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Questão de Português — Interpretação de Textos — FGV 2025

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
fg107932
Banca
FGV
Órgão
CPRM
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Analista em Geociências - Letras
A questão refere-se ao texto a seguir:

Capítulo I - Mudança

Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes. Os infelizes tinham caminhado o dia inteiro, estavam cansados e famintos. Ordinariamente andavam pouco, mas como haviam repousado bastante na areia do rio seco, a viagem progredira bem três léguas. Fazia horas que procuravam uma sombra. A folhagem dos juazeiros apareceu longe, através dos galhos pelados da catinga rala.
Arrastaram-se para lá, devagar, Sinha Vitória com o filho mais novo escanchado no quarto e o baú de folha na cabeça, Fabiano sombrio, cambaio, o aió a tiracolo, a cuia pendurada numa correia presa ao cinturão, a espingarda de pederneira no ombro. O menino mais velho e a cachorra Baleia iam atrás.
Os juazeiros aproximaram-se, recuaram, sumiram-se. O menino mais velho pôs-se a chorar, sentou-se no chão.
- Anda, condenado do diabo, gritou-lhe o pai.
Não obtendo resultado, fustigou-o com a bainha da faca de ponta. Mas o pequeno esperneou acuado, depois sossegou, deitou-se, fechou os olhos. Fabiano ainda lhe deu algumas pancadas e esperou que ele se levantasse. Como isto não acontecesse, espiou os quatro cantos, zangado, praguejando baixo.
A catinga estendia-se, de um vermelho indeciso salpicado de manchas brancas, que eram ossadas. O voo negro dos urubus fazia círculos altos em redor de bichos moribundos.
- Anda, excomungado.
O pirralho não se mexeu, e Fabiano desejou matá-lo. Tinha o coração grosso, queria responsabilizar alguém pela sua desgraça. A seca aparecia-lhe como um fato necessário - e a obstinação da criança irritava-o. Certamente, esse obstáculo miúdo não era culpado, mas dificultava a marcha, e o vaqueiro precisava chegar, não sabia onde.
Tinham deixado os caminhos, cheios de espinho e seixos, fazia horas que pisavam a margem do rio, a lama seca e rachada que escaldava os pés. Pelo espírito atribulado do sertanejo passou a ideia de abandonar o filho naquele descampado. Pensou nos urubus, nas ossadas, coçou a barba ruiva e suja, irresoluto, examinou os arredores. Sinha Vitória estirou o beiço indicando vagamente uma direção e afirmou com alguns sons guturais que estavam perto. Fabiano meteu a faca na bainha, guardou-a no cinturão, acocorou-se, pegou no pulso do menino, que se encolhia, os joelhos encostados no estômago, frio como um defunto. Aí a cólera desapareceu e Fabiano teve pena. Impossível abandonar o anjinho aos bichos do mato. Entregou a espingarda a Sinha Vitória, pôs o filho no cangote, levantou-se, agarrou os bracinhos que lhe caíam sobre o peito, moles, finos como cambitos. Sinha Vitória aprovou esse arranjo, lançou de novo a interjeição gutural, designou os juazeiros invisíveis.
E a viagem prosseguiu, mais lenta, mais arrastada, num silêncio grande. Ausente do companheiro, a cachorra Baleia tomou a frente do grupo. Arqueada, as costelas à mostra, corria ofegando, a língua fora da boca. E de quando em quando se detinha, esperando as pessoas, que se retardavam. [...]

RAMOS, Graciliano. Vidas Secas. 120ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2013 - texto adaptado. 
No texto em destaque, a escolha formal da construção da narrativa que melhor representa a seca descrita na passagem é
  1. Aa ausência do nome dos filhos, que são chamados de “menino mais velho” e “filho mais novo”.
  2. Ba pouca inscrição de fala dos personagens, cujas ações são contadas pela voz do narrador.
  3. Ca figura materna representada por meio da complacência e resiliência na figura de Sinha Vitória.
  4. Do excesso das vírgulas como sinal de pontuação que marca a enumeração recorrente dos fatos.
  5. Eo apagamento de uma inscrição da primeira pessoa do singular, simulando uma narração que se desenvolve por si mesma.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — a pouca inscrição de fala dos personagens, cujas ações são contadas pela voz do narrador.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A escolha formal que melhor representa a seca

Gabarito: letra B. A seca é representada pela pouca fala dos personagens e pelo predomínio da voz do narrador, como se vê no texto: as falas são raras e reduzidas a gritos imperativos ("Anda, condenado do diabo") ou sons guturais de Sinha Vitória, enquanto a maior parte das ações e pensamentos é descrita pelo narrador. Essa escassez de diálogo reflete o silêncio e a aridez impostos pela seca.

"- Anda, condenado do diabo, gritou-lhe o pai." "Sinha Vitória estirou o beiço indicando vagamente uma direção e afirmou com alguns sons guturais que estavam perto."

O narrador domina a cena, descrevendo até os pensamentos de Fabiano: "Pelo espírito atribulado do sertanejo passou a ideia de abandonar o filho naquele descampado." A estrutura formal (pouca fala, muita narração) materializa a seca como um cenário de silêncio e luta pela sobrevivência.

Alternativa A — ❌ Incorreta

A ausência do nome dos filhos (chamados de "menino mais velho" e "filho mais novo") é uma característica de despersonalização, mas não é a construção formal que melhor representa a seca. A seca é mais bem traduzida pela dinâmica entre fala e narração do que pela ausência de nomes.

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A pouca inscrição de fala e a predominância da voz do narrador são a escolha formal que melhor representa a seca. O texto confirma essa escassez de diálogo, limitado a ordens e sons guturais, enquanto o narrador conta as ações.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A figura de Sinha Vitória é resiliente, mas isso é conteúdo temático, não escolha formal. A questão pede a construção da narrativa, não uma característica de personagem.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Não há excesso de vírgulas no trecho; a pontuação é normal. A vírgula não é o recurso formal que melhor representa a seca – o silêncio e a aridez vêm da ausência de fala.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A narração em terceira pessoa é comum em narrativas; o apagamento da primeira pessoa não é peculiar a este texto nem representa especificamente a seca. O narrador não simula autonomia; ele é onisciente e intervém.

Conclusão: A letra B é a única que identifica corretamente a escolha formal (escassez de fala + predomínio da narração) que traduz a seca.

Gabarito: letra B

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