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Questão de Medicina — Pediatria e Neonatologia — FGV 2025

MedicinaPediatria e Neonatologia
Código
fg114344
Banca
FGV
Órgão
HUEM
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Residência Médica - Pediatria (Med Ins Ped, Neonatologia, Neurologia Pediátrica, Psiquiatria na Inf e Adolescência)
Lactente de 6 semanas é trazido ao pronto atendimento devido a episódios intensos de choro, especialmente no período da noite. Os pais relatam grande preocupação, apesar de o bebê estar saudável, sem febre, alimentando-se bem e apresentando ganho ponderal adequado.A respeito do comportamento desse lactente, assinale a afirmativa correta.
  1. ACostuma indicar alteração neurológica importante.
  2. BNessa idade, esse choro sugere doença infecciosa.
  3. CÉ normal, com pico esperado nesse período da vida.
  4. DSugere, na maioria dos casos, refluxo gastroesofágico.
  5. EQuando noturno, é mais frequente em bebês nascidos a termo.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — É normal, com pico esperado nesse período da vida.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Cólica do lactente: um diagnóstico de exclusão

Gabarito: letra C. O quadro descrito — lactente de 6 semanas, saudável, sem febre, com bom ganho ponderal e episódios intensos de choro, especialmente à noite — é a apresentação clássica da cólica do lactente, um comportamento normal e autolimitado, cujo pico de incidência ocorre justamente entre 6 e 8 semanas de vida. O diagnóstico é clínico e de exclusão, exigindo que se afastem causas orgânicas como infecção, refluxo gastroesofágico e alergia à proteína do leite de vaca.

A cólica do lactente é um dos motivos mais comuns de consulta pediátrica nos primeiros meses de vida. Define-se como episódios repetidos de choro e irritabilidade em uma criança sadia em todos os outros aspectos, sem causa orgânica identificável. O choro costuma ser paroxístico, intenso, com a criança enrijecendo o corpo, fechando os punhos e flexionando as pernas sobre o abdome, frequentemente no final da tarde ou à noite. Acomete cerca de 10% a 40% dos lactentes, com início típico por volta da 2ª a 3ª semana de vida, pico entre 6 e 8 semanas e resolução espontânea por volta dos 3 a 4 meses — daí a alternativa C estar correta ao afirmar que o pico é esperado nesse período.

O diagnóstico é essencialmente clínico e de exclusão. Para fechá-lo, o médico deve:

  • Confirmar que o lactente tem menos de 5 meses;

  • Identificar períodos prolongados e recorrentes de irritabilidade, inquietação e choro, sem causa aparente e que não são prevenidos ou resolvidos pelos pais;

  • Excluir baixo ganho ponderal, febre ou qualquer outro problema de saúde.

Na prática, diante de um lactente com choro persistente, é obrigatório realizar anamnese detalhada e exame físico cuidadoso, incluindo otoscopia, exame ocular (para afastar glaucoma congênito e lesão de córnea), palpação abdominal, exame dos testículos e da região inguinal (hérnia) e das extremidades (síndrome do torniquete). Devem ser considerados diagnósticos diferenciais como refluxo gastroesofágico com esofagite, alergia à proteína do leite de vaca, intussuscepção intestinal, fissura anal, trauma e infecção. Sinais de alarme como febre, letargia, alimentação débil, fezes com sangue ou vômitos em jato ou biliosos indicam a necessidade de investigação mais aprofundada.

A etiologia da cólica permanece desconhecida, o que explica a ausência de um exame padrão-ouro. Entre as teorias, citam-se imaturidade ou inflamação gastrintestinal, aumento da secreção de serotonina, intolerância à proteína do leite de vaca ou à lactose, técnica de alimentação incorreta e tabagismo materno. O tratamento baseia-se em acolher e tranquilizar os pais, explicando o caráter benigno e autolimitado do quadro, além de orientar medidas não farmacológicas como embalar a criança, usar ruído branco e oferecer chupeta. Não há evidência robusta para o uso rotineiro de medicamentos.

A grande pegadinha desta questão é a tentação de atribuir o choro a uma causa orgânica — como refluxo ou infecção — quando o quadro clínico é justamente o oposto: um bebê que chora muito, mas é saudável, alimenta-se bem e ganha peso adequadamente. A banca explora exatamente essa inversão: o que é normal e esperado (cólica) é apresentado como patológico, e o que seria patológico (infecção, refluxo) é apresentado como explicação plausível. Guarde o critério decisivo: cólica do lactente = choro excessivo em bebê saudável, com exame físico normal e ganho ponderal adequado, na faixa etária típica (2 semanas a 4 meses). É esse critério que separa as alternativas corretas das incorretas.

Critério

Cólica do Lactente (C)

Doença Infecciosa (B)

Refluxo Gastroesofágico (D)

Febre

Ausente

Geralmente presente

Ausente

Ganho ponderal

Adequado

Pode estar comprometido

Frequentemente comprometido

Pico de incidência

6–8 semanas de vida

Qualquer idade

Variável, sem pico específico

Caráter do choro

Paroxístico, noturno, autolimitado

Persistente, associado a toxemia

Associado a regurgitações/vômitos

Diagnóstico

Clínico, de exclusão

Exames laboratoriais/imaging

Clínico + exames complementares

Alternativa A — ❌ Incorreta

Afirma que o choro intenso nessa idade costuma indicar alteração neurológica importante. Isso está errado: a cólica do lactente é um comportamento normal e benigno, e não um sinal de doença neurológica. Embora a hipertensão intracraniana possa causar choro e irritação no bebê, ela é um diagnóstico de exclusão que só deve ser considerado diante de outros sinais (vômitos em jato, abaulamento de fontanela, alteração do nível de consciência), que não estão presentes no caso. A alternativa confunde um sintoma inespecífico (choro) com uma causa específica e grave, sem fundamento clínico.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Sugere que, nessa idade, o choro intenso indica doença infecciosa. O lactente descrito está sem febre, alimentando-se bem e com ganho ponderal adequado — exatamente o oposto do que se esperaria em uma infecção. Embora infecções (como otite média, infecção urinária ou meningite) possam se manifestar com choro e irritabilidade, a ausência de febre e o bom estado geral tornam essa hipótese improvável. A cólica do lactente é um diagnóstico de exclusão, e a presença de febre ou outros sinais de alarme é justamente o que afastaria esse diagnóstico.

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Esta é a afirmativa correta. O choro intenso e paroxístico em um lactente de 6 semanas, saudável, sem febre e com bom ganho ponderal, é a apresentação clássica da cólica do lactente, um comportamento normal e autolimitado. O pico de incidência ocorre entre 6 e 8 semanas de vida, exatamente o período descrito no enunciado. O diagnóstico é clínico e de exclusão, e o tratamento baseia-se em tranquilizar os pais e orientar medidas de conforto.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Afirma que o choro sugere, na maioria dos casos, refluxo gastroesofágico. Embora o refluxo possa causar choro e irritabilidade, ele é apenas um dos diagnósticos diferenciais da cólica do lactente, e não a causa mais comum. O quadro típico de refluxo gastroesofágico patológico inclui regurgitações frequentes, vômitos, recusa alimentar e baixo ganho ponderal — achados ausentes no caso descrito. A alternativa confunde um diagnóstico diferencial com a causa mais provável, invertendo a hierarquia diagnóstica.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Sugere que o choro noturno é mais frequente em bebês nascidos a termo. Não há evidência científica que sustente essa afirmação. A cólica do lactente acomete tanto bebês a termo quanto pré-termo, e a prevalência noturna está relacionada ao padrão circadiano do choro, não à idade gestacional ao nascimento. A alternativa introduz um fator de risco sem fundamento, desviando a atenção do que realmente importa: o diagnóstico de cólica do lactente.

Gabarito: letra C

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