Questão de Medicina — Pediatria e Neonatologia — FGV 2025
Medicina›Pediatria e Neonatologia
Código
fg114304
Banca
FGV
Órgão
HUEM
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Residência Médica - Pediatria (Med Ins Ped, Neonatologia, Neurologia Pediátrica, Psiquiatria na Inf e Adolescência)
Recém-nascido, feminino, apresenta bolhas e erosões na pele desde o nascimento, especialmente em áreas de fricção (como cotovelos, joelhos e tornozelos). Ao longo dos primeiros dias, observam-se lesões mucosas na cavidade oral e dificuldade para amamentar. A mãe relata que não houve parto traumático significativo e não há histórico familiar conhecido.Realizados exames complementares, constata-se fragilidade tecidual, formação espontânea de bolhas após leve pressão e prolongada cicatrização com formação de cicatrizes piramidais nos dedos.A principal hipótese diagnóstica é epidermólise bolhosa
Ajuncional letal.
Bdistrófica recessiva.
Clocalizada ou focal.
DKindler.
Eadquirida (autoimune).
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GabaritoB — distrófica recessiva.
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Epidermólise bolhosa: classificação e diagnóstico
Gabarito: letra B. O quadro clínico — bolhas e erosões desde o nascimento em áreas de fricção, lesões mucosas orais, fragilidade tecidual com formação de bolhas após leve pressão e cicatrizes piramidais nos dedos — é altamente sugestivo de epidermólise bolhosa distrófica recessiva, a forma mais grave e com padrão de herança autossômico recessivo. A presença de cicatrizes (milium e cicatrizes piramidais) e o comprometimento mucoso desde o período neonatal são os achados que diferenciam essa forma das demais.
A epidermólise bolhosa (EB) é um grupo de doenças genéticas caracterizadas por fragilidade da pele e das mucosas, com formação de bolhas e erosões após traumas mínimos. A classificação atual baseia-se no nível de clivagem da pele: EB simples (clivagem intraepidérmica), EB juncional (clivagem na lâmina lúcida da zona da membrana basal), EB distrófica (clivagem abaixo da lâmina densa, na derme papilar) e síndrome de Kindler (clivagem mista). A forma distrófica recessiva é causada por mutações no gene COL7A1, que codifica o colágeno tipo VII, componente das fibrilas de ancoragem que fixam a epiderme à derme. A ausência ou deficiência dessas fibrilas leva à clivagem subepidérmica, resultando em bolhas que cicatrizam com formação de cicatrizes atróficas e milia, além de complicações como fusão de dedos (pseudossindactilia) e estenose esofágica.
No caso apresentado, a cicatrização com formação de cicatrizes piramidais nos dedos é um sinal clássico da EB distrófica recessiva, que cursa com cicatrização anormal e deformidades progressivas das mãos e dos pés. O comprometimento mucoso oral desde o nascimento, com dificuldade para amamentar, também é característico dessa forma, que costuma ser mais grave que a forma dominante. A ausência de histórico familiar não exclui o diagnóstico, pois a herança recessiva pode ocorrer sem casos anteriores na família.
A EB juncional letal (alternativa A) é uma forma grave, mas geralmente cursa com bolhas extensas e comprometimento sistêmico precoce, com alta mortalidade no primeiro ano de vida, e não apresenta as cicatrizes piramidais típicas da forma distrófica. A EB localizada ou focal (alternativa C) é uma forma mais branda, com bolhas restritas a áreas de trauma, sem o padrão grave e generalizado descrito. A síndrome de Kindler (alternativa D) é uma forma rara com fotossensibilidade e poiquilodermia, além de bolhas que podem ocorrer em qualquer nível, mas não é a principal hipótese diante do quadro neonatal típico. A EB adquirida (alternativa E) é uma doença autoimune que ocorre em adultos, com anticorpos contra o colágeno VII, e não se manifesta no período neonatal.
A distinção entre as formas de EB é fundamental para o prognóstico e o aconselhamento genético. A forma distrófica recessiva é a mais grave entre as distróficas, com risco de carcinoma espinocelular em áreas de cicatrizes crônicas na vida adulta. O diagnóstico é confirmado por biópsia de pele com imunofluorescência direta e microscopia eletrônica, que identificam o nível de clivagem e a expressão das proteínas da zona da membrana basal. O teste genético molecular pode identificar a mutação específica e permitir o diagnóstico pré-natal em gestações futuras.
A pegadinha da questão está em associar o quadro neonatal grave com a forma juncional letal, que também é grave, mas apresenta características distintas. A presença de cicatrizes piramidais e o comprometimento mucoso com dificuldade de amamentação são pistas fortes para a forma distrófica recessiva, que é a mais comum entre as formas graves que sobrevivem ao período neonatal. A banca explora a confusão entre as formas graves de EB, mas o quadro clínico detalhado aponta claramente para a distrófica recessiva.
Critério
EB Distrófica Recessiva (gabarito)
EB Juncional Letal (A)
EB Localizada/Focal (C)
Síndrome de Kindler (D)
EB Adquirida (E)
Início
Neonatal
Neonatal
Neonatal/infância
Neonatal/infância
Adulto
Clivagem
Subepidérmica (abaixo da lâmina densa)
Lâmina lúcida
Intraepidérmica
Mista
Subepidérmica (abaixo da lâmina densa)
Comprometimento mucoso
Frequente (oral, esofágico)
Grave e sistêmico precoce
Ausente/mínimo
Variável
Pode ocorrer
Cicatrizes piramidais nos dedos
Típico (pseudossindactilia)
Ausente
Ausente
Ausente
Ausente
Fotossensibilidade/poiquilodermia
Ausente
Ausente
Ausente
Presente
Ausente
Herança/etiologia
Autossômica recessiva (COL7A1)
Autossômica recessiva (laminina 332)
Autossômica dominante (queratinas)
Autossômica recessiva (kindlin-1)
Autoimune (anti-colágeno VII)
Epidermólise bolhosa: EB simples (clivagem intraepidérmica, forma localizada (branda)); EB juncional (clivagem na lâmina lúcida, forma letal (Herlitz)); EB distrófica (clivagem subepidérmica, recessiva (COL7A1) — caso descrito, dominante); Síndrome de Kindler (clivagem mista, fotossensibilidade e poiquilodermia); EB adquirida (autoimune (adultos), anticorpos anti-colágeno VII)
Alternativa A — ❌ Incorreta
A EB juncional letal (Herlitz) é uma forma grave, mas geralmente apresenta bolhas extensas e generalizadas desde o nascimento, com comprometimento sistêmico precoce (falência de múltiplos órgãos) e óbito no primeiro ano de vida. Não é característica a formação de cicatrizes piramidais nos dedos, que é típica da forma distrófica. A presença de cicatrizes e a sobrevivência além do período neonatal imediato no caso descrito afastam essa hipótese.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A EB distrófica recessiva é a forma que melhor se encaixa no quadro: bolhas em áreas de fricção desde o nascimento, lesões mucosas orais, fragilidade tecidual, cicatrização lenta com cicatrizes piramidais nos dedos e herança autossômica recessiva (sem histórico familiar). A clivagem subepidérmica abaixo da lâmina densa, por deficiência de colágeno VII, explica a formação de cicatrizes e as deformidades digitais progressivas.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A EB localizada ou focal (antes chamada de EB simples localizada) é uma forma branda, com bolhas restritas a áreas de trauma (mãos e pés), sem comprometimento mucoso significativo e sem cicatrizes. O quadro descrito é generalizado, com lesões mucosas e cicatrização anormal, incompatível com essa forma leve.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A síndrome de Kindler é uma forma rara de EB com clivagem mista, caracterizada por fotossensibilidade, poiquilodermia (alterações de pigmentação e atrofia) e bolhas que podem ocorrer em qualquer nível da pele. O quadro neonatal descrito não apresenta fotossensibilidade nem poiquilodermia, sendo a distrófica recessiva a hipótese mais provável.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A EB adquirida é uma doença autoimune, mediada por autoanticorpos contra o colágeno VII, que ocorre em adultos, frequentemente associada a doenças inflamatórias intestinais ou lúpus. Não se manifesta no período neonatal e não é uma doença genética. O caso descrito é de um recém-nascido, o que exclui essa hipótese.
Gabarito: letra B — epidermólise bolhosa distrófica recessiva.