Questão de Medicina — Doenças Reumatológicas e do Sistema Imunológico — FGV 2025
Medicina›Doenças Reumatológicas e do Sistema Imunológico
Código
fg114288
Banca
FGV
Órgão
HUEM
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Residência Médica - Clinica Médica (Cardiologia, Endocrinologia e Metabologia, Hematologia e Hemoterapia, Nefrologia, Oncologia Clínica, Reumatologia, Medicina Paliativa)
Paciente feminina, 45 anos, procura a clínica de reumatologia com queixa de fadiga crônica, mialgias difusas, artralgias persistentes em joelhos e mãos, transtornos neuropsiquiátricos e febre baixa intermitente há oito meses.A investigação laboratorial revela elevação da proteína c reativa, velocidade de hemossedimentação e fator antinuclear (FAN) positivo (padrão pontilhado fino, título1/320), sem preencher critérios diagnósticos para doença autoimune clássica (como lúpus ou artrite reumatoide).A paciente relata que se submeteu, há um ano, a um procedimento estético injetável para preenchimento glúteo com “substância modeladora” de origem não especificada. A biópsia do local da injeção mostrou inflamação granulomatosa crônica com histiócitos espumosos e material oleoso livre.O residente de reumatologia dá a seguinte interpretação correta a respeito do diagnóstico mais provável e da conduta de tratamento inicial:
Asíndrome de fadiga crônica, cujo tratamento principal é a terapia cognitivo-comportamental e exercícios graduais, uma vez que a positividade isolada do é inespecífica.
Bdoença reumática indiferenciada, que exige observação rigorosa e iniciação de hidroxicloroquina caso o quadro sistêmico se agrave ou evolua para uma doença bem definida.
Csíndrome de autoimunidade/auto-inflamação induzida por adjuvantes (ASIA), sendo o tratamento ideal a remoção cirúrgica do material injetável (se factível) combinada com imunossupressão para o controle dos sintomas sistêmicos.
Dreação de corpo estranho benigna (parafinoma), que é uma complicação puramente local do material injetável, devendo ser tratada apenas com excisão cirúrgica e corticoides injetáveis no local da lesão.
Efibromialgia, que é uma síndrome de dor crônica de origem central, e o tratamento consiste no uso de duloxetina ou pregabalina.
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GabaritoC — síndrome de autoimunidade/auto-inflamação induzida por adjuvantes (ASIA), sendo o tratamento ideal a remoção cirúrgica do material injetável (se factível) combinada com imunossupressão para o controle dos sintomas sistêmicos.
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Síndrome de autoimunidade/auto-inflamação induzida por adjuvantes (ASIA)
Gabarito: letra C. O quadro clínico — fadiga crônica, mialgias, artralgias, transtornos neuropsiquiátricos, febre baixa, FAN positivo em padrão pontilhado fino e biópsia com inflamação granulomatosa e material oleoso — associado ao histórico de preenchimento glúteo com substância modeladora não especificada configura a síndrome de autoimunidade/auto-inflamação induzida por adjuvantes (ASIA), também conhecida como síndrome de Shoenfeld. O tratamento ideal envolve a remoção cirúrgica do material injetável (quando factível) combinada com imunossupressão para controle dos sintomas sistêmicos.
A ASIA é uma síndrome descrita por Shoenfeld e Agmon-Levin em 2011, que engloba um espectro de condições autoimunes desencadeadas pela exposição a adjuvantes — substâncias que potencializam a resposta imune. Os adjuvantes podem ser encontrados em vacinas, implantes de silicone, e, como no caso, em substâncias modeladoras injetáveis utilizadas em procedimentos estéticos. A patogênese envolve uma resposta imune exacerbada ao adjuvante, que pode levar à quebra de tolerância imunológica e ao desenvolvimento de autoimunidade em indivíduos geneticamente suscetíveis.
Os critérios diagnósticos da ASIA incluem a exposição prévia a um adjuvante (como o preenchimento injetável), o desenvolvimento de manifestações clínicas típicas (fadiga crônica, mialgias, artralgias, febre, sintomas neurológicos, manifestações cutâneas) e a presença de autoanticorpos (como FAN positivo), sem que o paciente preencha critérios para uma doença autoimune clássica. A biópsia do local da injeção, mostrando inflamação granulomatosa com histiócitos espumosos e material oleoso livre, é um achado característico da reação ao adjuvante.
O tratamento da ASIA é desafiador e baseia-se em duas frentes principais: a remoção do agente causador (quando possível, como a excisão cirúrgica do material injetável) e a imunossupressão para controlar a resposta inflamatória sistêmica. Corticosteroides, hidroxicloroquina, metotrexato e outros imunossupressores podem ser utilizados, dependendo da gravidade e das manifestações clínicas. A remoção cirúrgica do material é considerada a medida mais eficaz, pois elimina o estímulo antigênico contínuo.
A distinção entre ASIA e outras condições é crucial. A fibromialgia é uma síndrome de dor crônica de origem central, sem componente inflamatório sistêmico evidente, e o FAN geralmente é negativo. A doença reumática indiferenciada é um diagnóstico de exclusão, quando o paciente apresenta sintomas e autoanticorpos sugestivos de doença autoimune, mas não preenche critérios para uma doença específica; no entanto, a presença do adjuvante e da biópsia característica aponta fortemente para ASIA. A reação de corpo estranho benigna (parafinoma) é uma complicação local, mas a paciente apresenta sintomas sistêmicos e autoanticorpos, indicando envolvimento sistêmico. A síndrome de fadiga crônica é um diagnóstico de exclusão, sem marcadores inflamatórios ou autoimunes.
A pegadinha da banca está em confundir a ASIA com outras condições que apresentam sintomas semelhantes, mas que não explicam o quadro completo. A chave para o diagnóstico é a associação temporal entre a exposição ao adjuvante e o desenvolvimento dos sintomas sistêmicos, juntamente com os achados laboratoriais e histopatológicos.
ASIA (Síndrome de Shoenfeld): Definição (Autoimunidade induzida por adjuvantes, Espectro de condições autoimunes); Critérios diagnósticos (Exposição prévia a adjuvante, Manifestações clínicas típicas, Autoanticorpos (FAN+), Exclusão de doença clássica); Adjuvantes (Vacinas, Implantes de silicone, Preenchimentos injetáveis); Tratamento (Remoção cirúrgica do material, Imunossupressão)
Alternativa A — ❌ Incorreta
A síndrome de fadiga crônica é um diagnóstico de exclusão, caracterizado por fadiga persistente por mais de 6 meses, sem causa médica identificável. Embora a paciente apresente fadiga, ela também tem artralgias, febre, FAN positivo e um histórico claro de exposição a adjuvante, o que torna a ASIA um diagnóstico mais provável. O tratamento com terapia cognitivo-comportamental e exercícios graduais é indicado para a síndrome de fadiga crônica, mas não aborda a causa subjacente no caso.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A doença reumática indiferenciada é um diagnóstico de exclusão, quando o paciente tem sintomas e autoanticorpos sugestivos de doença autoimune, mas não preenche critérios para uma doença específica. No entanto, a presença do adjuvante (preenchimento injetável) e a biópsia característica apontam para a ASIA como diagnóstico mais específico. A conduta de observação rigorosa e hidroxicloroquina pode ser considerada, mas a remoção do agente causador é fundamental na ASIA.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A paciente apresenta todos os elementos para o diagnóstico de ASIA: exposição a adjuvante (preenchimento injetável), sintomas sistêmicos (fadiga, mialgias, artralgias, febre, sintomas neuropsiquiátricos), FAN positivo e biópsia com inflamação granulomatosa e material oleoso. O tratamento ideal é a remoção cirúrgica do material injetável (quando factível) combinada com imunossupressão para controlar a resposta inflamatória sistêmica. Essa abordagem visa eliminar o estímulo antigênico e modular a resposta imune.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A reação de corpo estranho benigna (parafinoma) é uma complicação local do material injetável, caracterizada por inflamação granulomatosa no local da injeção. No entanto, a paciente apresenta sintomas sistêmicos (fadiga, artralgias, febre) e autoanticorpos (FAN positivo), indicando envolvimento sistêmico, o que não é explicado por uma reação puramente local. O tratamento com excisão cirúrgica e corticoides locais não aborda a manifestação sistêmica.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A fibromialgia é uma síndrome de dor crônica de origem central, caracterizada por dor musculoesquelética difusa, fadiga, distúrbios do sono e alterações de humor, sem evidência de inflamação sistêmica ou autoimunidade. A paciente apresenta FAN positivo, febre e biópsia com inflamação granulomatosa, o que não é compatível com fibromialgia. O tratamento com duloxetina ou pregabalina é direcionado para a dor neuropática e a fibromialgia, mas não trata a causa subjacente no caso.