Questão de Medicina — Medicina Preventiva — FGV 2025
Medicina›Medicina Preventiva
Código
fg114361
Banca
FGV
Órgão
HUEM
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Residência Médica - Prova Geral
Um homem negro de 55 anos, sem histórico familiar de câncer de próstata, comparece ao Núcleo de Apoio à Saúde da Família (NASF) buscando orientações sobre como reduzir seu risco de desenvolver a doença. Ele está preocupado com o fator racial de risco e deseja adotar medidas de prevenção primária baseada em evidências. Ele relata dieta rica em gorduras saturadas, sobrepeso e baixo consumo de vegetais.Considerando os princípios da Medicina Preventiva e um maior nível de evidência disponível para redução do câncer de próstata clinicamente significativo, das seguintes orientações, assinale a que deve ser enfatizada pelo profissional de saúde como a estratégia de prevenção primária mais robusta.
ARecomendar o rastreamento anual com toque retal e dosagem de Antígeno Prostático Específico (PSA), por serem medidas eficazes para impedir o avanço da doença.
BIniciar o uso de um suplemento diário de licopeno, devido às evidências conclusivas do seu potencial antioxidante na redução da proliferação celular prostática.
CSugerir o uso de Finasterida (5mg/dia), explicando que a quimioprevenção é a principal estratégia para indivíduos com fatores de risco aumentado, como a raça.
DAconselhar uma intervenção no estilo de vida, enfatizando o aumento da atividade física, a redução de gorduras saturadas e o consumo de uma dieta rica em verduras, frutas e grãos integrais, não fumar e evitar o consumo de álcool.
ERecomendar uma abstenção total de consumo de laticínios, pois o cálcio está consistentemente associado a um aumento significativo do câncer de próstata.
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GabaritoD — Aconselhar uma intervenção no estilo de vida, enfatizando o aumento da atividade física, a redução de gorduras saturadas e o consumo de uma dieta rica em verduras, frutas e grãos integrais, não fumar e evitar o consumo de álcool.
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Prevenção primária do câncer de próstata: estilo de vida versus quimioprevenção
Gabarito: letra D. A estratégia de prevenção primária mais robusta para reduzir o risco de câncer de próstata clinicamente significativo é a intervenção no estilo de vida — aumento da atividade física, redução de gorduras saturadas, dieta rica em vegetais e grãos integrais, não fumar e evitar álcool. As evidências atuais não sustentam o rastreamento como prevenção primária, nem suplementos como licopeno, nem quimioprevenção com finasterida como estratégia de primeira linha, e a abstenção total de laticínios não é recomendada.
O câncer de próstata (CaP) é a neoplasia maligna mais comum em homens no Brasil (exceto pele não melanoma) e a segunda causa de mortalidade. Os principais fatores de risco são idade avançada, etnia negra, história familiar de primeiro grau com diagnóstico antes dos 65 anos e mutações no gene BRCA. O paciente do enunciado — homem negro, 55 anos, sem história familiar — tem um fator de risco não modificável (raça), o que justifica sua preocupação, mas não existe uma medida dietética ou preventiva específica comprovada para reduzir o risco de desenvolver a doença.
A prevenção primária visa reduzir a incidência da doença, atuando antes do seu aparecimento. No caso do CaP, as estratégias de prevenção primária razoáveis incluem reduzir riscos do estilo de vida — como abandono do tabagismo, dieta com baixo teor de gordura e alto teor de fibras, prática regular de exercícios — e evitar riscos ocupacionais ou ambientais. A quimioprevenção, embora estudada, não é recomendada como estratégia de primeira linha para a população geral ou para indivíduos de alto risco, devido aos efeitos adversos e à falta de evidência conclusiva de benefício na redução da mortalidade.
A distinção crucial é entre prevenção primária (reduzir o risco de desenvolver a doença) e prevenção secundária (rastreamento para detectar a doença em estágio inicial). O rastreamento com PSA e toque retal é uma medida de prevenção secundária, não primária, e suas evidências de benefício são limitadas — não há demonstração de redução da mortalidade por câncer de próstata com o rastreamento populacional. Além disso, o rastreamento pode levar a sobrediagnóstico e tratamento desnecessário, com riscos de disfunção erétil e incontinência urinária.
A pegadinha da questão está em confundir prevenção primária com secundária e em superestimar intervenções sem evidência robusta. O candidato pode ser tentado a escolher a alternativa A (rastreamento) por associá-la à prevenção, mas ela é prevenção secundária. Ou a alternativa C (finasterida), que é quimioprevenção, mas com evidências limitadas e efeitos adversos significativos. A alternativa D é a única que aborda diretamente a prevenção primária com base em evidências de estilo de vida, que são as recomendações mais robustas disponíveis.
Guarde a fronteira entre prevenção primária (estilo de vida, quimioprevenção) e prevenção secundária (rastreamento): é exatamente nela que as alternativas se dividem.
Prevenção do câncer de próstata
1Primária (reduzir incidência)
Estilo de vida (dieta, atividade física, não fumar)
Quimioprevenção (finasterida) — efeitos adversos
Suplementos (licopeno) — sem evidência
2Secundária (detectar precoce)
Rastreamento (PSA, toque retal)
Sobrediagnóstico e tratamento desnecessário
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Alternativa A — ❌ Incorreta
O rastreamento com toque retal e PSA é uma medida de prevenção secundária, não primária. Seu objetivo é detectar a doença em estágio inicial, não impedir seu desenvolvimento. Além disso, as evidências não demonstram redução da mortalidade por câncer de próstata com o rastreamento populacional, e ele pode levar a sobrediagnóstico e tratamentos desnecessários. A alternativa erra ao classificar o rastreamento como prevenção primária e ao afirmar que é eficaz para impedir o avanço da doença.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Não há evidências conclusivas de que o licopeno, ou qualquer suplemento alimentar, reduza o risco de câncer de próstata. O estudo SELECT demonstrou que selênio e vitamina E não diminuem o risco. A alternativa superestima o potencial antioxidante do licopeno, que não é uma recomendação baseada em evidências robustas.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A finasterida (5mg/dia) é um inibidor da 5α-redutase que demonstrou reduzir o risco relativo de câncer de próstata em 23-25% em estudos clínicos. No entanto, seu uso não é recomendado como estratégia de prevenção primária de primeira linha devido aos efeitos adversos (disfunção erétil, perda de libido, ginecomastia) e à preocupação com um pequeno aumento na incidência de tumores de alto grau. A alternativa erra ao afirmar que a quimioprevenção é a principal estratégia para indivíduos com fatores de risco aumentado, como a raça.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A intervenção no estilo de vida é a estratégia de prevenção primária mais robusta. A obesidade, o alto consumo de gordura animal e o sedentarismo estão associados ao aumento do risco de câncer de próstata. A adoção de uma dieta rica em verduras, frutas e grãos integrais, a prática regular de atividade física, não fumar e evitar o consumo de álcool são medidas com evidências de redução do risco de câncer. Embora nenhuma medida dietética específica tenha demonstrado reduzir o risco de CaP, a modificação do estilo de vida como um todo é a recomendação mais sólida.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A abstenção total de laticínios não é recomendada. Embora alguns estudos sugiram uma associação entre alto consumo de cálcio e risco de câncer de próstata, as evidências não são consistentes nem conclusivas. A recomendação de abstenção total é extrema e não baseada em evidências robustas. A alternativa erra ao afirmar que o cálcio está consistentemente associado a um aumento significativo do câncer de próstata.
A regra de ouro para a prova: prevenção primária do câncer de próstata = estilo de vida saudável (dieta, atividade física, não fumar, moderar álcool). Rastreamento é prevenção secundária, e suplementos/quimioprevenção não têm evidência suficiente para recomendação de rotina.