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Questão de Medicina — Clínica Médica Humana — FGV 2025

MedicinaClínica Médica Humana
Código
fg114264
Banca
FGV
Órgão
HUEM
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Residência Médica - Clinica Médica (Cardiologia, Endocrinologia e Metabologia, Hematologia e Hemoterapia, Nefrologia, Oncologia Clínica, Reumatologia, Medicina Paliativa)
Mulher, 38 anos, com diagnóstico de miastenia gravis há 2 anos, em uso regular de piridostigmina 60 mg a cada 6 horas e prednisona 20 mg em dias alternados, procura o pronto-socorro com queixa de piora progressiva de fraqueza muscular nos últimos 5 dias. Refere que, há uma semana, apresentou tosse produtiva, febre de 38,5 oC e dispneia aos esforços, tendo sido atendida em outra unidade de saúde, onde foi prescrito levofloxacino 750 mg ao dia. Desde então, evoluiu com agravamento da ptose palpebral bilateral, diplopia constante, disfagia para sólidos, disartria e fraqueza proximal em membros superiores com dificuldade para pentear os cabelos. Nega dispneia em repouso, mas relata fadiga aos mínimos esforços.Ao exame físico, apresenta-se lúcida e orientada, eupneica em ar ambiente, ausculta pulmonar com estertores crepitantes em base direita, ptose palpebral bilateral acentuada, oftalmoparesia com limitação da abdução ocular bilateral, voz anasalada, fraqueza muscular proximal grau 4 em membros superiores e grau 4+ em membros inferiores. Frequência respiratória de 18 irpm, saturação de oxigênio de 96% em ar ambiente, capacidade vital forçada de 2,8 litros (85% do predito). Gasometria arterial: pH 7,42, PaCO2 38 mmHg, PaO2 88 mmHg, HCO3 24 mEq/L, SatO2 96%. Radiografia de tórax evidenciou infiltrado em lobo inferior direito.A conduta terapêutica mais apropriada para o caso é
  1. Acaracterizar o quadro como crise miastênica, suspender imediatamente a piridostigmina, iniciar ventilação mecânica invasiva profilática e realizar plasmaférese de urgência com cinco trocas em dias alternados.
  2. Bsuspender o levofloxacino, iniciar amoxicilina-clavulanato 875/125 mg a cada 8 horas, aumentar a dose de piridostigmina para 90 mg a cada 4 horas e considerar imunoglobulina humana endovenosa 2 g/kg dividida em 2 a 5 dias.
  3. Cmanter o esquema atual de piridostigmina e levofloxacino, adicionar atropina 0,5 mg endovenosa a cada 6 horas para controle dos efeitos colinérgicos e iniciar metilprednisolona 2 g endovenosa ao dia por 2 dias consecutivos.
  4. Dcaracterizar síndrome colinérgica por superdosagem de piridostigmina, suspender imediatamente o anticolinesterásico, administrar atropina 1 a 2 mg endovenosa em bolus e manter apenas o tratamento antibiótico e corticoterapia.
  5. Einternar em unidade de terapia intensiva para monitorização respiratória contínua, aumentar prednisona para 60 mg ao dia, suspender piridostigmina temporariamente e iniciar azatioprina 50 mg ao dia como imunossupressor poupador de corticoide.
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GabaritoB — suspender o levofloxacino, iniciar amoxicilina-clavulanato 875/125 mg a cada 8 horas, aumentar a dose de piridostigmina para 90 mg a cada 4 horas e considerar imunoglobulina humana endovenosa 2 g/kg dividida em 2 a 5 dias.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Crise miastênica: manejo agudo e fatores precipitantes

Gabarito: letra B. A paciente apresenta crise miastênica desencadeada por pneumonia adquirida na comunidade, e a conduta mais apropriada envolve suspender o levofloxacino (fluoroquinolona, que pode piorar a miastenia), tratar a infecção com amoxicilina-clavulanato, otimizar a piridostigmina e considerar imunoglobulina humana endovenosa 2 g/kg dividida em 2 a 5 dias. O raciocínio central é o reconhecimento da crise miastênica e o manejo dos fatores precipitantes, conforme o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) da Miastenia Gravis.

A miastenia gravis (MG) é uma doença autoimune da junção neuromuscular, caracterizada por fraqueza muscular flutuante e fatigabilidade, com predomínio proximal e envolvimento clássico de musculatura ocular (ptose, diplopia), bulbar (disfagia, disartria, voz anasalada) e respiratória. A crise miastênica é a exacerbação aguda da doença que ameaça a vida, geralmente por insuficiência respiratória, e é precipitada por fatores como infecções, cirurgias, estresse, gravidez e medicamentos que interferem na transmissão neuromuscular.

No caso apresentado, a paciente tem diagnóstico prévio de MG e desenvolveu quadro de pneumonia (tosse produtiva, febre, infiltrado em lobo inferior direito), sendo tratada com levofloxacino — uma fluoroquinolona, classe de antibiótico que pode precipitar ou piorar a crise miastênica por agir na placa neuromuscular. A piora progressiva da fraqueza, com ptose acentuada, oftalmoparesia, disfagia, disartria e fraqueza proximal, associada à pneumonia, configura crise miastênica. A capacidade vital forçada de 85% do predito e a gasometria normal indicam que, por ora, não há insuficiência respiratória iminente, mas a monitorização é essencial.

O tratamento da crise miastênica envolve três pilares: (1) controle dos fatores precipitantes (tratar a infecção, suspender drogas que pioram a MG); (2) tratamento específico com anticolinesterásicos (otimizar a piridostigmina, com avaliação de suspensão temporária em casos de ventilação mecânica ou suspeita de crise colinérgica) e imunoterapia (plasmaférese ou imunoglobulina humana); e (3) suporte ventilatório quando necessário. A imunoglobulina humana é indicada na dose de 2 g/kg dividida em 2 a 5 dias, e a plasmaférese é alternativa equivalente.

A distinção crucial é entre crise miastênica e crise colinérgica. A crise colinérgica resulta de excesso de anticolinesterásicos, causando fraqueza por despolarização excessiva da junção neuromuscular, além de efeitos muscarínicos (bradicardia, hipersalivação, diarreia, miose). No caso, a paciente não apresenta sinais colinérgicos — não há bradicardia, hipersalivação ou diarreia — e a piora está claramente associada à infecção e ao uso de levofloxacino, favorecendo o diagnóstico de crise miastênica. A suspensão imediata da piridostigmina sem indicação (como na alternativa A) seria inadequada, pois a paciente não está sob ventilação mecânica e não há suspeita de crise colinérgica.

A pegadinha da banca está em confundir crise miastênica com crise colinérgica e em propor condutas extremas (suspensão imediata de piridostigmina, ventilação mecânica profilática, pulsoterapia com metilprednisolona) que não são apropriadas para o quadro atual. A alternativa B é a única que aborda corretamente os três pilares: tratar a infecção com antibiótico seguro, otimizar a piridostigmina e considerar imunoglobulina. Guarde a fronteira entre crise miastênica e colinérgica e o papel dos fatores precipitantes: é exatamente nela que as alternativas se dividem.

Critério

Crise Miastênica

Crise Colinérgica

Mecanismo

Exacerbação autoimune da MG (déficit de transmissão neuromuscular)

Excesso de anticolinesterásicos (despolarização excessiva da junção neuromuscular)

Fatores precipitantes

Infecções, cirurgias, estresse, drogas (ex.: fluoroquinolonas)

Superdosagem de piridostigmina

Sinais muscarínicos (bradicardia, hipersalivação, diarreia, miose)

Ausentes

Presentes

Conduta inicial

Tratar fator precipitante, otimizar piridostigmina, considerar imunoglobulina/plasmaférese

Suspender anticolinesterásico, administrar atropina

Alternativa A — ❌ Incorreta

Erra ao propor suspensão imediata da piridostigmina e ventilação mecânica invasiva profilática. A suspensão do anticolinesterásico é indicada apenas em pacientes sob ventilação mecânica ou quando há suspeita de crise colinérgica — não é o caso, pois a paciente está eupneica, com saturação de 96% e gasometria normal. A ventilação mecânica profilática não é indicada sem sinais de insuficiência respiratória iminente. A plasmaférese é uma opção válida, mas não deve ser realizada "de urgência" com cinco trocas em dias alternados sem antes otimizar o tratamento clínico e controlar o fator precipitante.

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A conduta mais apropriada: suspender o levofloxacino (fluoroquinolona que pode piorar a MG), iniciar amoxicilina-clavulanato para tratar a pneumonia (antibiótico seguro na MG), aumentar a dose de piridostigmina para 90 mg a cada 4 horas (dose dentro do intervalo terapêutico de 60-120 mg a cada 4-6 horas, com teto de 720 mg/dia) e considerar imunoglobulina humana endovenosa 2 g/kg dividida em 2 a 5 dias, que é o tratamento específico da crise miastênica, conforme o PCDT.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Erra ao manter o levofloxacino, que é um fator precipitante da crise miastênica e deve ser suspenso. Além disso, propõe metilprednisolona 2 g EV ao dia por 2 dias (pulsoterapia), que não é a conduta inicial na crise miastênica e pode causar piora transitória da fraqueza. A atropina é indicada para efeitos colinérgicos, que não estão presentes no caso.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Erra ao caracterizar o quadro como síndrome colinérgica por superdosagem de piridostigmina. A paciente não apresenta sinais muscarínicos (bradicardia, hipersalivação, diarreia, miose) e a piora está associada à infecção e ao levofloxacino. A suspensão imediata do anticolinesterásico e a administração de atropina em bolus são condutas para crise colinérgica, não para crise miastênica.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Erra ao suspender a piridostigmina temporariamente sem indicação (paciente não está sob ventilação mecânica e não há suspeita de crise colinérgica) e ao aumentar a prednisona para 60 mg ao dia de forma abrupta, o que pode causar piora transitória da fraqueza. A azatioprina 50 mg ao dia é imunossupressor de manutenção, não tem papel no manejo agudo da crise e seu início não é indicado nesse momento. A internação em UTI para monitorização é razoável, mas as demais condutas são inadequadas.

Gabarito: letra B

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