Residência Médica - Clinica Médica (Cardiologia, Endocrinologia e Metabologia, Hematologia e Hemoterapia, Nefrologia, Oncologia Clínica, Reumatologia, Medicina Paliativa)
Paciente do sexo feminino, 28 anos, procura atendimento referindo epistaxes recorrentes desde a infância, com duração superior a 15 minutos, equimoses frequentes sem trauma significativo e menorragia desde a menarca. Relata ainda sangramento prolongado após extração dentária há 2 anos, necessitando retorno ao consultório odontológico. Nega uso de medicações anticoagulantes ou antiplaquetárias. Mãe com história semelhante de sangramentos.Ao exame físico, apresenta equimoses em membros inferiores. Hemograma: hemoglobina 10,8 g/dL, VCM 72 fL, leucócitos 7.200/mm³, plaquetas 198.000/mm³. Coagulograma: TP 12 segundos (RNI 1,0), TTPa 38 segundos (controle 28 segundos). Ferritina: 8 ng/mL.A propedêutica laboratorial para investigação diagnóstica inclui a dosagem de
Afator VIII, dosagem do antígeno do fator de von Willebrand e atividade do cofator de ristocetina.
Bfator IX, fator XI e tempo de trombina para exclusão de coagulopatias hereditárias.
Canticoagulante lúpico, anticorpos anticardiolipina e anti-beta2-glicoproteína I.
Dagregação plaquetária com ADP e colágeno, tempo de sangramento e retração do coágulo.
Eproteína C, proteína S e antitrombina III para investigação de trombofilias hereditárias.
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GabaritoA — fator VIII, dosagem do antígeno do fator de von Willebrand e atividade do cofator de ristocetina.
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Doença de von Willebrand: investigação diagnóstica
Gabarito: letra A. O quadro clínico — epistaxes recorrentes desde a infância, equimoses frequentes, menorragia desde a menarca, sangramento prolongado após extração dentária e história familiar materna — associado a TTPa discretamente prolongado (38s vs controle 28s) e plaquetas normais, é altamente sugestivo de doença de von Willebrand (DvW), o distúrbio hemorrágico hereditário mais comum. A confirmação diagnóstica exige a dosagem do antígeno do fator de von Willebrand (vWF:Ag), da atividade do cofator de ristocetina (vWF:RCo) e do fator VIII (FVIII), exatamente o que a alternativa A propõe.
A doença de von Willebrand é causada por deficiência quantitativa ou qualitativa do fator de von Willebrand, uma proteína multimérica que desempenha duas funções essenciais na hemostasia: (1) mediar a adesão plaquetária ao subendotélio vascular, ligando-se ao colágeno e à glicoproteína Ib/IX/V plaquetária — função avaliada pela atividade do cofator de ristocetina; e (2) servir como proteína carreadora e estabilizadora do fator VIII no plasma, protegendo-o da degradação proteolítica — por isso, níveis reduzidos de vWF frequentemente cursam com níveis também reduzidos de FVIII. Essa dupla função explica por que a DvW se manifesta com um padrão misto de sangramento: mucocutâneo (epistaxe, menorragia, equimoses), típico de distúrbios da hemostasia primária (plaquetária), e, nos casos mais graves, também profundo (hemartrose, hematoma muscular), típico de deficiência de fatores da coagulação.
O diagnóstico laboratorial da DvW é desafiador e baseia-se em um painel de testes que avaliam os diferentes aspectos da molécula. O antígeno do fator de von Willebrand (vWF:Ag) mede a quantidade total da proteína, independentemente de sua função. A atividade do cofator de ristocetina (vWF:RCo) avalia a capacidade funcional do vWF de se ligar às plaquetas, utilizando o antibiótico ristocetina que induz a aglutinação plaquetária dependente de vWF. O fator VIII (FVIII) é dosado porque, como mencionado, o vWF o estabiliza no plasma; sua deficiência secundária contribui para o fenótipo hemorrágico. A combinação desses três testes permite classificar a DvW em seus subtipos (1, 2A, 2B, 2M, 2N e 3), o que é fundamental para orientar o tratamento (DDAVP vs. reposição de concentrado de vWF/FVIII).
A interpretação dos exames iniciais é crucial. O hemograma mostra anemia microcítica (Hb 10,8 g/dL, VCM 72 fL) com ferritina baixa (8 ng/mL), indicando anemia ferropriva por perda crônica de sangue — consequência direta da menorragia e das epistaxes recorrentes. As plaquetas estão normais (198.000/mm³), afastando trombocitopenia como causa do sangramento. O TP está normal (RNI 1,0), excluindo defeitos na via extrínseca/comum. O TTPa está discretamente prolongado (38s vs controle 28s), o que é um achado clássico na DvW, pois a deficiência de vWF leva a uma redução secundária do FVIII, que participa da via intrínseca. Esse padrão — TTPa prolongado com TP normal e plaquetas normais — direciona a investigação para defeitos na via intrínseca, incluindo hemofilia A (deficiência de FVIII), hemofilia B (deficiência de FIX) e, principalmente, doença de von Willebrand, que é a mais prevalente e a que melhor se encaixa no quadro clínico apresentado (sangramento mucocutâneo, história familiar autossômica dominante, sexo feminino).
A banca explora a confusão entre os diferentes distúrbios hemorrágicos. A chave para diferenciá-los está no padrão de sangramento e na história familiar. A DvW é autossômica dominante (na maioria dos casos), afeta ambos os sexos e cursa com sangramento mucocutâneo. As hemofilias A e B são ligadas ao X, afetam predominantemente homens e cursam com hemartroses e hematomas profundos. As plaquetopatias cursam com sangramento mucocutâneo, mas geralmente com TTPa normal. As trombofilias (deficiência de proteína C, S, antitrombina) manifestam-se com trombose, não sangramento. A síndrome antifosfolípide manifesta-se com trombose e abortos de repetição, não com sangramento mucocutâneo. É exatamente essa distinção que separa as alternativas.
Doença de von Willebrand
1Fisiopatologia
Deficiência do fator de von Willebrand
Adesão plaquetária prejudicada
Redução secundária do FVIII
2Quadro clínico
Sangramento mucocutâneo
Epistaxe
Equimoses
Menorragia
Sangramento pós-procedimento
3Diagnóstico
vWF:Ag (quantidade)
vWF:RCo (função)
Fator VIII
4Padrão laboratorial
TTPa prolongado
TP normal
Plaquetas normais
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Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa A está correta porque a dosagem de fator VIII, antígeno do fator de von Willebrand (vWF:Ag) e atividade do cofator de ristocetina (vWF:RCo) constitui o painel diagnóstico inicial da doença de von Willebrand. O quadro clínico da paciente — epistaxe recorrente desde a infância, equimoses frequentes, menorragia desde a menarca, sangramento prolongado após extração dentária e história familiar materna — é o protótipo da DvW. O TTPa discretamente prolongado com TP normal e plaquetas normais reforça a suspeita, pois a deficiência de vWF leva à redução secundária do FVIII, que prolonga a via intrínseca. A dosagem desses três parâmetros permite confirmar o diagnóstico e classificar o subtipo, orientando a conduta terapêutica.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A alternativa B está incorreta porque a dosagem de fator IX, fator XI e tempo de trombina não é a propedêutica inicial adequada para este caso. O fator IX é deficiente na hemofilia B, doença ligada ao X que afeta predominantemente homens e cursa com hemartroses e hematomas profundos — não é o quadro da paciente. O fator XI é deficiente na hemofilia C, distúrbio autossômico raro e geralmente mais leve. O tempo de trombina avalia a conversão de fibrinogênio em fibrina e é útil na investigação de disfibrinogenemia ou hipofibrinogenemia, que não são sugeridas pelo quadro. Embora o TTPa prolongado possa ocorrer em deficiências de FIX e FXI, a história clínica de sangramento mucocutâneo com história familiar materna aponta fortemente para DvW, não para hemofilias.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A alternativa C está incorreta porque a dosagem de anticoagulante lúpico, anticorpos anticardiolipina e anti-beta2-glicoproteína I investiga a síndrome antifosfolípide (SAF), que se manifesta com trombose venosa ou arterial e perdas gestacionais recorrentes, não com sangramento mucocutâneo. A paciente apresenta epistaxe, equimoses e menorragia, que são manifestações hemorrágicas, não trombóticas. Além disso, o anticoagulante lúpico, quando presente, geralmente prolonga o TTPa, mas não causa sangramento clinicamente significativo; pelo contrário, está associado a estado de hipercoagulabilidade. Portanto, essa investigação não se aplica ao caso.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A alternativa D está incorreta porque a agregação plaquetária com ADP e colágeno, tempo de sangramento e retração do coágulo são testes que avaliam a função plaquetária, sendo indicados na suspeita de plaquetopatias (distúrbios qualitativos das plaquetas). Embora a paciente apresente sangramento mucocutâneo, que também ocorre em plaquetopatias, o TTPa prolongado é um achado que não se explica por disfunção plaquetária isolada — plaquetopatias cursam com TTPa normal. Além disso, o tempo de sangramento é um teste pouco sensível, inespecífico e raramente utilizado na prática clínica moderna. A história familiar materna e o padrão de sangramento (incluindo o prolongamento do TTPa) apontam mais fortemente para DvW, que também cursa com disfunção plaquetária secundária, mas cujo diagnóstico é feito pelos testes da alternativa A.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A alternativa E está incorreta porque a dosagem de proteína C, proteína S e antitrombina III investiga trombofilias hereditárias, que se manifestam com eventos trombóticos (trombose venosa profunda, embolia pulmonar), não com sangramento. A paciente apresenta um quadro hemorrágico franco — epistaxe, equimoses, menorragia, sangramento pós-extração dentária — que é incompatível com um estado de hipercoagulabilidade. A investigação de trombofilia seria indicada em um paciente com trombose recorrente, especialmente em idade jovem, com história familiar de trombose, o que não é o caso.