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Questão de Medicina — Clínica Médica Humana — FGV 2025

MedicinaClínica Médica Humana
Código
fg114268
Banca
FGV
Órgão
HUEM
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Residência Médica - Clinica Médica (Cardiologia, Endocrinologia e Metabologia, Hematologia e Hemoterapia, Nefrologia, Oncologia Clínica, Reumatologia, Medicina Paliativa)
Paciente do sexo feminino, 32 anos, previamente hígida, procura atendimento em pronto-socorro referindo febre alta diária há 3 semanas, com pico vespertino chegando a 39,5 oC, seguido de defervescência espontânea e sudorese profusa. Associa artralgia intensa em punhos, joelhos e tornozelos bilateralmente, além de odinofagia e rash cutâneo evanescente que surge concomitante aos picos febris, predominando em tronco e membros. Nega perda ponderal significativa, sintomas respiratórios persistentes, uso de medicações recentes ou viagens. Antecedentes pessoais e familiares sem particularidades.

Ao exame físico: temperatura axilar 39,2 oC, frequência cardíaca 110 bpm, pressão arterial 110/70 mmHg. Regular estado geral, corada, hidratada. Orofaringe hiperemiada sem exsudato. Presença de exantema maculopapular eritematoso, evanescente, em tronco e face interna de coxas, não pruriginoso. Ausculta cardiopulmonar sem alterações. Abdômen: fígado palpável a 2 cm do rebordo costal direito, baço palpável a 1 cm do rebordo costal esquerdo, indolores. Exame articular: edema e dor à mobilização de punhos, joelhos e tornozelos bilateralmente, sem deformidades. Exames laboratoriais: hemoglobina 10,2 g/dL, VCM 82 fL, leucócitos 18.500/mm³ (neutrófilos 88%, linfócitos 8%), plaquetas 520.000/mm³, velocidade de hemossedimentação 95 mm/1ª hora, proteína C reativa 145 mg/L (VR: < 5 mg/L), ferritina 8.200 ng/mL (VR: 15-150), fração glicosilada da ferritina 12% (VR: >20%), transaminases (TGO 85 U/L, TGP 92 U/L), bilirrubinas normais, função renal normal. Fator reumatoide negativo, FAN negativo, anti-CCP negativo. Hemoculturas (3 amostras): negativas. Sorologias para HIV, hepatites B e C, Epstein-Barr, citomegalovírus: negativas. Radiografia de tórax: sem alterações. Ecocardiograma transtorácico: derrame pericárdico laminar.


Considerando o quadro clínico e os achados laboratoriais e de imagem, a hipótese diagnóstica mais provável e os principais diagnósticos diferenciais a serem considerados são
  1. Adoença de Still do adulto, sendo os principais diagnósticos diferenciais sepse oculta, neoplasias hematológicas e síndrome hemofagocítica, todos cursando com febre, leucocitose e hiperferritinemia.
  2. Blúpus eritematoso sistêmico em atividade, sendo os principais diagnósticos diferenciais endocardite infecciosa e linfoma não-Hodgkin, ambos caracterizados por febre prolongada e citopenia.
  3. Cartrite reumatoide soropositiva de início agudo, sendo os principais diagnósticos diferenciais febre reumática e doença mista do tecido conjuntivo, ambas com poliartrite e marcadores inflamatórios elevados.
  4. Dendocardite infecciosa com hemoculturas negativas, sendo os principais diagnósticos diferenciais tuberculose disseminada e brucelose, todas cursando com febre vespertina e hepatoesplenomegalia.
  5. Esíndrome de ativação macrofágica primária, sendo os principais diagnósticos diferenciais leucemia aguda e mielofibrose, todas apresentando leucocitose, trombocitose e organomegalias.
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GabaritoA — doença de Still do adulto, sendo os principais diagnósticos diferenciais sepse oculta, neoplasias hematológicas e síndrome hemofagocítica, todos cursando com febre, leucocitose e hiperferritinemia.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Doença de Still do adulto: febre, rash evanescente e hiperferritinemia

Gabarito: letra A. O quadro — febre alta diária com pico vespertino, rash cutâneo evanescente, artralgia/artrite, odinofagia, hepatoesplenomegalia, leucocitose neutrofílica, trombocitose e, sobretudo, ferritina extremamente elevada (8.200 ng/mL) com fração glicosilada reduzida (12%) — é altamente sugestivo de doença de Still do adulto (DSA). Os principais diagnósticos diferenciais são sepse oculta, neoplasias hematológicas (especialmente linfoma) e síndrome hemofagocítica (SHF), todos capazes de cursar com febre, leucocitose e hiperferritinemia.

A doença de Still do adulto é uma doença inflamatória sistêmica de etiologia desconhecida, caracterizada por febre alta (≥39°C), tipicamente com picos vespertinos e defervescência espontânea, rash cutâneo evanescente (maculopapular, não pruriginoso, que surge com a febre), artrite/artralgia, odinofagia, linfadenopatia, hepatoesplenomegalia e serosite (como o derrame pericárdico laminar do caso). Laboratorialmente, destaca-se a leucocitose com neutrofilia, trombocitose, elevação de provas de fase aguda (VHS, PCR) e, como marcador-chave, a hiperferritinemia marcante, frequentemente > 1.000 ng/mL, com fração glicosilada da ferritina reduzida (< 20%) — achado que ajuda a distinguir a DSA de outras condições inflamatórias. O diagnóstico é clínico, baseado nos critérios de Yamaguchi (que exigem febre ≥39°C por ≥1 semana, artralgia/artrite por ≥2 semanas, e a presença de critérios menores como rash, leucocitose, etc.), excluindo-se infecções, neoplasias e outras doenças reumáticas.

O grande desafio diagnóstico é que a DSA é um diagnóstico de exclusão. A febre prolongada com rash e artralgia pode simular uma infecção oculta (sepse, endocardite), uma neoplasia hematológica (linfoma, leucemia) ou uma síndrome de ativação macrofágica (que pode ser secundária à própria DSA). A hiperferritinemia, embora marcante na DSA, também ocorre na SHF e em algumas neoplasias. Por isso, a investigação deve incluir hemoculturas, sorologias, exames de imagem e, se necessário, biópsia de medula óssea. A fração glicosilada da ferritina baixa é um dado que reforça a DSA, mas não é patognomônico.

A pegadinha desta questão está em reconhecer o padrão clínico-laboratorial da DSA e, ao mesmo tempo, saber quais são os diferenciais mais relevantes. A banca explora a confusão com outras doenças reumáticas (LES, artrite reumatoide) e infecciosas (endocardite), que, embora possam cursar com febre e artralgia, não se encaixam no quadro típico de febre evanescente com rash e hiperferritinemia extrema. O derrame pericárdico, embora presente, é inespecífico e não direciona para endocardite, especialmente com hemoculturas negativas e ausência de sopro.

Guarde o tripé febre alta + rash evanescente + hiperferritinemia com fração glicosilada baixa: é ele que separa a DSA dos demais diagnósticos diferenciais e que será o critério decisivo na análise das alternativas.

Critério

Doença de Still do adulto (DSA)

Lúpus eritematoso sistêmico (LES)

Artrite reumatoide (AR)

Endocardite infecciosa

Síndrome de ativação macrofágica (SAM)

Febre

Alta (≥39°C), diária, picos vespertinos, com defervescência espontânea

Variável, pode ser baixa ou alta

Geralmente ausente ou baixa

Prolongada, contínua ou intermitente

Alta, persistente

Rash cutâneo

Evanescente, maculopapular, não pruriginoso, surge com a febre

Malar (asa de borboleta), fotossensibilidade

Ausente (raro)

Manchas de Janeway, nódulos de Osler (se embólicos)

Inespecífico, pode ser petequial

Comprometimento articular

Artralgia/artrite simétrica, intensa

Artrite/artralgia, geralmente não erosiva

Artrite simétrica, erosiva, deformante

Artralgia (menos comum)

Artralgia (variável)

Leucograma

Leucocitose neutrofílica (frequentemente >10.000)

Leucopenia (citopenia)

Leucocitose discreta ou normal

Leucocitose (variável)

Citopenia (pancitopenia)

Plaquetas

Trombocitose (aumento)

Trombocitopenia (queda)

Trombocitose (fase aguda)

Normal ou trombocitopenia

Trombocitopenia

Ferritina

Extremamente elevada (>1.000), fração glicosilada <20%

Normal ou levemente elevada

Normal ou elevada (fase aguda)

Normal ou elevada (inespecífico)

Muito elevada, mas fração glicosilada geralmente normal

Sorologias/Anticorpos

FAN, FR e anti-CCP negativos

FAN positivo, anti-DNA, anti-Sm

FR e anti-CCP positivos

Hemoculturas (podem ser negativas)

Ferritina, triglicerídeos, função hepática alterada

Órgãos-alvo

Hepatoesplenomegalia, odinofagia, serosite (pericárdio)

Rins (nefrite), SNC, serosite

Pulmão, olhos, nódulos subcutâneos

Coração (valvas), embolia séptica

Medula óssea, fígado, baço

Diagnóstico diferencial principal

Sepse oculta, neoplasias hematológicas, SAM

Endocardite, linfoma

Febre reumática, doença mista do tecido conjuntivo

Tuberculose, brucelose

Leucemia aguda, mielofibrose

Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa identifica corretamente a doença de Still do adulto como hipótese mais provável, com base na febre alta diária, rash evanescente, artrite, odinofagia, hepatoesplenomegalia, leucocitose neutrofílica e hiperferritinemia com fração glicosilada reduzida. Os diagnósticos diferenciais citados — sepse oculta, neoplasias hematológicas (linfoma) e síndrome hemofagocítica — são exatamente os que devem ser considerados, pois todos podem cursar com febre, leucocitose e hiperferritinemia. A alternativa está completa e correta.

Alternativa B — ❌ Incorreta

O lúpus eritematoso sistêmico (LES) é um diagnóstico diferencial, mas não é a hipótese mais provável. O LES costuma cursar com FAN positivo (aqui negativo), citopenias (aqui há leucocitose e trombocitose), e o rash típico é o malar, não o evanescente. Além disso, a hiperferritinemia extrema com fração glicosilada baixa é muito mais característica da DSA. A alternativa também erra ao citar endocardite infecciosa e linfoma não-Hodgkin como diferenciais "ambos caracterizados por febre prolongada e citopenia" — o linfoma pode cursar com citopenia, mas a endocardite geralmente não, e o quadro não sugere endocardite (hemoculturas negativas, sem sopro).

Alternativa C — ❌ Incorreta

A artrite reumatoide soropositiva é excluída pelo fator reumatoide e anti-CCP negativos, além de o quadro ser dominado por febre alta e rash, não por artrite crônica deformante. A febre reumática é uma possibilidade em paciente jovem com artrite e febre, mas o rash típico é o eritema marginado, não o evanescente, e a hiperferritinemia extrema não é característica. A doença mista do tecido conjuntivo também não se encaixa, pois cursaria com anticorpos específicos (anti-U1RNP) e manifestações sobrepostas de LES, esclerodermia e polimiosite, ausentes aqui.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A endocardite infecciosa com hemoculturas negativas é um diferencial a considerar, mas não é a hipótese mais provável. O paciente não tem sopro cardíaco, fator de risco (uso de drogas IV, valvulopatia) e as hemoculturas foram negativas em 3 amostras. A tuberculose disseminada e a brucelose podem cursar com febre e hepatoesplenomegalia, mas não explicam o rash evanescente, a artrite simétrica e a hiperferritinemia extrema com fração glicosilada baixa. A alternativa erra ao eleger a endocardite como principal hipótese.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A síndrome de ativação macrofágica (SAM) primária é um diagnóstico diferencial, mas é rara em adultos e geralmente secundária a infecções, neoplasias ou doenças reumáticas (como a própria DSA). A SAM costuma cursar com citopenias (não leucocitose e trombocitose), além de hiperferritinemia, disfunção hepática e coagulopatia. A alternativa erra ao citar leucemia aguda e mielofibrose como diferenciais principais — a leucemia aguda cursaria com blastos no sangue periférico e citopenias, e a mielofibrose com esplenomegalia marcante e anemia, não com o quadro inflamatório agudo da DSA.

Gabarito: letra A

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