Questão de Medicina — Clínica Médica Humana — FGV 2025
Medicina›Clínica Médica Humana
Código
fg114290
Banca
FGV
Órgão
HUEM
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Residência Médica - Clinica Médica (Cardiologia, Endocrinologia e Metabologia, Hematologia e Hemoterapia, Nefrologia, Oncologia Clínica, Reumatologia, Medicina Paliativa)
Paciente masculino, 72 anos, comparece à consulta com queixa de fraqueza, cansaço progressivo e dispneia leve aos esforços há vários meses. Nega sangramentos evidentes, mas relata perda de peso não intencional nos últimos seis meses. O hemograma revela anemia microcítica e hipocrômica (hemoglobina 8,0 g/dL; VCM 70 fL; HCM 20 pg).Valores de Referência Laboratorial:• ferritina sérica: 20 a 250 ng/mL;• ferro sérico: 60 a 170 microg/dL;• capacidade total de ligação do ferro (tibc): 250 a 450 microg/dL;• índice de saturação de transferrina (ist): 20 a 50%;• contagem de reticulócitos: 0,5 a 2,0%.O residente de clínica médica, ciente dos principais exames solicitados, fez a seguinte interpretação correta para o quadro descrito:
Areticulócitos 1,0%; ferritina 8 ng/mL; ferro sérico 30 μg/dL; tibc 500 μg/dL; índice de saturação de transferrina 6%.
Breticulócitos 5,5%; ferritina 300 ng/mL; ferro sérico 150 μg/dL; tibc 350 μg/dL; índice de saturação de transferrina 43%.
Creticulócitos 0,2%; ferritina 180 ng/mL; ferro sérico 40 microg/dL; tibc 200 μg/dL; índice de saturação de transferrina 20%.
Dreticulócitos 2,5%; ferritina 200 ng/mL; ferro sérico 80 μg/dL; tibc 300 μg/dL; índice de saturação de transferrina 27%.
Ereticulócitos 0,5%; ferritina 40 ng/mL; ferro sérico 100 μg/dL; tibc 450 μg/dL; índice de saturação de transferrina 22%.
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GabaritoA — reticulócitos 1,0%; ferritina 8 ng/mL; ferro sérico 30 μg/dL; tibc 500 μg/dL; índice de saturação de transferrina 6%.
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Anemia microcítica e hipocrômica: diagnóstico laboratorial da deficiência de ferro
Gabarito: letra A. O quadro clínico (idoso, perda de peso, anemia microcítica e hipocrômica) é clássico de anemia ferropriva, e a alternativa A é a única que apresenta o padrão laboratorial típico dessa condição: ferritina baixa, ferro sérico baixo, TIBC elevada e saturação de transferrina muito reduzida, com reticulócitos normais (resposta medular inadequada). Esse é o perfil de deficiência de ferro em estágio avançado, que se confirma pela combinação dos quatro parâmetros do ferro, não por um único valor isolado.
A anemia ferropriva é a causa mais comum de anemia microcítica e hipocrômica no mundo. Ela se desenvolve em três estágios progressivos: (1) depleção de ferro — os estoques caem, mas o hemograma ainda é normal; (2) deficiência de ferro sem anemia — o ferro sérico diminui, a transferrina (proteína transportadora) aumenta e a saturação cai; (3) anemia ferropriva propriamente dita — o hemograma já mostra microcitose (VCM baixo) e hipocromia (HCM baixo). No paciente idoso, a perda de peso não intencional associada à anemia ferropriva é um sinal de alerta para sangramento oculto do trato gastrointestinal, como neoplasia — a investigação da causa-base é tão importante quanto o diagnóstico da anemia.
O raciocínio laboratorial se baseia em quatro exames que se complementam:
Ferritina sérica: reflete os estoques de ferro. Na deficiência, está baixa (tipicamente < 15 ng/mL). É o exame mais sensível e específico para ferropriva, na ausência de inflamação.
Ferro sérico: está baixo na deficiência.
TIBC (capacidade total de ligação do ferro): está aumentada — o organismo tenta captar mais ferro, produzindo mais transferrina.
Saturação de transferrina (IST): calculada como (ferro sérico ÷ TIBC) × 100. Na ferropriva, fica muito baixa, geralmente < 15%.
A contagem de reticulócitos ajuda a diferenciar se a medula está respondendo à anemia. Na ferropriva, a resposta medular é inadequada — os reticulócitos costumam estar normais ou baixos, pois falta o substrato (ferro) para a eritropoiese. Um valor elevado de reticulócitos indicaria anemia hemolítica ou pós-hemorrágica recente, não ferropriva.
A pegadinha central desta questão é que a banca mistura padrões laboratoriais de diferentes tipos de anemia em cada alternativa. O candidato que decora apenas "ferritina baixa" pode errar, pois é a combinação de todos os parâmetros que define o diagnóstico. Vamos analisar cada alternativa com esse critério.
Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Apresenta o padrão completo da anemia ferropriva: reticulócitos normais (1,0%), ferritina baixa (8 ng/mL), ferro sérico baixo (30 μg/dL), TIBC elevada (500 μg/dL) e saturação de transferrina muito baixa (6%). Todos os parâmetros apontam na mesma direção: deficiência de ferro com resposta medular inadequada. É exatamente o esperado para o quadro clínico descrito.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Apresenta reticulócitos elevados (5,5%) e ferritina elevada (300 ng/mL), com ferro sérico e saturação normais. Esse padrão é incompatível com ferropriva — ferritina alta indica estoques de ferro normais ou aumentados, e reticulocitose sugere resposta medular ativa (hemólise ou sangramento recente). É o oposto do esperado.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Traz ferritina normal (180 ng/mL) e TIBC baixa (200 μg/dL), com ferro sérico baixo (40 μg/dL). Ferritina normal praticamente exclui deficiência de ferro isolada. O padrão de ferritina normal/alta com ferro sérico baixo e TIBC baixa é típico de anemia de doença crônica (inflamação), não de ferropriva. A saturação de 20% está no limite inferior, mas não configura o padrão clássico.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Apresenta reticulócitos elevados (2,5%) e ferritina normal (200 ng/mL), com ferro sérico e saturação normais. Não há nenhum parâmetro indicando deficiência de ferro — ferritina normal e ferro sérico normal afastam o diagnóstico. A reticulocitose leve poderia sugerir resposta medular, mas não se encaixa no quadro de anemia microcítica hipocrômica por deficiência de ferro.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Traz ferritina normal (40 ng/mL) e ferro sérico normal (100 μg/dL), com TIBC no limite superior (450 μg/dL) e saturação normal (22%). Ferritina normal e ferro sérico normal excluem deficiência de ferro. A TIBC elevada isolada, sem ferro sérico baixo, não configura o diagnóstico. Esse padrão é inespecífico e não explica a anemia microcítica.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre anemia ferropriva e anemia de doença crônica. Na ferropriva, a ferritina está baixa e a TIBC alta; na doença crônica, a ferritina está normal ou alta e a TIBC baixa. As alternativas C e E misturam esses padrões — ferritina normal com ferro sérico baixo (C) ou tudo normal (E). O candidato que olha apenas um parâmetro cai na armadilha; o diagnóstico exige a combinação de todos.
PEGA ESSA DICA!
Para questões de anemia, monte mentalmente a tabela dos padrões laboratoriais e compare:
Parâmetro
Ferropriva
Doença crônica
Talassemia
Ferritina
↓
N/↑
N
Ferro sérico
↓
↓
N
TIBC
↑
↓
N
Saturação
↓↓
↓
N
Reticulócitos
N/↓
N/↓
N/↑
Na prova, identifique primeiro o padrão do hemograma (microcítica, macrocítica, normocítica) e depois cruze com os parâmetros do ferro. A combinação é o que decide.