Síndrome de Guillain-Barré: diagnóstico e achados típicos
Gabarito: letra D. Na eletroneuromiografia (ENMG), o padrão mais comum da síndrome de Guillain-Barré (SGB) no Ocidente é o desmielinizante — a forma aguda inflamatória desmielinizante (AIDP) —, caracterizado por velocidades de condução reduzidas, latências distais prolongadas, bloqueios de condução e dispersão temporal. As demais alternativas contêm erros conceituais: a hipotensão postural pode ocorrer na SGB por disautonomia; o líquor típico mostra dissociação albumino-citológica (proteínas elevadas com poucas células); e o diagnóstico, embora primariamente clínico, é confirmado por exames complementares.
A síndrome de Guillain-Barré é uma polirradiculoneuropatia aguda autoimune, classicamente desencadeada por infecção viral ou bacteriana (como Campylobacter jejuni, citomegalovírus, Epstein-Barr) cerca de duas semanas antes. O quadro clássico é de fraqueza muscular progressiva e simétrica, ascendente, com arreflexia (reflexos profundos diminuídos ou ausentes) e hipoestesia distal. O que muitos candidatos não sabem é que a SGB não é uma doença puramente motora: o sistema nervoso autônomo é frequentemente acometido, manifestando-se por hipotensão postural, arritmias, retenção urinária e íleo paralítico. Por isso, a síncope por hipotensão postural descrita no enunciado é um achado esperado, e não um erro diagnóstico.
O diagnóstico da SGB é primariamente clínico, mas exames complementares são necessários para confirmar e excluir outras causas de paralisia flácida aguda. O líquor apresenta a clássica dissociação albumino-citológica: aumento de proteínas com contagem celular normal ou discretamente elevada (geralmente < 10 células/mm³, predominantemente mononucleares). A eletroneuromiografia (ENMG) é o exame que confirma o comprometimento do nervo periférico e diferencia as formas desmielinizante e axonal. No Ocidente, a forma mais comum é a desmielinizante (AIDP), responsável por cerca de 85-90% dos casos, enquanto as formas axonais (AMAN e AMSAN) são mais frequentes na Ásia e na América do Sul.
A progressão da doença é um ponto-chave: a fraqueza atinge o nadir em até 4 semanas (máximo 8 semanas), seguida de uma fase de platô e recuperação gradual. O tratamento específico inclui imunoglobulina intravenosa (IgIV) ou plasmaférese, que aceleram a recuperação e reduzem os déficits residuais. A identificação precoce e o encaminhamento ágil são essenciais, pois a doença pode evoluir para insuficiência respiratória (cerca de 30% dos casos necessitam de ventilação mecânica).
A pegadinha central desta questão é a associação automática entre hipotensão postural e outras causas de síncope (como hipovolemia ou causas cardíacas), levando o candidato a descartar a SGB. Na verdade, a disautonomia é uma manifestação reconhecida da doença. Outra armadilha é confundir o padrão liquórico da SGB com o de uma meningite (que teria pleocitose importante) ou acreditar que o diagnóstico clínico dispensa exames complementares. Guarde o tripé: clínica (fraqueza + arreflexia) + líquor (dissociação albumino-citológica) + ENMG (padrão desmielinizante no Ocidente) — é exatamente nesses três pilares que as alternativas se dividem.
Alternativa A — ❌ Incorreta
Afirma que o diagnóstico está errado porque hipotensão postural não faz parte da SGB. Erro conceitual: a hipotensão postural é uma manifestação de disautonomia, que ocorre em até 70% dos pacientes com SGB, especialmente nas formas graves. A síncope por hipotensão postural descrita no caso é um achado compatível, não um elemento que invalida o diagnóstico.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Descreve o líquor com "aumento de proteínas e leucocitose à custa de linfócitos". O achado típico da SGB é a dissociação albumino-citológica: proteínas elevadas com poucas células (geralmente < 10 células/mm³). A presença de leucocitose significativa (> 10 linfócitos/mm³) deve levantar suspeita de outras causas, como sarcoidose, doença de Lyme ou infecção pelo HIV. O erro está em afirmar que há leucocitose — na verdade, a celularidade é normal ou discretamente elevada.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Diz que o diagnóstico clínico é suficiente. Embora o diagnóstico seja primariamente clínico, exames complementares (líquor e ENMG) são necessários para confirmar a hipótese e excluir outras causas de paralisia flácida aguda, como mielite, miastenia gravis, botulismo ou polineuropatia do doente crítico. A afirmativa é incompleta e, portanto, incorreta.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A eletroneuromiografia na SGB, no Ocidente, mostra predominantemente o padrão desmielinizante (AIDP), com velocidades de condução motora reduzidas, prolongamento das latências motoras distais, bloqueios de condução e dispersão temporal. As formas axonais (AMAN, AMSAN) são menos comuns no Ocidente, sendo mais frequentes na Ásia e na América do Sul. A afirmativa está correta e espelha o conhecimento clássico sobre a doença.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Afirma que a doença é mais comum em crianças do sexo feminino no Ocidente. Erro duplo: a SGB é mais comum em adultos (incidência aumenta com a idade, com pico entre 40-60 anos) e tem discreto predomínio no sexo masculino (razão homem:mulher de aproximadamente 1,5:1). O caso descrito (homem, 55 anos) é, na verdade, o perfil epidemiológico típico.
Gabarito: letra D — a única afirmativa correta é a que descreve o padrão desmielinizante na ENMG como o mais comum no Ocidente.