Residência Médica - Clinica Médica (Cardiologia, Endocrinologia e Metabologia, Hematologia e Hemoterapia, Nefrologia, Oncologia Clínica, Reumatologia, Medicina Paliativa)
Paciente do sexo feminino, 32 anos, procura atendimento dermatológico referindo surgimento, há 5 dias, de lesões dolorosas em membros inferiores, precedidas, há duas semanas, por quadro de odinofagia, febre baixa e mal-estar geral, que melhoraram espontaneamente. Relata artralgia em tornozelos e joelhos nos últimos 3 dias, sem edema articular evidente. Nega uso de medicações, exceto contraceptivo oral combinado nos últimos 6 meses. Nega viagens recentes, perda ponderal, sintomas respiratórios persistentes ou alterações do hábito intestinal.Antecedentes pessoais: asma leve intermitente.Ao exame físico: bom estado geral, eupneica, temperatura axilar 37,8 C, frequência cardíaca 88 bpm, pressão arterial 120/75 mmHg. Orofaringe sem alterações no momento do exame.Exame dermatológico: presença de múltiplos nódulos eritematosos, levemente elevados, quentes e extremamente dolorosos à palpação, medindo entre 2 e 4 cm de diâmetro, localizados bilateralmente em regiões pré-tibiais e face anterior das pernas, sem ulceração ou drenagem. Ausência de lesões em outras topografias. Membros inferiores sem edema ou sinais flogísticos em articulações.Exames laboratoriais: hemoglobina 13,8 g/dL, leucócitos 10.200/mm³ (neutrófilos 68%, linfócitos 24%, eosinófilos 2%), plaquetas 298.000/mm³, velocidade de hemossedimentação 48 mm/1ª hora, proteína C reativa 32 mg/L (VR: < 5 mg/L). Radiografia de tórax: sem alterações do parênquima pulmonar ou linfonodomegalias hilares.Considerando o quadro clínico e os achados complementares, assinale a afirmativa correta a respeito da hipótese diagnóstica mais provável e da principal etiologia associada.
AVasculite cutânea de pequenos vasos induzida por contraceptivo oral, caracterizada por nódulos dolorosos bilaterais em membros inferiores com reação de hipersensibilidade tipo III mediada por imunocomplexos.
BPoliarterite nodosa cutânea, caracterizada por vasculite necrosante de artérias de médio calibre manifestando-se por nódulos subcutâneos dolorosos em membros inferiores com livedo reticular associado.
CLinfoma cutâneo de células B manifestando-se como infiltrados subcutâneos nodulares eritematosos em membros inferiores, com elevação de marcadores inflamatórios inespecíficos sugerindo processo linfoproliferativo.
DEritema indurado de Bazin, caracterizado por paniculite lobular associada à tuberculose, manifestando-se por nódulos eritematosos em face posterior das pernas com tendência à ulceração e drenagem.
EEritema nodoso de provável etiologia estreptocócica, caracterizado por paniculite septal sem vasculite, manifestando-se como nódulos eritematosos dolorosos bilaterais em regiões pré-tibiais, precedido por faringite.
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GabaritoE — Eritema nodoso de provável etiologia estreptocócica, caracterizado por paniculite septal sem vasculite, manifestando-se como nódulos eritematosos dolorosos bilaterais em regiões pré-tibiais, precedido por faringite.
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Eritema nodoso: paniculite septal e etiologia estreptocócica
Gabarito: letra E. O quadro clínico — nódulos eritematosos, quentes e dolorosos em região pré-tibial bilateral, precedidos por faringite, com artralgia e febre — é clássico de eritema nodoso, uma paniculite septal sem vasculite, cuja principal etiologia em adultos jovens é a infecção estreptocócica. A alternativa E descreve exatamente essa apresentação e sua causa mais comum.
O eritema nodoso é a forma mais frequente de paniculite, caracterizada por inflamação dos septos fibrosos do tecido adiposo subcutâneo (paniculite septal), sem vasculite primária. As lesões típicas são nódulos eritematosos, quentes, dolorosos, bilaterais, localizados principalmente nas regiões pré-tibiais, que não ulceram nem drenam. O quadro costuma ser precedido por infecção de vias aéreas superiores (faringite estreptocócica), febre, mal-estar e artralgia, como no caso da paciente. A radiografia de tórax normal ajuda a excluir causas como sarcoidose (síndrome de Löfgren) e tuberculose, que também podem cursar com eritema nodoso.
A principal etiologia do eritema nodoso é a infecção pelo estreptococo beta-hemolítico do grupo A, responsável por faringite. Outras causas incluem sarcoidose, tuberculose, hanseníase, infecções fúngicas, doenças inflamatórias intestinais, uso de medicamentos (como contraceptivos orais, sulfonamidas, penicilinas) e neoplasias. No caso apresentado, o antecedente de odinofagia e febre há duas semanas, com melhora espontânea, sugere fortemente uma faringite estreptocócica como gatilho. O uso de contraceptivo oral é um fator de risco, mas a história de infecção prévia é mais sugestiva de etiologia infecciosa.
O diagnóstico é essencialmente clínico, mas a biópsia de pele pode ser necessária em casos atípicos, mostrando paniculite septal com infiltrado inflamatório predominantemente linfohistiocitário, sem vasculite. A investigação etiológica inclui pesquisa de infecção estreptocócica (ASLO, cultura de orofaringe), prova tuberculínica, radiografia de tórax e, se indicado, outros exames conforme a suspeita clínica. O tratamento é sintomático, com repouso, elevação dos membros e anti-inflamatórios não esteroides, além do tratamento da causa de base.
A banca explora a confusão entre eritema nodoso e outras condições que cursam com nódulos subcutâneos, como vasculites, paniculites lobulares e linfomas. O ponto-chave é a localização pré-tibial bilateral, a ausência de ulceração e a paniculite septal sem vasculite, que diferenciam o eritema nodoso das demais alternativas. Guarde essa tríade: nódulos pré-tibiais dolorosos + faringite prévia + paniculite septal = eritema nodoso estreptocócico.
Alternativa A — ❌ Incorreta
A alternativa descreve uma vasculite cutânea de pequenos vasos induzida por contraceptivo oral, mas o quadro é de eritema nodoso, que é uma paniculite septal, não uma vasculite. Embora o contraceptivo oral possa ser um gatilho para eritema nodoso, a história de faringite prévia e a ausência de púrpura palpável (característica das vasculites de pequenos vasos) tornam essa hipótese menos provável. A vasculite de hipersensibilidade cursa com púrpura palpável, não com nódulos pré-tibiais.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A poliarterite nodosa cutânea é uma vasculite necrosante de artérias de médio calibre, que se manifesta com nódulos subcutâneos, mas frequentemente associados a livedo reticular, ulcerações e infartos cutâneos. No eritema nodoso, as lesões são nódulos eritematosos sem livedo, sem ulceração, e a histologia mostra paniculite septal, não vasculite necrosante. A localização pré-tibial bilateral e o antecedente de faringite favorecem eritema nodoso.
Alternativa C — ❌ Incorreta
O linfoma cutâneo de células B pode manifestar-se como nódulos subcutâneos, mas geralmente são lesões mais persistentes, indolores, e não há o padrão agudo com febre, artralgia e faringite prévia. A elevação de marcadores inflamatórios é inespecífica e não sugere processo linfoproliferativo. O quadro clínico agudo e autolimitado, com nódulos dolorosos pré-tibiais, é muito mais compatível com eritema nodoso.
Alternativa D — ❌ Incorreta
O eritema indurado de Bazin é uma paniculite lobular associada à tuberculose, que se manifesta com nódulos eritematosos na face posterior das pernas (região posterior da panturrilha), com tendência à ulceração e drenagem. No eritema nodoso, as lesões são na face anterior das pernas (pré-tibial), não ulceram e a histologia mostra paniculite septal, não lobular. A radiografia de tórax normal e a ausência de outros sinais de tuberculose também afastam essa hipótese.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa descreve com precisão o eritema nodoso de etiologia estreptocócica: paniculite septal sem vasculite, nódulos eritematosos dolorosos bilaterais em regiões pré-tibiais, precedidos por faringite. A paciente apresenta todos os elementos: faringite há duas semanas, nódulos pré-tibiais dolorosos, artralgia, febre e marcadores inflamatórios elevados. A radiografia de tórax normal afasta sarcoidose e tuberculose, reforçando a etiologia estreptocócica.
NÃO CAIA NESSA!
A banca tenta confundir o candidato com outras causas de nódulos subcutâneos, como vasculites (alternativas A e B) e paniculites lobulares (alternativa D). O erro mais comum é associar os nódulos dolorosos a uma vasculite, mas o eritema nodoso é uma paniculite septal, sem vasculite. Lembre-se: nódulos pré-tibiais bilaterais, dolorosos, sem ulceração, após faringite = eritema nodoso estreptocócico.
PEGA ESSA DICA!
Para diferenciar eritema nodoso de outras paniculites, foque na localização (pré-tibial vs. posterior da perna), na presença de ulceração (eritema nodoso não ulcera) e no tipo de paniculite (septal vs. lobular). Na prova, a história de faringite prévia é a chave para a etiologia estreptocócica.