Hepatite viral aguda: diagnóstico e exames complementares
Gabarito: letra A. O quadro clínico — icterícia, colúria, fadiga, náuseas, febre baixa e mialgias precedentes, com elevação acentuada de transaminases (AST 1.250, ALT 1.480) e bilirrubina predominantemente direta — é altamente sugestivo de hepatite viral aguda, sendo as sorologias para hepatites A, B e C os exames complementares mais indicados para confirmar a hipótese. O diagnóstico das hepatites virais agudas é feito pela detecção de anticorpos específicos (sorologia) ou de ácidos nucleicos virais, conforme a literatura médica.
A hepatite viral aguda é uma inflamação do fígado causada pelos vírus hepatotrópicos (A, B, C, D e E), que se manifesta com um espectro clínico que vai desde formas assintomáticas até quadros graves de insuficiência hepática aguda. No paciente sintomático, o quadro típico evolui em fases: um período prodrômico anictérico, com sintomas inespecíficos como fadiga, náuseas, anorexia, febre baixa e mialgias; seguido pela fase ictérica, com colúria, icterícia e, por vezes, acolia fecal. Ao exame físico, é comum a hepatomegalia dolorosa, como no caso descrito (fígado palpável a 3 cm do rebordo costal).
Laboratorialmente, o padrão é de necrose hepatocelular: elevação marcante das aminotransferases (ALT e AST), frequentemente acima de 10 vezes o valor de referência, com ALT geralmente maior que AST. A bilirrubina eleva-se, com predomínio da fração direta (conjugada), refletindo o comprometimento da excreção biliar. A fosfatase alcalina e a GGT podem estar discretamente elevadas, mas sem o predomínio colestático típico de obstrução biliar. No caso, os valores de transaminases (AST 1.250, ALT 1.480) e a bilirrubina direta de 4,5 mg/dL confirmam o padrão hepatocelular, afastando as hipóteses colestáticas/obstrutivas.
O diagnóstico etiológico é feito por sorologia (IgM anti-HAV, HBsAg e anti-HBc IgM, anti-HCV) ou por métodos moleculares (detecção de RNA/DNA viral). A solicitação das sorologias para hepatites A, B e C é o passo inicial e mais indicado na investigação de uma hepatite aguda, conforme recomendado na abordagem do paciente ictérico. Outras causas, como hepatite autoimune, doença de Wilson, hemocromatose ou hepatite medicamentosa, devem ser consideradas no diagnóstico diferencial, mas a apresentação clínico-laboratorial típica de hepatite viral aguda torna as sorologias virais a prioridade.
A pegadinha central desta questão está em não se deixar levar pelo uso recente de amoxicilina-clavulanato (alternativa C) ou por outras hipóteses menos prováveis (autoimune, hemocromatose, colangite). Embora a hepatite medicamentosa seja um diagnóstico diferencial importante, o padrão de transaminases muito elevadas (> 10x), a presença de pródromos virais (febre, mialgias) e a ausência de sinais de colestase ou de doença crônica apontam fortemente para hepatite viral aguda. A banca explora a confusão entre o quadro clássico de hepatite viral e outras etiologias de icterícia.
Guarde o critério decisivo: padrão hepatocelular agudo (transaminases > 10x, bilirrubina direta elevada) + pródromos virais = hepatite viral aguda → sorologias virais. É exatamente esse raciocínio que separa a alternativa correta das demais.
Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa está correta porque o quadro clínico e laboratorial é clássico de hepatite viral aguda: icterícia, colúria, fadiga, náuseas, febre baixa e mialgias na semana anterior, com elevação acentuada de transaminases (AST 1.250, ALT 1.480) e bilirrubina predominantemente direta. As sorologias para hepatites A, B e C (IgM anti-HAV, HBsAg/anti-HBc IgM, anti-HCV) são os exames complementares de primeira linha para confirmar a etiologia viral, conforme a abordagem diagnóstica do paciente ictérico.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A alternativa erra ao sugerir hemoculturas e colangiografia endoscópica para colangite bacteriana aguda. A colangite se manifesta com a tríade de Charcot (febre com calafrios, dor abdominal no hipocôndrio direito e icterícia), frequentemente com leucocitose e predomínio de colestase (FA e GGT muito elevadas). No caso, não há dor abdominal importante, a febre foi baixa e sem calafrios, e o padrão é de necrose hepatocelular (transaminases > 10x), não colestático. A colangiografia endoscópica é um exame invasivo, indicado para obstrução biliar, não para hepatite viral aguda.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A alternativa propõe biópsia hepática para avaliar colestase intra-hepática induzida por amoxicilina-clavulanato. Embora a amoxicilina-clavulanato seja uma causa conhecida de hepatite medicamentosa (padrão colestático ou misto), o quadro apresentado é muito mais sugestivo de hepatite viral aguda: transaminases extremamente elevadas (> 10x), pródromos virais (febre, mialgias) e ausência de predomínio colestático. A biópsia hepática não é o exame inicial para confirmar hepatite viral aguda; as sorologias virais são o passo diagnóstico prioritário. A hepatite medicamentosa seria considerada após exclusão das causas virais.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A alternativa sugere dosagem de IgG e autoanticorpos (FAN, anti-LKM, anti-músculo liso) para hepatite autoimune. A hepatite autoimune é mais comum em mulheres jovens, frequentemente com hipergamaglobulinemia, e pode cursar com transaminases elevadas. No entanto, o quadro agudo com pródromos virais (febre, mialgias) e a ausência de outros sinais de autoimunidade tornam a hepatite viral aguda a hipótese principal. Os autoanticorpos são exames de segunda linha, solicitados quando a sorologia viral é negativa e a suspeita de hepatite autoimune persiste.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A alternativa propõe dosagem de ferro sérico, ferritina e saturação de transferrina para hemocromatose hereditária. A hemocromatose é uma doença de depósito de ferro que se manifesta cronicamente, geralmente em homens acima de 40-50 anos, com cirrose, diabetes, cardiopatia e hiperpigmentação. O quadro agudo de hepatite com transaminases > 10x e pródromos virais não é compatível com hemocromatose em fase inicial. A dosagem de ferro e ferritina é um exame de rastreamento para doenças crônicas, não para hepatite aguda.
Gabarito: letra A — sorologias para hepatites A, B e C, pois o quadro clínico e o padrão laboratorial sugerem hepatite viral aguda.