Cólica do lactente: um diagnóstico de exclusão
Gabarito: letra C. O quadro descrito — lactente de 6 semanas, saudável, sem febre, com bom ganho ponderal e episódios intensos de choro, especialmente à noite — é a apresentação clássica da cólica do lactente, um comportamento normal e autolimitado, cujo pico de incidência ocorre justamente entre 6 e 8 semanas de vida. O diagnóstico é clínico e de exclusão, exigindo que se afastem causas orgânicas como infecção, refluxo gastroesofágico e alergia à proteína do leite de vaca.
A cólica do lactente é um dos motivos mais comuns de consulta pediátrica nos primeiros meses de vida. Define-se como episódios repetidos de choro e irritabilidade em uma criança sadia em todos os outros aspectos, sem causa orgânica identificável. O choro costuma ser paroxístico, intenso, com a criança enrijecendo o corpo, fechando os punhos e flexionando as pernas sobre o abdome, frequentemente no final da tarde ou à noite. Acomete cerca de 10% a 40% dos lactentes, com início típico por volta da 2ª a 3ª semana de vida, pico entre 6 e 8 semanas e resolução espontânea por volta dos 3 a 4 meses — daí a alternativa C estar correta ao afirmar que o pico é esperado nesse período.
O diagnóstico é essencialmente clínico e de exclusão. Para fechá-lo, o médico deve:
Confirmar que o lactente tem menos de 5 meses;
Identificar períodos prolongados e recorrentes de irritabilidade, inquietação e choro, sem causa aparente e que não são prevenidos ou resolvidos pelos pais;
Excluir baixo ganho ponderal, febre ou qualquer outro problema de saúde.
Na prática, diante de um lactente com choro persistente, é obrigatório realizar anamnese detalhada e exame físico cuidadoso, incluindo otoscopia, exame ocular (para afastar glaucoma congênito e lesão de córnea), palpação abdominal, exame dos testículos e da região inguinal (hérnia) e das extremidades (síndrome do torniquete). Devem ser considerados diagnósticos diferenciais como refluxo gastroesofágico com esofagite, alergia à proteína do leite de vaca, intussuscepção intestinal, fissura anal, trauma e infecção. Sinais de alarme como febre, letargia, alimentação débil, fezes com sangue ou vômitos em jato ou biliosos indicam a necessidade de investigação mais aprofundada.
A etiologia da cólica permanece desconhecida, o que explica a ausência de um exame padrão-ouro. Entre as teorias, citam-se imaturidade ou inflamação gastrintestinal, aumento da secreção de serotonina, intolerância à proteína do leite de vaca ou à lactose, técnica de alimentação incorreta e tabagismo materno. O tratamento baseia-se em acolher e tranquilizar os pais, explicando o caráter benigno e autolimitado do quadro, além de orientar medidas não farmacológicas como embalar a criança, usar ruído branco e oferecer chupeta. Não há evidência robusta para o uso rotineiro de medicamentos.
A grande pegadinha desta questão é a tentação de atribuir o choro a uma causa orgânica — como refluxo ou infecção — quando o quadro clínico é justamente o oposto: um bebê que chora muito, mas é saudável, alimenta-se bem e ganha peso adequadamente. A banca explora exatamente essa inversão: o que é normal e esperado (cólica) é apresentado como patológico, e o que seria patológico (infecção, refluxo) é apresentado como explicação plausível. Guarde o critério decisivo: cólica do lactente = choro excessivo em bebê saudável, com exame físico normal e ganho ponderal adequado, na faixa etária típica (2 semanas a 4 meses). É esse critério que separa as alternativas corretas das incorretas.
Critério | Cólica do Lactente (C) | Doença Infecciosa (B) | Refluxo Gastroesofágico (D) |
|---|
Febre | Ausente | Geralmente presente | Ausente |
Ganho ponderal | Adequado | Pode estar comprometido | Frequentemente comprometido |
Pico de incidência | 6–8 semanas de vida | Qualquer idade | Variável, sem pico específico |
Caráter do choro | Paroxístico, noturno, autolimitado | Persistente, associado a toxemia | Associado a regurgitações/vômitos |
Diagnóstico | Clínico, de exclusão | Exames laboratoriais/imaging | Clínico + exames complementares |
Alternativa A — ❌ Incorreta
Afirma que o choro intenso nessa idade costuma indicar alteração neurológica importante. Isso está errado: a cólica do lactente é um comportamento normal e benigno, e não um sinal de doença neurológica. Embora a hipertensão intracraniana possa causar choro e irritação no bebê, ela é um diagnóstico de exclusão que só deve ser considerado diante de outros sinais (vômitos em jato, abaulamento de fontanela, alteração do nível de consciência), que não estão presentes no caso. A alternativa confunde um sintoma inespecífico (choro) com uma causa específica e grave, sem fundamento clínico.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Sugere que, nessa idade, o choro intenso indica doença infecciosa. O lactente descrito está sem febre, alimentando-se bem e com ganho ponderal adequado — exatamente o oposto do que se esperaria em uma infecção. Embora infecções (como otite média, infecção urinária ou meningite) possam se manifestar com choro e irritabilidade, a ausência de febre e o bom estado geral tornam essa hipótese improvável. A cólica do lactente é um diagnóstico de exclusão, e a presença de febre ou outros sinais de alarme é justamente o que afastaria esse diagnóstico.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Esta é a afirmativa correta. O choro intenso e paroxístico em um lactente de 6 semanas, saudável, sem febre e com bom ganho ponderal, é a apresentação clássica da cólica do lactente, um comportamento normal e autolimitado. O pico de incidência ocorre entre 6 e 8 semanas de vida, exatamente o período descrito no enunciado. O diagnóstico é clínico e de exclusão, e o tratamento baseia-se em tranquilizar os pais e orientar medidas de conforto.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Afirma que o choro sugere, na maioria dos casos, refluxo gastroesofágico. Embora o refluxo possa causar choro e irritabilidade, ele é apenas um dos diagnósticos diferenciais da cólica do lactente, e não a causa mais comum. O quadro típico de refluxo gastroesofágico patológico inclui regurgitações frequentes, vômitos, recusa alimentar e baixo ganho ponderal — achados ausentes no caso descrito. A alternativa confunde um diagnóstico diferencial com a causa mais provável, invertendo a hierarquia diagnóstica.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Sugere que o choro noturno é mais frequente em bebês nascidos a termo. Não há evidência científica que sustente essa afirmação. A cólica do lactente acomete tanto bebês a termo quanto pré-termo, e a prevalência noturna está relacionada ao padrão circadiano do choro, não à idade gestacional ao nascimento. A alternativa introduz um fator de risco sem fundamento, desviando a atenção do que realmente importa: o diagnóstico de cólica do lactente.
Gabarito: letra C