Questão de Medicina — Ginecologia e Obstetrícia — FGV 2025
Medicina›Ginecologia e Obstetrícia
Código
fg105237
Banca
FGV
Órgão
AL-AM
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Analista Legislativo - Médico - Ginecologista
Uma criança de 4 anos é levada ao ginecologista pela mãe devido a corrimento vaginal. Ao examinar, é encontrada leve hiperemia vulvar e saída de pequena quantidade de secreção branca pela vagina. O hímen encontra-se íntegro e não são encontradas outras lesões.É correto afirmar sobre essa situação:
AÉ necessária internação imediata e início de antibiotioterapia venosa de amplo espectro.
BTodas as vulvovaginites na infância são causadas por microrganismos específicos.
CO hipoestrogenismo e as condições anatómicas favorecem esse tipo de quadro.
DA criança deverá ser contida, caso ofereça resistência na hora da coleta de material.
EO uso de ceftriaxone é mandatório em todos os casos de vulvovaginite na infância.
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GabaritoC — O hipoestrogenismo e as condições anatómicas favorecem esse tipo de quadro.
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Vulvovaginite na infância: fisiopatologia e manejo
Gabarito: letra C. O quadro descrito — criança de 4 anos com corrimento vaginal, leve hiperemia vulvar e hímen íntegro — é compatível com vulvovaginite inespecífica, condição favorecida pelo hipoestrogenismo fisiológico da infância e pelas condições anatômicas (proximidade do ânus com a vagina, pequenos lábios pouco desenvolvidos, ausência de pelos pubianos). A alternativa C é a única que descreve corretamente os fatores predisponentes desse tipo de quadro.
A vulvovaginite é a afecção ginecológica mais comum na infância. Para entender por que ela ocorre com tanta frequência nessa faixa etária, é preciso compreender a fisiologia do trato genital infantil. Durante a vida intrauterina, a menina é exposta aos hormônios maternos, o que causa um desenvolvimento transitório do epitélio vaginal. Após o nascimento, esses hormônios desaparecem e a menina entra em um período de hipoestrogenismo fisiológico, que se estende até a puberdade. Esse estado hormonal tem consequências diretas: o epitélio vaginal torna-se fino e atrófico, com poucas camadas de células, e o pH vaginal torna-se alcalino (em torno de 6,5 a 7,5), em vez do pH ácido (3,8 a 4,5) característico da mulher em idade reprodutiva. Essa combinação — epitélio delgado e pH alcalino — reduz a resistência natural da vagina a infecções e irritações.
Além do fator hormonal, as condições anatômicas da criança contribuem significativamente. A vulva e a vagina estão anatomicamente próximas do ânus, e os pequenos lábios são pouco desenvolvidos, o que deixa o vestíbulo vaginal mais exposto. A ausência de pelos pubianos e a menor quantidade de tecido adiposo na região também reduzem a proteção mecânica. Somam-se a isso hábitos comuns da infância, como higiene inadequada (limpar-se de trás para frente), contato com sabonetes agressivos, roupas justas ou sintéticas, e até a presença de corpos estranhos. Todos esses fatores, em conjunto, explicam por que a vulvovaginite inespecífica é tão prevalente em meninas pré-púberes.
É importante distinguir a vulvovaginite inespecífica das vulvovaginites causadas por microrganismos específicos. Na infância, a grande maioria dos casos é inespecífica, ou seja, não há um agente etiológico único identificável; o quadro é consequência da irritação local e da baixa resistência do epitélio. No entanto, agentes específicos podem estar envolvidos, como bactérias (estreptococo do grupo A, Haemophilus influenzae, Shigella), parasitas (Enterobius vermicularis, o oxiúro) e, mais raramente, fungos (Candida). A presença de IST (como gonococo, clamídia, Trichomonas) em uma criança deve sempre levantar a suspeita de abuso sexual, mas não é a causa mais comum. O manejo inicial, portanto, não é a internação nem a antibioticoterapia empírica de amplo espectro, mas sim a adoção de medidas gerais de higiene e, se necessário, a investigação direcionada.
A banca explora exatamente essa confusão: o candidato pode achar que todo corrimento vaginal exige antibiótico ou internação, quando na verdade o quadro descrito é o protótipo da vulvovaginite inespecífica, que se beneficia de medidas simples. A chave para resolver a questão está em reconhecer os fatores predisponentes (hipoestrogenismo e anatomia) e saber que a maioria dos casos é autolimitada e tratada ambulatorialmente. Guarde essa distinção: vulvovaginite inespecífica (maioria, manejo conservador) versus vulvovaginite específica (minoria, investigação e tratamento direcionado) — é nela que as alternativas se dividem.
Medidas gerais de higiene, manejo conservador ambulatorial
Investigação direcionada e tratamento específico
Exemplo de agente
Não há agente único identificável
Estreptococo do grupo A, Enterobius vermicularis, Candida
Vulvovaginite na infância
1Inespecífica (maioria)
Hipoestrogenismo fisiológico
Anatomia (ânus próximo, pequenos lábios)
Manejo conservador
2Específica (minoria)
Bactérias (S. pyogenes, Shigella)
Parasitas (Enterobius)
IST → suspeitar de abuso
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Alternativa A — ❌ Incorreta
Afirma que é necessária internação imediata e antibioticoterapia venosa de amplo espectro. Isso é um erro grave de conduta. O quadro descrito é de vulvovaginite inespecífica leve, sem sinais de gravidade (sem febre, sem dor abdominal, sem secreção purulenta abundante, sem sinais de doença sistêmica). A maioria das vulvovaginites na infância pode ser tratada na atenção primária, com medidas gerais de higiene e, se necessário, tratamento tópico ou oral direcionado. A internação e a antibioticoterapia venosa são reservadas para casos graves, complicados ou com suspeita de infecção ascendente, o que não se aplica aqui.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Afirma que todas as vulvovaginites na infância são causadas por microrganismos específicos. Isso é falso. A grande maioria dos casos é de vulvovaginite inespecífica, sem um agente etiológico identificável, decorrente de fatores irritativos e da baixa resistência local. Embora agentes específicos possam estar envolvidos (bactérias, parasitas, fungos), eles não são a causa da maioria dos casos. A alternativa erra ao generalizar, ignorando a fisiopatologia predominante na infância.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Afirma que o hipoestrogenismo e as condições anatômicas favorecem esse tipo de quadro. Esta é a explicação fisiopatológica correta. O hipoestrogenismo fisiológico da infância torna o epitélio vaginal fino e o pH alcalino, reduzindo a resistência local. As condições anatômicas — proximidade do ânus, pequenos lábios pouco desenvolvidos, ausência de pelos — aumentam a exposição e a irritação. Esses fatores, somados a hábitos de higiene inadequados, são os principais responsáveis pela vulvovaginite inespecífica na infância.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Afirma que a criança deverá ser contida, caso ofereça resistência na hora da coleta de material. Essa conduta é inadequada e antiética. A contenção física de uma criança para procedimentos deve ser evitada sempre que possível, pois causa trauma psicológico e pode dificultar o exame. Em pediatria, utilizam-se técnicas de distração, posicionamento adequado (como a posição de rã ou joelhos-peito) e, se necessário, sedação consciente, mas nunca contenção forçada. Além disso, no caso descrito, a coleta de material pode nem ser necessária de imediato, já que se trata de quadro leve e provavelmente inespecífico.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Afirma que o uso de ceftriaxona é mandatório em todos os casos de vulvovaginite na infância. Isso é falso e perigoso. A ceftriaxona é um antibiótico de amplo espectro, indicado para infecções bacterianas específicas, como gonococo. Na vulvovaginite inespecífica, que é a maioria dos casos, não há indicação de antibiótico, muito menos de ceftriaxona. O uso indiscriminado de antibióticos contribui para a resistência bacteriana e expõe a criança a efeitos adversos desnecessários. O tratamento deve ser direcionado ao agente etiológico, quando identificado, e a maioria dos casos resolve-se com medidas de higiene.