Questão de Medicina — Pediatria e Neonatologia — FGV 2025
- Código
- fg114393
- Banca
- FGV
- Órgão
- HUEM
- Ano
- 2025
- Nível
- Superior
- Cargo
- Residência Médica - Prova Geral
- Adermatite atópica.
- Bdermatite de contato.
- Cexantema viral.
- Descabiose.
- ETinea cruris.
GabaritoD — escabiose.
Gabarito: letra D. O quadro descrito — lesões papulovesiculares eritematosas, muito pruriginosas, acometendo espaços interdigitais, axilas, punhos e regiões interglúteas, com a mãe apresentando lesões semelhantes — é altamente sugestivo de escabiose (sarna humana), uma ectoparasitose causada pelo Sarcoptes scabiei. O diagnóstico é essencialmente clínico, baseado na tríade: prurido intenso (principalmente noturno), lesões em topografia característica (interdígitos, punhos, axilas, região interglútea) e história de contato domiciliar com quadro semelhante.
A escabiose é uma infecção parasitária da pele, causada pelo ácaro Sarcoptes scabiei var. hominis. A fêmea do ácaro penetra na camada córnea da epiderme, onde escava túneis e deposita ovos, desencadeando uma reação de hipersensibilidade que resulta em prurido intenso, que se acentua à noite. As lesões típicas são pápulas eritematosas, vesículas e túneis (linhas finas e serpiginosas), frequentemente com escoriações por coçadura. A distribuição é característica: espaços interdigitais das mãos, face interna dos punhos, axilas, região periumbilical, nádegas, região interglútea, genitália (pênis, escroto) e, em lactentes, regiões palmoplantares. A face e o pescoço são poupados em crianças maiores e adultos, mas podem ser acometidos em lactentes.
O diagnóstico é clínico, mas pode ser confirmado pela raspagem dos túneis com lâmina de bisturi, diluindo o material em óleo mineral e examinando ao microscópio para identificar o parasita, seus ovos ou fezes. O tratamento de escolha é a permetrina a 5% em creme, aplicada à noite em todo o corpo (do pescoço para baixo), removida após 8 a 14 horas, com repetição em 1 a 2 semanas se necessário. A ivermectina oral (200 µg/kg em dose única, repetida em 7 a 14 dias) é alternativa eficaz. É fundamental tratar todos os contatos domiciliares simultaneamente, mesmo os assintomáticos, para evitar reinfecção, e lavar roupas de cama e vestuário em água quente.
A principal pegadinha desta questão é a confusão com outras dermatoses pruriginosas, especialmente a dermatite atópica e a dermatite de contato. A dermatite atópica em escolares (fase juvenil, 2-12 anos) acomete tipicamente as regiões flexurais (poplíteas e cubitais), punhos e tornozelos, com lesões eczematosas e liquenificação, mas não tem predileção por espaços interdigitais e região interglútea, e não há história de contato domiciliar com quadro semelhante. A dermatite de contato ocorre no local da exposição ao alérgeno/irritante, sem a distribuição característica da escabiose. O exantema viral apresenta-se com máculas e pápulas difusas, geralmente associado a sintomas sistêmicos (febre, mal-estar), sem prurido noturno intenso e sem acometimento interdigital. A Tinea cruris é uma infecção fúngica que acomete a região inguinal e face interna das coxas, com placas eritematosas anulares de bordas bem delimitadas, mas não acomete espaços interdigitais das mãos nem axilas, e não há o padrão de contágio familiar.
Guarde a tríade que decide esta questão: prurido noturno + topografia interdigital/interglútea + contato domiciliar acometido. É exatamente essa combinação que separa a escabiose das demais alternativas.
A dermatite atópica (DA) é uma doença inflamatória crônica da pele, de base imunológica (hipersensibilidade), com forte componente genético (atopia). Na fase juvenil (2-12 anos), as lesões eczematosas predominam nas regiões flexurais (poplíteas e cubitais), punhos e tornozelos, com liquenificação progressiva. Embora seja muito pruriginosa, não apresenta a topografia característica da escabiose (espaços interdigitais, axilas, região interglútea) e não há o padrão de contágio familiar descrito no enunciado (a mãe com lesões semelhantes). O diagnóstico de DA exige prurido + 3 ou mais critérios (história de dermatite flexural, história de atopia pessoal/familiar, pele seca, lesões antes dos 2 anos, eczema persistente) — nenhum deles se encaixa no quadro apresentado.
A dermatite de contato é uma reação inflamatória da pele decorrente do contato com substâncias irritantes (dermatite irritativa) ou alérgenos (dermatite alérgica, hipersensibilidade tipo IV). As lesões (eritema, vesículas, descamação) ocorrem no local da exposição ao agente causal, como produtos químicos, metais (níquel), cosméticos, plantas etc. No caso descrito, a distribuição das lesões (interdígitos, axilas, punhos, região interglútea) é simétrica e característica da escabiose, e não há relato de exposição a um agente específico. Além disso, o acometimento da mãe com lesões semelhantes aponta para transmissão de pessoa a pessoa, não para um contato comum com um irritante.
Os exantemas virais (como sarampo, rubéola, enteroviroses, mononucleose) caracterizam-se por máculas e pápulas eritematosas difusas, geralmente acompanhadas de sintomas sistêmicos (febre, mal-estar, adenopatias, sintomas respiratórios ou gastrointestinais). A distribuição é centrífuga ou centrípeta, conforme o vírus, mas não há predileção por espaços interdigitais, axilas ou região interglútea. O prurido pode estar presente, mas não é o sintoma dominante e não tem o caráter noturno da escabiose. A história de contato domiciliar (mãe com lesões semelhantes) também não é típica de exantema viral, que se dissemina por vias respiratórias ou feco-oral, não por contato cutâneo direto.
A escabiose é a hipótese diagnóstica correta. O quadro clínico é clássico: lesões papulovesiculares eritematosas, muito pruriginosas (prurido intenso, noturno), acometendo espaços interdigitais, axilas, punhos e regiões interglúteas — topografia característica da infecção pelo Sarcoptes scabiei. O dado epidemiológico decisivo é a mãe apresentando lesões semelhantes, indicando transmissão por contato íntimo/domiciliar, padrão típico da escabiose. O diagnóstico é clínico; a confirmação pode ser feita por raspagem dos túneis e exame microscópico (identificação do ácaro, ovos ou fezes). O tratamento envolve permetrina tópica a 5% ou ivermectina oral, com tratamento simultâneo de todos os contatos domiciliares.
A Tinea cruris é uma dermatofitose (infecção fúngica) que acomete preferencialmente a região inguinal, face interna das coxas e nádegas, com placas eritematosas anulares, bordas bem delimitadas e descamação, frequentemente associada a prurido. Embora a região interglútea possa ser acometida, a Tinea cruris não acomete espaços interdigitais das mãos nem axilas, e não apresenta o padrão de transmissão domiciliar descrito (a mãe com lesões semelhantes). O quadro descrito, com acometimento múltiplo e simétrico de dobras e regiões interdigitais, é muito mais compatível com escabiose. Além disso, a Tinea cruris é mais comum em adolescentes e adultos, especialmente do sexo masculino, e está associada a fatores como umidade e calor.
Gabarito: letra D — escabiose, pela tríade clássica: prurido noturno intenso, topografia interdigital/interglútea e contato domiciliar acometido.
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