Questão de Medicina — Ginecologia e Obstetrícia — FGV 2025
Medicina›Ginecologia e Obstetrícia
Código
fg114378
Banca
FGV
Órgão
HUEM
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Residência Médica - Prova Geral
Paciente de 17 anos procura consulta por ausência de menstruação desde a puberdade. Refere desenvolvimento mamário desde os 13 anos e presença de pelos pubianos normais. Nega galactorreia, hirsutismo ou sintomas vasomotores. Ao exame físico, a genitália externa apresenta-se normal. Ultrassonografia pélvica mostra útero ausente e ovários normais.O diagnóstico mais provável é
Asíndrome de Mayer Rokitansky-Küster-Hauser.
Bsíndrome de Turner.
Chiperprolactinemia.
Dinsuficiência ovariana prematura.
Esíndrome de Asherman.
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GabaritoA — síndrome de Mayer Rokitansky-Küster-Hauser.
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Amenorreia primária: diagnóstico diferencial
Gabarito: letra A. O quadro é de síndrome de Mayer-Rokitansky-Küster-Hauser (MRKH): paciente com caracteres sexuais secundários normais (mamas e pelos pubianos presentes), genitália externa normal, útero ausente e ovários normais à ultrassonografia — a tríade clássica de agenesia mülleriana. A ausência de útero com ovários funcionantes e fenótipo feminino normal aponta diretamente para a MRKH, que é a segunda causa mais comum de amenorreia primária.
A amenorreia primária é definida como a ausência de menstruação até os 16 anos com caracteres sexuais secundários presentes, ou até os 14 anos na ausência deles. A investigação inicial se baseia na presença ou ausência desses caracteres. Quando estão presentes (como no caso), o próximo passo é avaliar a anatomia do trato genital — permeabilidade himenal, presença de septos vaginais e de útero. A ultrassonografia pélvica é o exame de imagem inicial para essa avaliação.
Na paciente descrita, o desenvolvimento mamário desde os 13 anos e pelos pubianos normais indicam que o eixo hipotálamo-hipófise-ovariano está funcionante, com produção adequada de estrogênios e androgênios. A genitália externa normal afasta causas de virilização ou insensibilidade androgênica. A ausência de útero com ovários normais à ultrassonografia é o achado-chave: aponta para uma malformação mülleriana, especificamente a agenesia uterina.
A síndrome de Mayer-Rokitansky-Küster-Hauser é caracterizada por aplasia congênita do útero e da porção superior da vagina, com desenvolvimento normal dos caracteres sexuais secundários, pois os ovários são funcionantes e o eixo reprodutivo está íntegro. As portadoras têm cariótipo 46,XX e níveis hormonais (LH, FSH e estradiol) normais. A incidência é estimada em 1:4.500 mulheres nascidas. É comum a associação com malformações renais (agenesia unilateral, rim pélvico), vertebrais e, mais raramente, cardíacas.
O diagnóstico diferencial mais importante é com a síndrome de insensibilidade completa aos androgênios (síndrome de Morris), na qual também há ausência de útero e vagina rudimentar, mas o cariótipo é 46,XY e os níveis de testosterona são semelhantes aos de homens normais. Na MRKH, o cariótipo é 46,XX. A distinção é crucial para o manejo: na síndrome de Morris, há indicação de orquiectomia após a puberdade pelo risco de malignização dos testículos ectópicos, enquanto na MRKH não há necessidade de reposição hormonal, pois os ovários funcionam normalmente.
A pegadinha da questão está em reconhecer que a ausência de útero com ovários normais e caracteres sexuais secundários presentes é patognomônica de agenesia mülleriana, e não de outras causas de amenorreia. A banca explora a confusão com a síndrome de Turner, que cursa com disgenesia gonadal e ausência de caracteres sexuais secundários, e com a hiperprolactinemia, que não causa agenesia uterina. O raciocínio clínico deve seguir a sequência: caracteres sexuais presentes → avaliar anatomia → útero ausente + ovários normais → MRKH.
Diagnóstico
Cariótipo
Útero
Ovários
Caracteres sexuais secundários
Causa
Síndrome de MRKH (gabarito)
46,XX
Ausente
Normais e funcionantes
Presentes
Malformação mülleriana congênita
Síndrome de Turner
45,X ou mosaicismo
Presente (infantil)
Disgenéticos (streak gonads)
Ausentes/atrasados
Disgenesia gonadal
Hiperprolactinemia
Normal
Presente
Normais
Presentes
Distúrbio hormonal hipofisário
Insuficiência ovariana prematura
Normal
Presente
Falência precoce
Presentes (com hipoestrogenismo)
Falência ovariana antes dos 40 anos
Síndrome de Asherman
Normal
Presente (com sinéquias)
Normais
Presentes
Sequela adquirida (curetagem, infecção)
Amenorreia primária
1Caracteres sexuais presentes
Avaliar anatomia pélvica
Útero ausente + ovários normais
MRKH (46,XX)
Insensibilidade androgênica (46,XY)
Útero presente
Obstrução do fluxo
Síndrome de Asherman
2Caracteres sexuais ausentes
Disgenesia gonadal (Turner)
Defeitos hipotalâmicos/hipofisários
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Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A síndrome de Mayer-Rokitansky-Küster-Hauser é a causa mais provável. A paciente apresenta todos os critérios: amenorreia primária com caracteres sexuais secundários normais (mamas e pelos pubianos), genitália externa normal e ultrassonografia mostrando útero ausente com ovários normais. Isso configura a agenesia mülleriana, na qual há aplasia congênita do útero e da porção superior da vagina, mas os ovários são funcionantes, mantendo o eixo hormonal íntegro e o desenvolvimento puberal normal. O cariótipo é 46,XX e os níveis de FSH, LH e estradiol são normais.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A síndrome de Turner é uma disgenesia gonadal, caracterizada por cariótipo 45,X ou mosaicismo, e cursa com ausência ou atraso dos caracteres sexuais secundários — as pacientes não desenvolvem mamas espontaneamente e apresentam gônadas disgenéticas (streak gonads). Na paciente descrita, o desenvolvimento mamário desde os 13 anos e pelos pubianos normais afastam essa hipótese. Além disso, na síndrome de Turner, a ultrassonografia mostraria ovários disgenéticos ou ausentes, não ovários normais. A baixa estatura e outras características fenotípicas (pescoço alado, tórax em barril) também estariam presentes.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A hiperprolactinemia é uma causa de amenorreia secundária, não primária, e não explica a ausência de útero. A paciente nega galactorreia, que é o sintoma clássico da hiperprolactinemia, e não há relato de uso de medicações (causa mais comum). Além disso, a hiperprolactinemia não causa agenesia uterina — o útero estaria presente na ultrassonografia. O quadro descrito é de uma malformação anatômica congênita, não de um distúrbio hormonal hipofisário.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A insuficiência ovariana prematura (IOP) é caracterizada por falência ovariana antes dos 40 anos, com FSH elevado e sintomas de hipoestrogenismo (fogachos, ressecamento vaginal, dispareunia). Na paciente descrita, os ovários são normais à ultrassonografia e os caracteres sexuais secundários estão presentes, indicando função ovariana preservada. A IOP não causa agenesia uterina — o útero estaria presente. Além disso, a IOP é causa de amenorreia secundária, não primária, e a paciente nunca menstruou desde a puberdade.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A síndrome de Asherman é uma causa de amenorreia secundária, resultante de sinéquias intrauterinas, geralmente após curetagens, endometrites ou cirurgias uterinas. A paciente tem 17 anos, nunca menstruou e não tem histórico de procedimentos uterinos. Além disso, a síndrome de Asherman ocorre em um útero previamente formado — na ultrassonografia, o útero estaria presente, com possível obliteração da cavidade. No caso, o útero é ausente, o que indica uma malformação congênita, não uma sequela adquirida.
Gabarito: letra A — síndrome de Mayer-Rokitansky-Küster-Hauser, caracterizada por agenesia mülleriana com útero ausente, ovários funcionantes e caracteres sexuais secundários normais.