Questão de Medicina — Farmacologia e Anestesiologia — FGV 2025
Medicina›Farmacologia e Anestesiologia
Código
fg114298
Banca
FGV
Órgão
HUEM
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Residência Médica - Clinica Médica (Cardiologia, Endocrinologia e Metabologia, Hematologia e Hemoterapia, Nefrologia, Oncologia Clínica, Reumatologia, Medicina Paliativa)
Paciente de 68 anos, com câncer de pulmão avançado e metástases ósseas, utiliza morfina oral de liberação controlada há 6 meses para dor crônica, com dose atual de 200 mg/dia. Nas últimas duas semanas, a dor (EVA 9/10) se intensificou, mas o paciente a descreve agora como "queimante" e "espalhada" para além da área das metástases. Além disso, ele relata hipersensibilidade ao toque na pele (alodínia). O aumento da dose de resgate de morfina não alivia, e em alguns momentos, parece piorar o quadro. O paciente está hemodinamicamente estável e a investigação por imagem não detectou nova progressão da doença que justifique a nova dor.Diante deste quadro clínico, a conduta terapêutica mais apropriada seria
Aaumentar a dose basal de morfina em 50% e aumentar a dose de resgate, pois o quadro é compatível com tolerância à opioide, necessitando apenas de maior dose para manter o efeito analgésico.
Bassociar um anti-inflamatório não esteroide e um corticoide para tratar o componente inflamatório da dor óssea, o que permitirá a redução gradual da dose de morfina.
Crealizar a rotação de opioide para metadona ou introduzir um outro analgésico, como gabapentina, visando reduzir a dose total de opioide e reverter a sensibilização central.
Dconsiderar a dor como psicogênica, suspender a morfina por risco de dependência e iniciar o tratamento com antidepressivos tricíclicos e ansiolíticos, reservando os opioides para o tratamento da dor aguda.
Esubstituir a morfina por um opioide de potência mais baixa, como codeína ou tramadol, para "reiniciar" os receptores opioides, retornando à morfina em dose menor após 7 dias.
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GabaritoC — realizar a rotação de opioide para metadona ou introduzir um outro analgésico, como gabapentina, visando reduzir a dose total de opioide e reverter a sensibilização central.
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Rotação de opioides e dor neuropática no câncer avançado
Gabarito: letra C. O quadro descrito — dor com características neuropáticas (queimante, alodínia), refratária ao aumento de morfina e até piorando com ela — é compatível com hiperalgesia induzida por opioides ou sensibilização central, e a conduta correta é a rotação de opioide (ex.: metadona) associada a coadjuvantes como gabapentina, reduzindo a dose total de opioide. A alternativa A erra ao tratar como tolerância simples; a B, ao focar só no componente inflamatório; a D, ao rotular como psicogênica; e a E, ao reduzir a potência do opioide, o que é contraindicado.
A dor oncológica é classificada em três grandes tipos: nociceptiva (somática ou visceral, por ativação de nociceptores), neuropática (por lesão ou disfunção do sistema nervoso, com características de queimação, choque, formigamento e alodínia) e mista. O paciente em questão apresenta uma dor que mudou de caráter: antes era provavelmente nociceptiva (relacionada às metástases ósseas), e agora é descrita como "queimante", "espalhada" e com alodínia (dor ao toque não doloroso) — sinais clássicos de componente neuropático. A ausência de nova progressão tumoral na imagem reforça que a piora não é por crescimento da doença, mas por um fenômeno de sensibilização central ou hiperalgesia induzida por opioides.
A hiperalgesia induzida por opioides (HIO) é um fenômeno paradoxal em que o uso crônico de opioides aumenta a sensibilidade à dor, em vez de apenas aliviá-la. O paciente pode apresentar piora da dor com o aumento da dose, dor difusa e alodínia — exatamente o que o enunciado descreve. Nesse cenário, a conduta não é aumentar a dose (alternativa A), mas sim reduzir a dose do opioide atual e realizar rotação para outro opioide, além de adicionar coadjuvantes que atuem em mecanismos diferentes, como os anticonvulsivantes (gabapentina, pregabalina) para o componente neuropático. A rotação de opioides é uma estratégia consagrada: troca-se o opioide atual por outro, geralmente com dose equipotente 30% menor, devido à tolerância cruzada incompleta, o que permite recuperar a analgesia e reduzir efeitos adversos.
A metadona é um opioide frequentemente utilizado na rotação, especialmente em dores refratárias, por seu mecanismo adicional de bloqueio do receptor NMDA, que está implicado na sensibilização central e na HIO. Por isso, a alternativa C está correta ao sugerir "rotação de opioide para metadona ou introduzir um outro analgésico, como gabapentina, visando reduzir a dose total de opioide e reverter a sensibilização central". A alternativa B, embora mencione AINE e corticoide para dor óssea, não aborda o componente neuropático nem a necessidade de rotação — é uma medida adjuvante, não a conduta principal. A alternativa D é um erro grave: dor em paciente oncológico nunca deve ser presumida como psicogênica sem investigação, e suspender opioide por "risco de dependência" é conduta inadequada. A alternativa E é absurda: trocar morfina (opioide forte) por codeína ou tramadol (opioides fracos) para "reiniciar receptores" não tem fundamento e levaria a piora da dor.
A pegadinha central desta questão é distinguir tolerância de hiperalgesia induzida por opioides. Na tolerância, o paciente precisa de doses maiores para obter o mesmo efeito, mas a dor não piora com o aumento — na HIO, a dor piora com o aumento da dose. O enunciado é explícito: "O aumento da dose de resgate de morfina não alivia, e em alguns momentos, parece piorar o quadro". Isso é o oposto da tolerância e aponta diretamente para HIO ou sensibilização central. Guarde essa diferença: é exatamente nela que as alternativas se dividem.
Dor oncológica
1Tipos
Nociceptiva (somática/visceral)
Neuropática (queimação, alodínia)
Mista
2Refratária a opioide
Tolerância
Aumentar dose recupera analgesia
Hiperalgesia induzida por opioides (HIO)
Dor piora com aumento da dose
Alodínia e dor difusa
Conduta: rotação + coadjuvante
3Conduta na HIO
Rotação de opioide (ex.: metadona)
Bloqueio NMDA
Dose equipotente 30% menor
Coadjuvantes (gabapentina/pregabalina)
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Alternativa A — ❌ Incorreta
Erra ao atribuir a piora à tolerância. Na tolerância, o aumento da dose recupera a analgesia; aqui, o aumento piora a dor — sinal de hiperalgesia induzida por opioides. Aumentar a dose basal em 50% agravaria o quadro, perpetuando a sensibilização central.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A associação de AINE e corticoide é útil para o componente nociceptivo da dor óssea, mas não trata o componente neuropático (queimação, alodínia) nem a hiperalgesia induzida por opioides. A conduta principal deveria incluir rotação de opioide e coadjuvantes neuropáticos, não apenas anti-inflamatórios.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A conduta mais apropriada é a rotação de opioide (ex.: metadona, que também bloqueia NMDA) e a introdução de coadjuvantes como gabapentina, reduzindo a dose total de opioide. Isso reverte a sensibilização central e trata o componente neuropático, abordando a causa da refratariedade.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Rotular a dor como psicogênica sem evidência é um erro grave em oncologia. A dor tem características orgânicas claras (neuropática, HIO). Suspender morfina por "risco de dependência" é inadequado — o paciente tem dor crônica oncológica e necessita de analgesia. Antidepressivos tricíclicos podem ser coadjuvantes, mas não substituem o opioide.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Trocar morfina (opioide forte) por codeína ou tramadol (opioides fracos) é regressão terapêutica — reduziria drasticamente a analgesia. Não existe fundamento para "reiniciar receptores" dessa forma. A rotação deve ser para outro opioide forte (metadona, oxicodona, fentanil), não para opioides fracos.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre tolerância e hiperalgesia induzida por opioides. Na tolerância, aumentar a dose funciona; na HIO, aumenta a dor. O enunciado entrega a pista: "o aumento da dose parece piorar o quadro". Se você leu "tolerância" e marcou A, caiu na armadilha. Lembre-se: dor que piora com opioide = pensar em HIO ou sensibilização central → rotação + coadjuvante.
PEGA ESSA DICA!
Na prova, ao ver dor neuropática (queimante, alodínia) refratária a opioide, o raciocínio é: (1) excluir progressão da doença; (2) pensar em HIO/sensibilização; (3) conduta = rotação de opioide + coadjuvante (gabapentina/pregabalina). Decore o par: tolerância → aumentar dose; HIO → reduzir/rotacionar.