Questão de Medicina — Ginecologia e Obstetrícia — FGV 2025
Medicina›Ginecologia e Obstetrícia
Código
fg114374
Banca
FGV
Órgão
HUEM
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Residência Médica - Prova Geral
Paciente de 49 anos, obesa (IMC 36) e diabética tipo 2, procura atendimento com queixa de menstruações irregulares e abundantes nos últimos 8 meses, associadas a episódios de sangramento intermenstrual. Refere fadiga progressiva e palpitações ocasionais. Ao exame, apresenta palidez cutâneo-mucosa. Ultrassonografia transvaginal mostra endométrio medindo 14 mm.A conduta inicial mais adequada, nesse caso, é
Aprescrever anticoncepcional oral combinado para regularizar o ciclo.
Biniciar ácido tranexâmico para controle do sangramento agudo.
Crealizar histeroscopia com biópsia de endométrio para investigação.
Dindicar histerectomia total imediata como primeira escolha.
Esolicitar hemograma e ferritina para orientar reposição férrica.
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GabaritoC — realizar histeroscopia com biópsia de endométrio para investigação.
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Sangramento uterino anormal na perimenopausa: investigação e conduta
Gabarito: letra C. Em paciente de 49 anos, obesa (IMC 36) e diabética, com sangramento uterino anormal (menstruações irregulares e abundantes + sangramento intermenstrual) e endométrio de 14 mm à USG transvaginal, a conduta inicial mais adequada é a histeroscopia com biópsia de endométrio, pois há indicação formal de amostragem endometrial em mulheres com 45 anos ou mais e naquelas com fatores de risco para hiperplasia ou câncer endometrial (obesidade, anovulação crônica). As demais opções são prematuras ou incompletas: o tratamento hormonal e o ácido tranexâmico são medidas de controle sintomático que não substituem a investigação etiológica, e a histerectomia é reservada para casos de falha terapêutica ou malignidade confirmada.
O sangramento uterino anormal (SUA) é definido como qualquer alteração na frequência, duração ou volume do fluxo menstrual. Na perimenopausa, é comum que ocorram ciclos irregulares por anovulação, mas a possibilidade de doença orgânica — especialmente hiperplasia ou carcinoma endometrial — deve ser sempre considerada, sobretudo em mulheres com fatores de risco. A obesidade é um dos principais fatores de risco para câncer de endométrio, pois o tecido adiposo converte androgênios em estrogênios pela aromatase, promovendo estímulo proliferativo endometrial sem oposição progestogênica. O diabetes tipo 2 frequentemente associa-se à obesidade e à anovulação crônica, potencializando esse risco.
A investigação do SUA segue uma lógica: primeiro, afastar gravidez; depois, avaliar a cavidade uterina. A ultrassonografia transvaginal é o exame inicial para avaliar a espessura endometrial e identificar anormalidades estruturais (miomas, pólipos, adenomiose). Quando há suspeita de lesão endometrial — como neste caso, com endométrio de 14 mm em mulher sintomática —, a amostragem endometrial é obrigatória. A histeroscopia com biópsia dirigida é o método mais preciso, pois permite visualização direta da cavidade e coleta de material para exame histológico, diferenciando hiperplasia sem atipia, hiperplasia com atipia e carcinoma.
A conduta não pode se limitar a controlar o sangramento com anticoncepcionais orais ou ácido tranexâmico sem antes excluir malignidade. O tratamento hormonal pode até mascarar o sangramento, mas não trata a causa subjacente. Da mesma forma, a histerectomia imediata é desproporcional como primeira escolha, pois o diagnóstico histológico é indispensável para planejar a cirurgia adequada (extensão, via de acesso, necessidade de linfadenectomia). A solicitação de hemograma e ferritina é importante para avaliar anemia ferropriva — e a paciente apresenta palidez e fadiga —, mas é um passo complementar, não a conduta inicial prioritária.
A banca explora aqui a confusão entre tratamento sintomático e investigação diagnóstica. Em uma paciente com fatores de risco e endométrio espessado, o primeiro passo é sempre a biópsia endometrial. O tratamento clínico (hormonal, antifibrinolítico, AINEs) e a reposição de ferro são medidas adjuvantes que podem ser instituídas em paralelo, mas nunca substituem a necessidade de excluir câncer. A histerectomia, por sua vez, é reservada para quando há diagnóstico de malignidade ou falha do tratamento clínico, não como abordagem inicial.
1Afastar gravidez
2USG transvaginal
3Avaliar fatores de risco
4Biópsia endometrial (≥45 anos ou risco)
5Tratamento dirigido
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Alternativa A — ❌ Incorreta
Prescrever anticoncepcional oral combinado para regularizar o ciclo é uma medida de controle sintomático do sangramento anovulatório, mas não é a conduta inicial adequada neste caso. A paciente tem 49 anos, obesidade e endométrio de 14 mm — há indicação formal de amostragem endometrial antes de qualquer terapia hormonal. Iniciar ACO sem investigar a cavidade uterina pode mascarar um carcinoma endometrial e retardar o diagnóstico. Além disso, a paciente é diabética e obesa, o que aumenta o risco cardiovascular e torna o uso de estrogênio uma decisão que exige cautela e avaliação individualizada.
Alternativa B — ❌ Incorreta
O ácido tranexâmico é um antifibrinolítico eficaz para reduzir o sangramento agudo, mas é uma medida sintomática e temporária. Não investiga a causa do sangramento e não exclui a possibilidade de hiperplasia ou carcinoma endometrial. Em paciente com fatores de risco e endométrio espessado, o uso isolado de ácido tranexâmico sem biópsia é conduta inadequada. Ele pode ser utilizado como adjuvante no controle do sangramento, mas a prioridade é o diagnóstico histológico.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A histeroscopia com biópsia de endométrio é a conduta inicial mais adequada. A paciente tem 49 anos (≥ 45 anos), obesidade (IMC 36) e diabetes tipo 2 — todos fatores de risco para hiperplasia e carcinoma endometrial. O endométrio de 14 mm à USG transvaginal é espessado e, associado ao sangramento irregular e intermenstrual, reforça a necessidade de avaliação histológica da cavidade uterina. A histeroscopia permite visualização direta e biópsia dirigida, sendo o método mais preciso para diagnóstico. A amostragem endometrial é obrigatória nesse cenário antes de qualquer decisão terapêutica definitiva.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A histerectomia total imediata é uma conduta desproporcional e prematura como primeira escolha. Não há diagnóstico de malignidade confirmado, e a cirurgia radical não é indicada sem antes realizar a investigação histológica. A histerectomia é reservada para casos de carcinoma endometrial confirmado, falha do tratamento clínico ou sangramento refratário. Além disso, a paciente é obesa e diabética, o que aumenta o risco cirúrgico — a decisão de operar deve ser baseada em diagnóstico e planejamento adequados, não como abordagem inicial.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Solicitar hemograma e ferritina para orientar reposição férrica é um passo complementar importante, pois a paciente apresenta palidez, fadiga e provável anemia ferropriva secundária ao sangramento. No entanto, não é a conduta inicial prioritária. A investigação da causa do sangramento — com biópsia endometrial — é o primeiro passo. A reposição de ferro pode e deve ser feita em paralelo, mas não substitui a necessidade de excluir malignidade. A alternativa é incompleta porque aborda apenas a consequência (anemia) e não a causa (sangramento uterino anormal).
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre tratar o sintoma e investigar a causa. O candidato que associa "sangramento irregular" a "disfunção hormonal" e escolhe o anticoncepcional oral (A) ou o ácido tranexâmico (B) cai na armadilha. A chave é identificar os fatores de risco (idade ≥ 45, obesidade, diabetes) e o endométrio espessado (14 mm) — isso obriga à biópsia antes de qualquer tratamento. Lembre-se: em perimenopausa com fatores de risco, o sangramento é câncer até que se prove o contrário.
PEGA ESSA DICA!
Na prova, quando a paciente tiver ≥ 45 anos OU fatores de risco (obesidade, anovulação crônica, diabetes, uso de tamoxifeno, história familiar) e apresentar sangramento uterino anormal, a resposta quase sempre será biópsia endometrial (histeroscopia ou biópsia de Pipelle). O tratamento hormonal e os antifibrinolíticos são para casos sem indicação de biópsia ou após investigação negativa. Grave: investigar antes de tratar.