Questão de Medicina — Alergia e Imunologia — FGV 2025
Medicina›Alergia e Imunologia
Código
fg112474
Banca
FGV
Órgão
EBSERH
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Área de Atuação - Alergia e Imunologia Pediátrica
Na síndrome de Guillain-Barré, os mecanismos fisiopatológicos responsáveis pelas manifestações clínicas resultam, predominantemente, de processos imunomediados que incluem
Ainfiltração seletiva de eosinófilos nas raízes nervosas, com degranulação local, liberação de proteínas tóxicas e necrose axonal difusa.
Ba produção de autoanticorpos IgA contra canais de potássio neuronais, levando à disfunção pré-sináptica e ao bloqueio da transmissão neuromuscular.
Co depósito de imunocomplexos nos nervos periféricos, com formação de granulomas perivasculares e interrupção da condução nervosa por efeito compressivo.
Da ativação de células T citotóxicas contra proteínas expressas nos oligodendrócitos periféricos, resultando em apoptose e degeneração segmentar da mielina.
Eo mimetismo molecular entre antígenos microbianos e gangliosídeos neuronais, induzindo produção de autoanticorpos IgG que ativam o complemento, promovendo lesão desmielinizante ou axonal, a depender da especificidade antigênica.
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GabaritoE — o mimetismo molecular entre antígenos microbianos e gangliosídeos neuronais, induzindo produção de autoanticorpos IgG que ativam o complemento, promovendo lesão desmielinizante ou axonal, a depender da especificidade antigênica.
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Síndrome de Guillain-Barré: fisiopatologia imunomediada
Gabarito: letra E. A síndrome de Guillain-Barré (SGB) é uma polirradiculoneuropatia inflamatória aguda causada por agressão imunomediada ao sistema nervoso periférico, e o mecanismo central é o mimetismo molecular: antígenos microbianos (como os do Campylobacter jejuni) induzem autoanticorpos que reagem de forma cruzada com gangliosídeos neuronais, ativando o complemento e causando lesão desmielinizante ou axonal conforme a especificidade antigênica. É exatamente essa descrição que a alternativa E traz, de forma completa e fiel à fisiopatologia clássica da doença.
A SGB é uma doença autoimune que ataca o sistema nervoso periférico. O gatilho mais comum é uma infecção prévia — em até 70% dos casos há um pródromo infeccioso, sendo as causas mais frequentes as infecções virais de vias aéreas e a gastroenterocolite aguda por Campylobacter jejuni. O que acontece é que alguns microrganismos apresentam antígenos cuja estrutura molecular se assemelha à de componentes do nervo periférico, especialmente os gangliosídeos (glicolipídeos presentes na membrana dos neurônios e da mielina). Essa semelhança faz com que os anticorpos produzidos contra o micróbio também ataquem o tecido nervoso — é o chamado mimetismo molecular.
Os autoanticorpos gerados são predominantemente da classe IgG e se ligam aos gangliosídeos na superfície dos axônios ou das células de Schwann. Essa ligação ativa o sistema complemento, levando à formação do complexo de ataque à membrana e à destruição celular. Dependendo do gangliosídeo alvo, o dano pode ser predominantemente desmielinizante (como na forma mais comum, a polirradiculoneuropatia desmielinizante inflamatória aguda — AIDP) ou axonal (como nas variantes axonais agudas, AMAN e AMSAN). Por isso, a alternativa E está correta ao afirmar que a lesão pode ser desmielinizante ou axonal "a depender da especificidade antigênica".
O quadro clínico típico é de fraqueza muscular progressiva, simétrica, ascendente, com arreflexia ou hiporreflexia, frequentemente precedida por sintomas sensitivos leves. O diagnóstico é clínico, apoiado por liquor com dissociação proteíno-citológica (elevação de proteínas com celularidade normal) e por eletroneuromiografia. O tratamento envolve imunoglobulina intravenosa ou plasmaférese, que atuam justamente modulando essa resposta imune humoral.
A banca explora aqui a confusão entre os diferentes mecanismos imunológicos que podem causar doenças neurológicas. É fundamental distinguir: na SGB, o mecanismo é humoral (autoanticorpos IgG contra gangliosídeos, com ativação do complemento), e não celular (células T citotóxicas), nem por imunocomplexos, nem por eosinófilos. Guarde essa fronteira: mimetismo molecular + autoanticorpos IgG + complemento é a assinatura da SGB.
Síndrome de Guillain-Barré: Mecanismo central (Mimetismo molecular, Autoanticorpos IgG anti-gangliosídeos, Ativação do complemento); Tipo de lesão (conforme especificidade) (Desmielinizante (AIDP), Axonal (AMAN/AMSAN)); Gatilho comum (Infecção prévia (Campylobacter jejuni)); Tratamento (Imunoglobulina IV, Plasmaférese)
Alternativa A — ❌ Incorreta
A alternativa fala em "infiltração seletiva de eosinófilos nas raízes nervosas". Isso não corresponde à fisiopatologia da SGB. A infiltração eosinofílica é característica de outras condições, como certas parasitoses ou síndromes hipereosinofílicas, e não há papel central dos eosinófilos na agressão ao nervo periférico na SGB. O mecanismo é mediado por autoanticorpos e complemento, não por degranulação eosinofílica.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A alternativa menciona "autoanticorpos IgA contra canais de potássio neuronais". Na SGB, os autoanticorpos são predominantemente da classe IgG, e os alvos são os gangliosídeos, não canais de potássio. A disfunção pré-sináptica e o bloqueio da transmissão neuromuscular por anticorpos contra canais iônicos são mecanismos de outras doenças, como as síndromes miastênicas congênitas ou a síndrome de Lambert-Eaton (que envolve canais de cálcio). A troca de IgG por IgA e de gangliosídeos por canais de potássio torna a alternativa incorreta.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A alternativa fala em "depósito de imunocomplexos nos nervos periféricos, com formação de granulomas perivasculares". A SGB não é uma doença por imunocomplexos nem cursa com formação de granulomas. Granulomas perivasculares são vistos em outras neuropatias, como na sarcoidose. O mecanismo da SGB é a ação direta de autoanticorpos contra gangliosídeos, com ativação do complemento, e não o depósito de imunocomplexos circulantes.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A alternativa descreve "ativação de células T citotóxicas contra proteínas expressas nos oligodendrócitos periféricos". Há dois erros conceituais: (1) na SGB o mecanismo predominante é humoral (autoanticorpos), não celular por células T citotóxicas; (2) os oligodendrócitos são as células que formam a mielina no sistema nervoso central, enquanto no sistema nervoso periférico a mielina é formada pelas células de Schwann. A degeneração segmentar da mielina na SGB é mediada por anticorpos e complemento, não por apoptose induzida por células T.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Esta alternativa descreve com precisão o mecanismo fisiopatológico central da SGB: o mimetismo molecular entre antígenos microbianos e gangliosídeos neuronais, que induz a produção de autoanticorpos IgG que ativam o complemento, promovendo lesão desmielinizante ou axonal conforme a especificidade antigênica. Cada elemento está correto: a classe do anticorpo (IgG), o alvo (gangliosídeos), o mecanismo efetor (ativação do complemento) e a consequência (lesão desmielinizante ou axonal, dependendo do gangliosídeo atingido). É a descrição canônica da doença.
NÃO CAIA NESSA!
A banca troca o mecanismo humoral da SGB por mecanismos de outras doenças neurológicas: eosinófilos (A), anticorpos contra canais de potássio (B), imunocomplexos com granulomas (C) e células T citotóxicas contra oligodendrócitos (D). A pegadinha clássica é a alternativa D, que mistura o mecanismo celular (típico de doenças como a esclerose múltipla, que ataca o SNC) com o alvo errado (oligodendrócitos em vez de células de Schwann). Fique atento: na SGB, o ataque é humoral, contra gangliosídeos, no sistema nervoso periférico.
PEGA ESSA DICA!
Para questões de fisiopatologia de doenças autoimunes, monte um quadro mental com quatro perguntas: (1) qual o tipo de resposta imune (humoral ou celular)? (2) qual o autoanticorpo ou célula efetora? (3) qual o alvo antigênico? (4) qual o mecanismo de lesão? Na SGB: resposta humoral, IgG, gangliosídeos, complemento. Essa estrutura ajuda a eliminar alternativas que misturam mecanismos de outras doenças.