Homem de 58 anos, portador de diabetes mellitustipo 2 há 7 anos, está em uso de metformina 2 g/dia e dapagliflozina 10 mg/dia, com hemoglobina glicada (HbA1c) de 8,5 % e IMC de 34 kg/m². Apresenta taxa de filtração glomerular estimada (TFGe) de 39 mL/min/1,73 m², coronariopatia crônica estável e neuropatia periférica leve. O endocrinologista cogita iniciar tirzepatida como terapia adicional.Em relação à tirzepatida para esse paciente, assinale a afirmativa correta.
AEstá contra-indicada pois o duplo agonismo dos receptores de GIP/GLP-1 aumenta o risco de hipoglicemia nestes casos.
BDeve ser iniciada em dose semanal de 15 mg, pois doses menores não mostraram benefício significativo de redução de HbA1c em pacientes com TFGe < 45 mL/min/1,73 m².
CPode ser empregada com segurança na insuficiência renal moderada, pois não requer ajuste de dose e seu clearance é independente da função renal.
DEleva o risco de eventos cardiovasculares maiores (MACE) em comparação a outros análogos de GLP-1 de ação prolongada, razão pela qual não é recomendada em coronariopatas.
ETem como efeito adverso específico pancreatite exócrina autoimune, ocorrendo em ≥ 10 % dos pacientes, devendo ser rastreada por amilase e lipase durante o tratamento.
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GabaritoC — Pode ser empregada com segurança na insuficiência renal moderada, pois não requer ajuste de dose e seu clearance é independente da função renal.
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Tirzepatida no diabetes tipo 2 com doença renal crônica
Gabarito: letra C. A tirzepatida, agonista duplo dos receptores de GIP e GLP-1, pode ser empregada com segurança na insuficiência renal moderada (TFGe 39 mL/min/1,73 m²), pois não requer ajuste de dose e seu clearance é independente da função renal — essa é a característica farmacocinética que a distingue de outras classes e a torna uma opção válida neste cenário clínico. As demais alternativas distorcem o perfil de segurança e eficácia do fármaco.
A tirzepatida é um agonista dos receptores de GIP (polipeptídeo insulinotrópico dependente de glicose) e GLP-1 (peptídeo semelhante ao glucagon-1), administrado por via subcutânea uma vez por semana. Ela potencializa a secreção de insulina dependente de glicose, reduz a secreção de glucagon, retarda o esvaziamento gástrico e promove saciedade, resultando em redução expressiva da HbA1c e perda de peso. Por ser um peptídeo, seu metabolismo ocorre por proteólise e catabolismo em pequenos peptídeos e aminoácidos, sem depender de eliminação renal significativa — por isso, não há necessidade de ajuste de dose em pacientes com insuficiência renal, incluindo doença renal crônica moderada a grave.
O paciente do enunciado tem DM2 há 7 anos, HbA1c de 8,5% apesar de metformina e dapagliflozina, IMC de 34 kg/m², TFGe de 39 mL/min/1,73 m² (insuficiência renal moderada — estágio 3b), coronariopatia crônica estável e neuropatia periférica leve. A adição de tirzepatida é uma estratégia razoável: além do controle glicêmico, ela promove perda de peso (benéfica no IMC elevado) e tem perfil cardiovascular favorável, com redução de eventos cardiovasculares maiores (MACE) demonstrada em estudos de desfechos. A presença de insuficiência renal moderada não contraindica o uso, pois a farmacocinética do fármaco não é alterada de forma clinicamente relevante pela função renal.
A principal distinção que a questão explora é entre a tirzepatida e outras classes de antidiabéticos: enquanto os inibidores de SGLT2 (como a dapagliflozina, já em uso pelo paciente) têm eficácia reduzida e contraindicação em TFGe < 25 mL/min/1,73 m², e a metformina é contraindicada em TFGe < 30 mL/min/1,73 m², a tirzepatida não apresenta essa limitação. O risco de hipoglicemia é baixo, pois a ação insulinotrópica é dependente de glicose — diferente de sulfonilureias e insulina. Os efeitos adversos mais comuns são gastrointestinais (náuseas, vômitos, diarreia), especialmente na titulação da dose, e não há evidência de pancreatite exócrina autoimune como efeito adverso específico e frequente.
A banca explora a confusão entre a tirzepatida e outras classes de fármacos, além de inventar contraindicações e efeitos adversos que não correspondem ao perfil real do medicamento. O candidato que conhece a farmacocinética e o perfil de segurança da tirzepatida identifica facilmente a alternativa correta. Guarde o critério decisivo: a tirzepatida não requer ajuste de dose na insuficiência renal, pois seu clearance é independente da função renal — é exatamente nesse ponto que as alternativas se dividem.
Tirzepatida (agonista GIP/GLP-1)
1Mecanismo
Secreção de insulina glicose-dependente
Baixo risco de hipoglicemia
2Farmacocinética
Clearance independente da função renal
Sem ajuste de dose na DRC
3Perfil de segurança
Reduz MACE (benefício cardiovascular)
Efeitos gastrointestinais (náuseas, vômitos)
Pancreatite rara (não autoimune)
4Uso na DRC moderada (TFGe 39)
Permitido
Início com dose baixa (2,5–5 mg)
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Alternativa A — ❌ Incorreta
Afirma que o duplo agonismo GIP/GLP-1 aumenta o risco de hipoglicemia. Errado: a tirzepatida, assim como os agonistas de GLP-1, estimula a secreção de insulina de forma dependente de glicose — ou seja, só age quando a glicemia está elevada. O risco de hipoglicemia é baixo, semelhante ao placebo, e não é aumentado pelo duplo agonismo. A hipoglicemia seria preocupação com sulfonilureias ou insulina, não com a tirzepatida.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Afirma que deve ser iniciada em dose semanal de 15 mg, pois doses menores não mostram benefício em TFGe < 45 mL/min/1,73 m². Errado por dois motivos: (1) a tirzepatida deve ser iniciada em dose baixa (2,5 mg ou 5 mg semanais) e titulada gradualmente para minimizar efeitos gastrointestinais — iniciar em 15 mg seria imprudente; (2) a eficácia da tirzepatida não é dependente da função renal, e não há evidência de que doses menores sejam ineficazes em pacientes com TFGe < 45 mL/min/1,73 m². A dose de 15 mg é uma dose de manutenção, não de início.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A tirzepatida pode ser empregada com segurança na insuficiência renal moderada, pois não requer ajuste de dose e seu clearance é independente da função renal. Isso se deve ao seu metabolismo: a tirzepatida é um peptídeo que sofre proteólise e catabolismo, sem eliminação renal significativa. Estudos farmacocinéticos não demonstraram diferenças clinicamente relevantes na exposição ao fármaco em pacientes com insuficiência renal, incluindo doença renal terminal. Portanto, não há contraindicação nem necessidade de ajuste de dose em TFGe de 39 mL/min/1,73 m².
Alternativa D — ❌ Incorreta
Afirma que a tirzepatida eleva o risco de MACE em comparação a outros análogos de GLP-1 de ação prolongada, não sendo recomendada em coronariopatas. Errado: a tirzepatida demonstrou redução de eventos cardiovasculares maiores (MACE) em pacientes com DM2 e alto risco cardiovascular, incluindo aqueles com doença cardiovascular estabelecida. O estudo SURPASS-CV mostrou não inferioridade e superioridade em alguns desfechos em relação ao dulaglutida (um análogo de GLP-1). Portanto, é uma opção segura e benéfica em coronariopatas, não havendo razão para não recomendá-la.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Afirma que a tirzepatida tem como efeito adverso específico a pancreatite exócrina autoimune, ocorrendo em ≥ 10% dos pacientes, com necessidade de rastreamento por amilase e lipase. Errado: a pancreatite é um evento adverso raro e não específico da tirzepatida, sem evidência de mecanismo autoimune. A incidência é muito inferior a 10%, e não há recomendação de rastreamento rotineiro com amilase e lipase em pacientes assintomáticos. Os efeitos adversos mais comuns são gastrointestinais (náuseas, vômitos, diarreia), especialmente na titulação da dose.
NÃO CAIA NESSA!
A banca adora inventar contraindicações e efeitos adversos que não existem para fármacos novos. Aqui, ela tenta confundir a tirzepatida com outras classes: o risco de hipoglicemia (que é baixo, pois a ação é glicose-dependente), a necessidade de ajuste renal (que não existe, pois o clearance é independente da função renal) e a contraindicação em coronariopatas (que é falsa, pois há benefício cardiovascular). Com treino, você enxerga essas invenções de longe 💪
PEGA ESSA DICA!
Para fármacos novos como a tirzepatida, foque em três pontos na prova: (1) mecanismo de ação (agonista duplo GIP/GLP-1, ação glicose-dependente, baixo risco de hipoglicemia); (2) farmacocinética (clearance independente da função renal, sem ajuste de dose na DRC); (3) perfil de segurança (efeitos gastrointestinais comuns, pancreatite rara, benefício cardiovascular). Esses três eixos cobrem a maioria das questões.