Questão de Medicina — Pediatria e Neonatologia — FGV 2025
Medicina›Pediatria e Neonatologia
Código
fg114305
Banca
FGV
Órgão
HUEM
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Residência Médica - Pediatria (Med Ins Ped, Neonatologia, Neurologia Pediátrica, Psiquiatria na Inf e Adolescência)
Adolescente de 14 anos procura atendimento de emergência com dor intensa no ouvido direito, há dois dias. O quadro começou após um fim de semana em que passou longos períodos nadando. A dor piora quando movimenta a mandíbula ou quando o médico toca a orelha externamente, especialmente no trago.Ao exame, observa-se edema e sensibilidade do conduto auditivo externo, impossibilitando a visualização completa da membrana timpânica e pequeno linfonodo aumentado em região periauricular.O caso sugere
Acorpo estranho impactado no conduto auditivo externo.
Botite média serosa, secundária à disfunção da tuba auditiva.
Cotite externa aguda, associada à exposição prolongada à umidade.
Dotite média aguda, com secreção purulenta atrás da membrana timpânica.
Emastoidite aguda, com dor retroauricular e deslocamento do pavilhão auricular.
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GabaritoC — otite externa aguda, associada à exposição prolongada à umidade.
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Otite externa aguda: diagnóstico diferencial das otalgias
Gabarito: letra C. O quadro é de otite externa aguda (OEA): dor intensa à manipulação do pavilhão auricular e do trago, edema e sensibilidade do conduto auditivo externo, linfonodomegalia periauricular e história de exposição prolongada à umidade (natação) — o conjunto fecha o diagnóstico. A otite média aguda (OMA) e a mastoidite, que são os principais diagnósticos diferenciais, apresentam achados otoscópicos e topográficos distintos, como veremos.
A otite externa aguda é uma infecção do conduto auditivo externo (CAE), quase sempre de origem bacteriana, sendo a Pseudomonas aeruginosa o agente mais comum, seguida por Staphylococcus aureus. A maceração da pele do conduto pela umidade prolongada — típica de quem nada ou toma banhos frequentes — remove a barreira epitelial protetora e cria o ambiente ideal para a proliferação bacteriana. Por isso a história de natação é um dado tão forte no enunciado: ela aponta diretamente para o mecanismo fisiopatológico da OEA.
O exame físico é o que separa a OEA das outras causas de otalgia. Na OEA, a dor é desproporcionalmente intensa à manipulação do pavilhão auricular e à pressão sobre o trago — sinal patognomônico. O conduto aparece edemaciado, hiperemiado e com secreção, podendo estar tão estenosado que impede a visualização da membrana timpânica (MT), como ocorreu no caso. A linfonodomegalia periauricular é comum. Já na otite média aguda, a dor é profunda, a MT está abaúlada e hiperemiada, e a manipulação da orelha externa não costuma exacerbar a dor — o que é um critério clínico decisivo. Na mastoidite, a dor é retroauricular, com edema e hiperemia sobre a mastoide, e o pavilhão auricular se desloca para frente e para fora.
A distinção entre OEA e OMA é a mais cobrada e a mais confundida. A tabela abaixo fixa o contraste:
Critério
Otite externa aguda (OEA)
Otite média aguda (OMA)
Local da infecção
Conduto auditivo externo
Orelha média (atrás da MT)
Dor à manipulação do trago/pavilhão
Intensa (sinal clássico)
Ausente ou discreta
Otoscopia
CAE edemaciado, hiperemiado, com secreção; MT pode não ser visível
MT abaúlada, hiperemiada, opacificada; CAE normal
Fator desencadeante típico
Exposição à umidade (natação), trauma local
Infecção de vias aéreas superiores, disfunção da tuba auditiva
Linfonodomegalia periauricular
Comum
Rara
A pegadinha da banca está em trocar o sinal da dor: na OMA, a dor é profunda e não piora com a manipulação da orelha externa; na OEA, a dor é superficial e intensifica-se com o toque. O enunciado descreve exatamente o segundo padrão — "a dor piora quando movimenta a mandíbula ou quando o médico toca a orelha externamente, especialmente no trago" —, o que fecha o diagnóstico de OEA. Guarde essa fronteira: dor à manipulação do trago = OEA; dor profunda com MT alterada = OMA.
Otalgia: diagnóstico topográfico: Dor superficial (piora ao toque) (Otite externa aguda, trago/pavilhão dolorosos); Dor profunda (MT alterada) (Otite média aguda, MT abaúlada/hiperemiada); Dor retroauricular (Mastoidite, desloca pavilhão p/ frente)
Alternativa A — ❌ Incorreta
Corpo estranho impactado no conduto auditivo externo pode causar otalgia e até edema local, mas não explica a história de exposição prolongada à umidade como fator desencadeante, nem a dor intensa à manipulação do trago como sintoma predominante. Além disso, o corpo estranho costuma ter início súbito e história de inserção (comum em crianças pequenas), o que não se aplica ao caso. O quadro descrito é infeccioso, não obstrutivo.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A otite média serosa é consequência de disfunção da tuba auditiva, que impede a drenagem da orelha média e leva ao acúmulo de líquido estéril atrás da MT. O quadro é tipicamente indolor ou com desconforto leve, sem os sinais inflamatórios agudos do caso (dor intensa, edema do conduto, linfonodo). A dor à manipulação do trago e o edema do CAE não fazem parte da otite média serosa, que cursa com MT íntegra e nível hidroaéreo ou retração.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa espelha exatamente o caso: adolescente com dor intensa no ouvido após longos períodos nadando (exposição à umidade), dor à manipulação do trago e do pavilhão, edema e sensibilidade do conduto auditivo externo com impossibilidade de visualizar a MT, e linfonodomegalia periauricular. Todos esses são os achados clássicos da otite externa aguda difusa, também chamada de "ouvido de nadador". O mecanismo é a maceração da pele do CAE pela umidade, favorecendo a infecção por Pseudomonas aeruginosa.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A otite média aguda com secreção purulenta atrás da MT cursa com dor profunda, febre e história de infecção de vias aéreas superiores, mas não apresenta dor à manipulação do trago nem edema do conduto auditivo externo — o CAE é normal na OMA. Além disso, a MT estaria abaúlada e hiperemiada, e não "impossibilitada de visualização" por edema do conduto. O fator desencadeante (natação) também não é típico da OMA, que se associa a disfunção da tuba auditiva.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A mastoidite aguda é uma complicação da OMA, caracterizada por dor e edema retroauricular, hiperemia sobre a mastoide e deslocamento do pavilhão auricular para frente e para fora. Nenhum desses sinais está presente no caso: a dor é no conduto, à manipulação do trago, e não há edema retroauricular nem proeminência do pavilhão. A linfonodomegalia periauricular, embora possa ocorrer, não é o achado central da mastoidite, que tem topografia mastoidea.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre otite externa e otite média. O candidato que decora apenas "otalgia = otite média" erra a questão. O diferencial está na dor à manipulação do trago e do pavilhão — presente na OEA e ausente na OMA. Sempre que o enunciado trouxer esse sinal, pense em OEA, mesmo que a MT não possa ser examinada.
PEGA ESSA DICA!
Na prova, monte o diagnóstico diferencial das otalgias por topografia: dor superficial que piora ao toque = conduto (OEA); dor profunda com MT alterada = orelha média (OMA); dor retroauricular com deslocamento do pavilhão = mastoide (mastoidite). Essa tríade resolve a maioria das questões.