Um paciente de 32 anos foi resgatado em um incêndio de grandes proporções apresentando lesões térmicas em tronco e membros. Relata que inicialmente tentou combater o incêndio e depois se refugiou em outra sala devido à grande quantidade de fumaça.Sobre as queimaduras, é correto afirmar que
Aa queimadura de espessura parcial profunda compromete a derme e os folículos pilosos permanecem viáveis e intactos.
Bna área queimada, na denominada zona de coagulação há diminuição da perfusão tecidual podendo evoluir para necrose irreversível.
Cna lesão por inalação, o dano é principalmente de queimaduras químicas associadas a toxinas inaladas, sendo infrequente a lesão térmica.
Do paciente deve ser enrolado em um cobertor ou lençol umidificado com solução salina para minimizar a perda de calor e para controle de temperatura durante o transporte.
Eas alterações na permeabilidade e atividade dos mediadores podem causar edema generalizado por meio de forças de Starling na pele queimada poupando a área não queimada.
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GabaritoC — na lesão por inalação, o dano é principalmente de queimaduras químicas associadas a toxinas inaladas, sendo infrequente a lesão térmica.
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Queimaduras: fisiopatologia, classificação e conduta inicial
Gabarito: letra C. A lesão por inalação em incêndios é causada predominantemente por queimadura química decorrente da inalação de toxinas (monóxido de carbono e cianeto) e partículas, sendo a lesão térmica direta limitada à via aérea superior — exatamente o que a alternativa C afirma. As demais alternativas contêm erros conceituais sobre a profundidade das queimaduras, as zonas da lesão, o transporte do paciente e a fisiopatologia do edema.
A queimadura é uma lesão dos tecidos de revestimento do corpo, causada por agentes térmicos, químicos, elétricos ou radiativos, que destrói parcial ou totalmente a pele e seus anexos, podendo atingir camadas mais profundas. A gravidade depende da temperatura, do tempo de exposição, da espessura da pele e da área acometida. Para entender a questão, é essencial dominar três pilares: a classificação quanto à profundidade, as zonas da lesão térmica e a fisiopatologia da lesão por inalação.
Quanto à profundidade, as queimaduras classificam-se em: 1º grau (espessura superficial) — atinge só a epiderme, sem bolhas, dolorosa; 2º grau (espessura parcial) — atinge epiderme e parte da derme, com bolhas, subdividindo-se em superficial (base rósea, muito dolorosa) e profunda (base branca, menos dolorosa); 3º grau (espessura total) — destrói todas as camadas da pele, indolor por destruição das terminações nervosas, necessita enxertia; e 4º grau — atinge tecidos profundos como músculos e ossos. A distinção entre 2º grau superficial e profundo é crucial: na profunda, a derme reticular é destruída, comprometendo os anexos cutâneos, incluindo os folículos pilosos.
A fisiopatologia da lesão térmica envolve três zonas concêntricas: a zona de coagulação (mais interna, tecido diretamente danificado, com necrose irreversível), a zona de estase (intermediária, com inflamação e hipoperfusão, podendo evoluir para necrose nas primeiras 48h) e a zona de hiperemia (mais externa, com perfusão preservada). A lesão endotelial desencadeia cascata inflamatória com liberação de citocinas, formação de microtrombos e aumento da permeabilidade vascular, levando à perda de líquidos e proteínas para o espaço extravascular — o que explica o edema, que ocorre tanto na área queimada quanto na não queimada, por mecanismo sistêmico.
A lesão por inalação é um dos principais fatores de mortalidade nas queimaduras térmicas, presente em até 60% dos grandes queimados. Seus mecanismos são: exposição ao calor (lesão térmica direta, limitada à via aérea superior pelo reflexo de fechamento glótico), inalação de partículas (que atingem bronquíolos e causam edema de mucosa) e intoxicação por gases tóxicos (monóxido de carbono e cianeto). Portanto, o dano predominante é químico, não térmico — a lesão térmica direta é infrequente nas vias aéreas inferiores.
No atendimento inicial, o paciente queimado deve ser coberto com lençol limpo e seco ou campos estéreis. Curativos embebidos em solução salina em grandes áreas podem causar hipotermia, pois a evaporação da solução resfria o corpo — por isso, a alternativa D está incorreta. O resfriamento local com água em temperatura ambiente é benéfico nas primeiras horas, mas não se deve envolver o paciente em lençol úmido durante o transporte.
A pegadinha central desta questão está na inversão de conceitos: a banca troca a zona de coagulação pela zona de estase (alternativa B), afirma que os folículos pilosos permanecem viáveis na queimadura de espessura parcial profunda (alternativa A) e sugere que o edema poupa a área não queimada (alternativa E). A alternativa C, por sua vez, descreve corretamente a fisiopatologia da lesão inalatória. Guarde a fronteira entre lesão térmica direta (via aérea superior) e lesão química (vias aéreas inferiores): é nela que a alternativa C se sustenta.
Queimaduras
1Quanto à profundidade
1º grau (epiderme)
2º grau (epiderme + derme)
Superficial (folículos viáveis)
Profunda (folículos destruídos)
3º grau (todas as camadas)
4º grau (músculos e ossos)
2Zonas da lesão
Coagulação (necrose irreversível)
Estase (hipoperfusão → necrose)
Hiperemia (perfusão preservada)
3Lesão por inalação
Lesão térmica direta (via aérea superior)
Lesão química (toxinas e partículas)
4Conduta inicial
Lençol úmido (hipotermia)
Lençol limpo e seco
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Alternativa A — ❌ Incorreta
A queimadura de espessura parcial profunda (2º grau profundo) compromete a epiderme, a derme papilar e a derme reticular, destruindo aproximadamente dois terços da pele. Nesse nível, os folículos pilosos são destruídos, não permanecem viáveis. A viabilidade dos folículos é característica da queimadura de espessura parcial superficial, que atinge apenas a derme papilar. A banca inverte a profundidade: na parcial profunda, os anexos cutâneos (folículos, glândulas) são comprometidos, o que explica a cicatrização mais lenta (2 a 9 semanas) e a possível formação de cicatrizes.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A alternativa troca as zonas da lesão. Na zona de coagulação (mais interna), o tecido é diretamente danificado e já apresenta necrose irreversível — não há apenas "diminuição da perfusão". A zona com diminuição da perfusão tecidual, que pode evoluir para necrose, é a zona de estase (intermediária), que apresenta inflamação e hipoperfusão, podendo tornar-se necrótica nas primeiras 48 horas. A banca inverte as características das zonas de coagulação e estase.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A lesão por inalação em incêndios é causada principalmente por queimadura química decorrente da inalação de toxinas (monóxido de carbono e cianeto de hidrogênio) e partículas, sendo a lesão térmica direta infrequente nas vias aéreas inferiores. O calor lesa predominantemente a via aérea superior (supraglótica), pois o reflexo de tosse e o fechamento glótico impedem a entrada de fumaça quente nas vias aéreas inferiores. A fumaça contém partículas menores que 0,5 μm que atingem os bronquíolos terminais, causando edema de mucosa, broncoespasmo e obstrução — mecanismo químico, não térmico.
Alternativa D — ❌ Incorreta
O paciente queimado não deve ser enrolado em lençol umidificado com solução salina. Para grandes queimaduras, a aplicação de curativos embebidos em solução salina em grande área pode causar hipotermia, pois a evaporação da solução resfria o corpo. A conduta correta é cobrir o paciente com lençol limpo e seco ou campos estéreis, para minimizar a perda de calor e evitar contaminação. O resfriamento ativo com água é benéfico apenas nas primeiras horas e em pequenas áreas, não durante o transporte de grandes queimados.
Alternativa E — ❌ Incorreta
As alterações na permeabilidade vascular e a liberação de mediadores inflamatórios causam edema generalizado, que não poupa a área não queimada. A lesão endotelial desencadeia resposta inflamatória sistêmica (SIRS) com liberação de citocinas, óxido nítrico e espécies reativas de oxigênio, aumentando a permeabilidade capilar em todo o organismo. O edema ocorre tanto na pele queimada quanto na não queimada, por mecanismo sistêmico — a alternativa erra ao afirmar que a área não queimada é poupada.
Gabarito: letra C — a única alternativa que descreve corretamente a fisiopatologia da lesão por inalação, predominante química sobre a térmica.