Residência Médica - Cirurgia Geral (Cir Ap Digestivo, Urologia, Cir do Trauma, Cir Oncológica, Cir Plástica, Cir Vascular, Coloproctologia, Mastologia)
Na sua Unidade de Emergência dá entrada um homem de 28 anos que foi vítima de ferimento por arma branca em região cervical anterior (zona II). Chega estável, sem sinais de choque. Apresenta enfisema subcutâneo e discreta disfagia, sem sangramento ativo.A conduta mais adequada para o caso é
Aexploração cirúrgica imediata obrigatória.
Bobservação clínica e alta hospitalar após analgesia.
Cavaliação com angiotomografia cervical, seguida de exploração seletiva se necessário.
Dradioterapia cervical profilática.
Ecolonoscopia diagnóstica para descartar perfuração associada.
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GabaritoC — avaliação com angiotomografia cervical, seguida de exploração seletiva se necessário.
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Trauma cervical penetrante: abordagem seletiva
Gabarito: letra C. Em paciente estável, sem sinais de choque, com ferimento por arma branca em zona II do pescoço e sinais sugestivos de lesão aerodigestiva (enfisema subcutâneo e disfagia), a conduta mais adequada é a avaliação com angiotomografia cervical, seguida de exploração seletiva se necessário — a abordagem moderna do trauma cervical penetrante abandonou a exploração cirúrgica obrigatória para todos os ferimentos que ultrapassam o platisma, priorizando a triagem por exame de imagem e a exploração apenas quando há lesão identificada ou sinais clínicos de alerta.
O trauma cervical penetrante é um desafio clássico da cirurgia do trauma porque o pescoço concentra, em um espaço muito compacto, estruturas vasculares, aerodigestivas e neurológicas vitais. Historicamente, a classificação em zonas (I, II e III) do triângulo anterior, descrita por Monson et al. em 1969, determinava a conduta: lesões na zona II eram submetidas à exploração cirúrgica imediata, enquanto as zonas I e III, de acesso mais difícil, eram avaliadas por métodos complementares. Essa abordagem, porém, baseava-se na premissa de que a localização da ferida externa correspondia diretamente à lesão interna — o que nem sempre é verdade, pois quase metade dos objetos penetrantes atravessa múltiplas zonas.
A evolução do manejo trouxe a abordagem seletiva, que se tornou o padrão-ouro. Em vez de operar todos os pacientes com ferimento que ultrapassa o platisma, o cirurgião avalia criteriosamente: pacientes com sinais clássicos de lesão grave (choque hemorrágico, sangramento ativo, hematoma expansivo, crepitação, estridor, disfonia, disfagia, enfisema subcutâneo, déficit neurológico) são candidatos à exploração imediata. Já pacientes estáveis, sem esses sinais, são submetidos a avaliação diagnóstica complementar — a angiotomografia cervical é o exame de escolha, pois avalia simultaneamente vasos, vias aéreas e esôfago, permitindo identificar lesões que, se presentes, indicam a exploração seletiva.
No caso apresentado, o paciente tem 28 anos, ferimento por arma branca em zona II, está estável, sem choque, sem sangramento ativo. Os sinais de enfisema subcutâneo e disfagia discreta levantam a suspeita de lesão de esôfago ou de via aérea, mas não são indicação absoluta de exploração imediata — são exatamente os casos em que a angiotomografia cervical é fundamental para confirmar ou excluir a lesão e guiar a conduta. Se a angiotomografia mostrar lesão, o paciente é explorado; se não mostrar, pode ser observado. Essa é a essência da exploração seletiva: operar quem precisa, evitar cirurgia desnecessária em quem não precisa.
A pegadinha da questão está na alternativa A, que propõe a exploração cirúrgica imediata obrigatória — essa era a conduta clássica para zona II, mas foi superada pela abordagem seletiva. A banca explora exatamente essa confusão entre o manejo histórico e o atual. Guarde a fronteira: sinais de gravidade → exploração imediata; paciente estável → avaliação com imagem e exploração seletiva.
Trauma cervical penetrante
1Zonas (Monson)
Zona I (base do pescoço)
Zona II (região central)
Zona III (acima do ângulo da mandíbula)
2Abordagem clássica (superada)
Exploração cirúrgica obrigatória na zona II
3Abordagem seletiva (atual)
Sinais de gravidade
Choque hemorrágico
Sangramento ativo
Hematoma expansivo
Estridor
Déficit neurológico
Exploração imediata
Paciente estável
Angiotomografia cervical
Lesão identificada → exploração seletiva
Sem lesão → observação
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Alternativa A — ❌ Incorreta
A exploração cirúrgica imediata obrigatória para todos os ferimentos de zona II é a conduta histórica, baseada na classificação de zonas de Monson, mas foi superada pela abordagem seletiva. No paciente estável, sem sinais de choque ou sangramento ativo, a exploração obrigatória exporia o paciente a uma cirurgia desnecessária, com morbidade potencial, quando a angiotomografia poderia avaliar a presença de lesão de forma menos invasiva. A exploração imediata fica reservada para pacientes com sinais clássicos de lesão grave — choque, sangramento ativo, hematoma expansivo, estridor, entre outros.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A observação clínica e alta hospitalar após analgesia é insuficiente e perigosa. O paciente apresenta enfisema subcutâneo e disfagia, que são sinais de alerta para possível lesão de esôfago ou via aérea. Simplesmente observar e dar alta sem investigação adequada pode levar à perda de uma lesão grave, com complicações tardias como mediastinite, abscesso cervical ou fístula. A observação clínica isolada só é aceitável em casos muito selecionados, com ferimentos superficiais e sem qualquer sinal de alerta — o que não é o caso.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A angiotomografia cervical é o exame de escolha na avaliação do trauma cervical penetrante em paciente estável. Ela permite avaliar simultaneamente as estruturas vasculares (carótidas, vertebrais, jugulares), a via aérea (laringe, traqueia) e o esôfago, identificando lesões que indicam a necessidade de exploração cirúrgica. No paciente com enfisema subcutâneo e disfagia, a angiotomografia é fundamental para confirmar ou excluir lesão aerodigestiva. Se a imagem mostrar lesão, o paciente é submetido à exploração seletiva; se não mostrar, pode ser observado. Essa é a conduta moderna e mais adequada para o caso.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A radioterapia cervical profilática não tem nenhuma indicação no trauma cervical penetrante. Radioterapia é um tratamento para neoplasias, não para ferimentos por arma branca. Essa alternativa é um distrator absurdo, que não corresponde a nenhuma conduta na abordagem do trauma.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A colonoscopia diagnóstica é um exame para avaliação do cólon, completamente inadequado para o trauma cervical. Não há qualquer relação entre o ferimento cervical e a necessidade de colonoscopia. Essa alternativa é um distrator que testa se o candidato sabe o que é cada exame e onde ele se aplica. A avaliação do trauma cervical penetrante envolve exames de imagem da região cervical, como a angiotomografia, não exames do trato gastrointestinal inferior.
Gabarito: letra C — avaliação com angiotomografia cervical, seguida de exploração seletiva se necessário.