode causar disfunção tireoidiana por dois mecanismos distintos: o tipo 1 é uma forma de tireotoxicose iodo-induzida (fenômeno de Jod-Basedow), que ocorre em pacientes com doença tireoidiana subjacente (bócio multinodular, doença de Graves latente) — o excesso de iodo fornece substrato para a produção hormonal autônoma. O tipo 2 é uma tireoidite destrutiva, na qual a amiodarona exerce efeito citotóxico direto sobre os tireócitos, causando ruptura dos folículos e liberação de hormônios pré-formados na circulação — não depende de doença tireoidiana prévia.
A distinção entre os dois tipos é fundamental porque o tratamento é diferente: o tipo 1 responde a tionamidas (metimazol ou propiltiouracil) e, às vezes, a perclorato de potássio; o tipo 2 responde a glicocorticoides (prednisona), que reduzem a inflamação e a destruição folicular. Em casos mistos ou refratários, pode-se associar as duas classes. O diagnóstico diferencial é feito por critérios clínicos e laboratoriais: o tipo 1 costuma cursar com bócio (difuso ou nodular), anticorpos antitireoidianos positivos (anti-TPO, anti-Tg) e captação de iodo radioativo normal ou aumentada; o tipo 2 cursa com tireoide de volume normal (sem bócio), anticorpos geralmente negativos e captação de iodo radioativo baixa ou ausente (devido à destruição folicular). A ultrassonografia com Doppler pode auxiliar: no tipo 1 há fluxo vascular aumentado; no tipo 2, fluxo reduzido.
No caso apresentado, o paciente não apresenta bócio ao exame físico, o que favorece fortemente o tipo 2. Além disso, o padrão laboratorial com T4L muito elevado (2,8 ng/dL) e T3L apenas discretamente elevado (1,2 pg/mL) é típico da tireoidite destrutiva, pois há liberação preferencial de T4 (pré-formado) em relação à conversão periférica para T3. No tipo 1, a elevação de T3L costuma ser mais proporcional, pois a glândula continua produzindo e secretando hormônios de forma ativa.
A pegadinha da questão está em diferenciar os dois tipos de tireotoxicose induzida por amiodarona, que são frequentemente confundidos. O candidato deve lembrar que a presença de bócio e a doença tireoidiana prévia apontam para o tipo 1, enquanto a ausência de bócio e o padrão de tireoidite destrutiva apontam para o tipo 2. Além disso, é importante não confundir com outras causas de tireotoxicose, como a superdosagem de levotiroxina (que ocorre em pacientes em uso dessa medicação, não de amiodarona) ou a síndrome do T3 baixo (que cursa com T3 baixo, não elevado).
Critério
Tipo 1 (Jod-Basedow)
Tipo 2 (Tireoidite destrutiva)
Mecanismo
Sobrecarga de iodo em tireoide com doença subjacente
Efeito citotóxico direto da amiodarona sobre os tireócitos
Bócio
Presente (difuso ou nodular)
Ausente (tireoide de volume normal)
Anticorpos antitireoidianos
Frequentemente positivos
Geralmente negativos
Captação de iodo radioativo
Normal ou aumentada
Baixa ou ausente
Doppler ultrassonográfico
Fluxo vascular aumentado
Fluxo vascular reduzido
Tratamento
Tionamidas (metimazol/PTU) ± perclorato de potássio
Glicocorticoides (prednisona)
Tireotoxicose por amiodarona
1Tipo 1 (iodo-induzida)
Doença tireoidiana prévia
Bócio presente
Captação de iodo normal/alta
Tratamento: tionamidas
2Tipo 2 (tireoidite destrutiva)
Sem bócio
Captação de iodo baixa
Tratamento: glicocorticoide
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Alternativa A — ❌ Incorreta
A superdosagem de levotiroxina é uma causa de tireotoxicose factícia, que ocorre em pacientes que fazem uso de hormônio tireoidiano exógeno (levotiroxina). O paciente do caso não faz uso de levotiroxina, mas sim de amiodarona. Além disso, na tireotoxicose factícia, a tireoglobulina (Tg) está baixa, enquanto nas tireoidites (incluindo a tipo 2) a Tg está elevada. O diagnóstico de superdosagem de levotiroxina exigiria história de uso da medicação, o que não está presente.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A tireotoxicose induzida por amiodarona tipo 1 é causada pela sobrecarga de iodo em pacientes com doença tireoidiana subjacente (doença de Graves ou bócio nodular). O paciente do caso não apresenta bócio ao exame físico, o que torna o tipo 1 menos provável. No tipo 1, espera-se encontrar bócio (difuso ou nodular) e, frequentemente, anticorpos antitireoidianos positivos. A ausência de bócio é um forte indicativo de tipo 2.
Alternativa C — ❌ Incorreta
O efeito Wolff-Chaikoff é um fenômeno fisiológico de autorregulação da tireoide: quando há excesso de iodo, a glândula reduz a captação e a organificação do iodo, diminuindo a síntese hormonal. Esse efeito é transitório e, na maioria das pessoas, a glândula escapa dele após algumas semanas (fenômeno de escape). O efeito Wolff-Chaikoff não causa tireotoxicose; ele causa hipotireoidismo transitório. O paciente do caso apresenta tireotoxicose (TSH baixo, T4L e T3L elevados), portanto essa alternativa está incorreta.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A síndrome do T3 baixo (ou síndrome do eutireoideo doente) ocorre em pacientes com doenças não tireoidianas graves (sepse, infarto, cirurgia, jejum prolongado) e caracteriza-se por T3 baixo, com T4 e TSH geralmente normais (em casos graves, T4 também pode estar baixo). O paciente do caso apresenta T3L elevado (1,2 pg/mL), não baixo, o que exclui essa síndrome. Além disso, o contexto clínico é de uso de amiodarona, não de doença sistêmica grave.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A tireotoxicose induzida por amiodarona tipo 2 é uma tireoidite destrutiva causada pelo efeito tóxico direto da amiodarona sobre os tireócitos. O paciente do caso apresenta os achados típicos: uso de amiodarona, TSH suprimido, T4L e T3L elevados, e ausência de bócio. A ausência de bócio é o principal diferencial para o tipo 1, que cursaria com bócio (doença tireoidiana subjacente). O tratamento do tipo 2 é feito com glicocorticoides, que reduzem a destruição folicular e a liberação de hormônios pré-formados.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre os dois tipos de tireotoxicose induzida por amiodarona. O candidato pode ser tentado a escolher o tipo 1 por ser mais "clássico" (iodo-induzido), mas a ausência de bócio é a pista-chave que aponta para o tipo 2. Lembre-se: tipo 1 = bócio + doença tireoidiana prévia; tipo 2 = sem bócio + tireoidite destrutiva. Com esse critério, você acerta a questão sem depender de exames complementares.
Gabarito: letra E — tireotoxicose induzida por amiodarona tipo 2.