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Questão de Medicina — Queimaduras — FGV 2025

MedicinaQueimaduras
Código
fg109972
Banca
FGV
Órgão
EBSERH
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Grupo Cirurgia Geral
Um paciente de 32 anos foi resgatado em um incêndio de grandes proporções apresentando lesões térmicas em tronco e membros. Relata que inicialmente tentou combater o incêndio e depois se refugiou em outra sala devido à grande quantidade de fumaça.Sobre as queimaduras, é correto afirmar que
  1. Aa queimadura de espessura parcial profunda compromete a derme e os folículos pilosos permanecem viáveis e intactos.
  2. Bna área queimada, na denominada zona de coagulação há diminuição da perfusão tecidual podendo evoluir para necrose irreversível.
  3. Cna lesão por inalação, o dano é principalmente de queimaduras químicas associadas a toxinas inaladas, sendo infrequente a lesão térmica.
  4. Do paciente deve ser enrolado em um cobertor ou lençol umidificado com solução salina para minimizar a perda de calor e para controle de temperatura durante o transporte.
  5. Eas alterações na permeabilidade e atividade dos mediadores podem causar edema generalizado por meio de forças de Starling na pele queimada poupando a área não queimada.
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GabaritoC — na lesão por inalação, o dano é principalmente de queimaduras químicas associadas a toxinas inaladas, sendo infrequente a lesão térmica.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Queimaduras: fisiopatologia, classificação e conduta inicial

Gabarito: letra C. A lesão por inalação em incêndios é causada predominantemente por queimadura química decorrente da inalação de toxinas (monóxido de carbono e cianeto) e partículas, sendo a lesão térmica direta limitada à via aérea superior — exatamente o que a alternativa C afirma. As demais alternativas contêm erros conceituais sobre a profundidade das queimaduras, as zonas da lesão, o transporte do paciente e a fisiopatologia do edema.

A queimadura é uma lesão dos tecidos de revestimento do corpo, causada por agentes térmicos, químicos, elétricos ou radiativos, que destrói parcial ou totalmente a pele e seus anexos, podendo atingir camadas mais profundas. A gravidade depende da temperatura, do tempo de exposição, da espessura da pele e da área acometida. Para entender a questão, é essencial dominar três pilares: a classificação quanto à profundidade, as zonas da lesão térmica e a fisiopatologia da lesão por inalação.

Quanto à profundidade, as queimaduras classificam-se em: 1º grau (espessura superficial) — atinge só a epiderme, sem bolhas, dolorosa; 2º grau (espessura parcial) — atinge epiderme e parte da derme, com bolhas, subdividindo-se em superficial (base rósea, muito dolorosa) e profunda (base branca, menos dolorosa); 3º grau (espessura total) — destrói todas as camadas da pele, indolor por destruição das terminações nervosas, necessita enxertia; e 4º grau — atinge tecidos profundos como músculos e ossos. A distinção entre 2º grau superficial e profundo é crucial: na profunda, a derme reticular é destruída, comprometendo os anexos cutâneos, incluindo os folículos pilosos.

A fisiopatologia da lesão térmica envolve três zonas concêntricas: a zona de coagulação (mais interna, tecido diretamente danificado, com necrose irreversível), a zona de estase (intermediária, com inflamação e hipoperfusão, podendo evoluir para necrose nas primeiras 48h) e a zona de hiperemia (mais externa, com perfusão preservada). A lesão endotelial desencadeia cascata inflamatória com liberação de citocinas, formação de microtrombos e aumento da permeabilidade vascular, levando à perda de líquidos e proteínas para o espaço extravascular — o que explica o edema, que ocorre tanto na área queimada quanto na não queimada, por mecanismo sistêmico.

A lesão por inalação é um dos principais fatores de mortalidade nas queimaduras térmicas, presente em até 60% dos grandes queimados. Seus mecanismos são: exposição ao calor (lesão térmica direta, limitada à via aérea superior pelo reflexo de fechamento glótico), inalação de partículas (que atingem bronquíolos e causam edema de mucosa) e intoxicação por gases tóxicos (monóxido de carbono e cianeto). Portanto, o dano predominante é químico, não térmico — a lesão térmica direta é infrequente nas vias aéreas inferiores.

No atendimento inicial, o paciente queimado deve ser coberto com lençol limpo e seco ou campos estéreis. Curativos embebidos em solução salina em grandes áreas podem causar hipotermia, pois a evaporação da solução resfria o corpo — por isso, a alternativa D está incorreta. O resfriamento local com água em temperatura ambiente é benéfico nas primeiras horas, mas não se deve envolver o paciente em lençol úmido durante o transporte.

A pegadinha central desta questão está na inversão de conceitos: a banca troca a zona de coagulação pela zona de estase (alternativa B), afirma que os folículos pilosos permanecem viáveis na queimadura de espessura parcial profunda (alternativa A) e sugere que o edema poupa a área não queimada (alternativa E). A alternativa C, por sua vez, descreve corretamente a fisiopatologia da lesão inalatória. Guarde a fronteira entre lesão térmica direta (via aérea superior) e lesão química (vias aéreas inferiores): é nela que a alternativa C se sustenta.

Queimaduras
  • 1Quanto à profundidade
    • 1º grau (epiderme)
    • 2º grau (epiderme + derme)
      • Superficial (folículos viáveis)
      • Profunda (folículos destruídos)
    • 3º grau (todas as camadas)
    • 4º grau (músculos e ossos)
  • 2Zonas da lesão
    • Coagulação (necrose irreversível)
    • Estase (hipoperfusão → necrose)
    • Hiperemia (perfusão preservada)
  • 3Lesão por inalação
    • Lesão térmica direta (via aérea superior)
    • Lesão química (toxinas e partículas)
  • 4Conduta inicial
    • Lençol úmido (hipotermia)
    • Lençol limpo e seco
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Alternativa A — ❌ Incorreta

A queimadura de espessura parcial profunda (2º grau profundo) compromete a epiderme, a derme papilar e a derme reticular, destruindo aproximadamente dois terços da pele. Nesse nível, os folículos pilosos são destruídos, não permanecem viáveis. A viabilidade dos folículos é característica da queimadura de espessura parcial superficial, que atinge apenas a derme papilar. A banca inverte a profundidade: na parcial profunda, os anexos cutâneos (folículos, glândulas) são comprometidos, o que explica a cicatrização mais lenta (2 a 9 semanas) e a possível formação de cicatrizes.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A alternativa troca as zonas da lesão. Na zona de coagulação (mais interna), o tecido é diretamente danificado e já apresenta necrose irreversível — não há apenas "diminuição da perfusão". A zona com diminuição da perfusão tecidual, que pode evoluir para necrose, é a zona de estase (intermediária), que apresenta inflamação e hipoperfusão, podendo tornar-se necrótica nas primeiras 48 horas. A banca inverte as características das zonas de coagulação e estase.

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A lesão por inalação em incêndios é causada principalmente por queimadura química decorrente da inalação de toxinas (monóxido de carbono e cianeto de hidrogênio) e partículas, sendo a lesão térmica direta infrequente nas vias aéreas inferiores. O calor lesa predominantemente a via aérea superior (supraglótica), pois o reflexo de tosse e o fechamento glótico impedem a entrada de fumaça quente nas vias aéreas inferiores. A fumaça contém partículas menores que 0,5 μm que atingem os bronquíolos terminais, causando edema de mucosa, broncoespasmo e obstrução — mecanismo químico, não térmico.

Alternativa D — ❌ Incorreta

O paciente queimado não deve ser enrolado em lençol umidificado com solução salina. Para grandes queimaduras, a aplicação de curativos embebidos em solução salina em grande área pode causar hipotermia, pois a evaporação da solução resfria o corpo. A conduta correta é cobrir o paciente com lençol limpo e seco ou campos estéreis, para minimizar a perda de calor e evitar contaminação. O resfriamento ativo com água é benéfico apenas nas primeiras horas e em pequenas áreas, não durante o transporte de grandes queimados.

Alternativa E — ❌ Incorreta

As alterações na permeabilidade vascular e a liberação de mediadores inflamatórios causam edema generalizado, que não poupa a área não queimada. A lesão endotelial desencadeia resposta inflamatória sistêmica (SIRS) com liberação de citocinas, óxido nítrico e espécies reativas de oxigênio, aumentando a permeabilidade capilar em todo o organismo. O edema ocorre tanto na pele queimada quanto na não queimada, por mecanismo sistêmico — a alternativa erra ao afirmar que a área não queimada é poupada.

Gabarito: letra C — a única alternativa que descreve corretamente a fisiopatologia da lesão por inalação, predominante química sobre a térmica.

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