Uma mulher de 78 anos, portadora de hipertensão controlada, apresenta colelitíase sintomática e foi indicada para colecistectomia eletiva. Relata fadiga aos mínimos esforços, histórico de duas quedas nos últimos 6 meses e perda de peso não intencional de 5 kg no último ano.No exame físico:• IMC 20 kg/m² ;• pressão arterial 128/70 mmHg;• FC 74 bpm;• ausculta cardíaca normal. A avaliação laboratorial está dentro da normalidade.Para essa paciente, a conduta mais adequada quanto à avaliação de risco cirúrgico é
Aprosseguir com a cirurgia sem necessidade de avaliação adicional, pois não há doença cardíaca ativa.
Bcancelar a cirurgia, pois a fragilidade contra-indica qualquer procedimento eletivo.
Cavaliar a fragilidade como fator de risco independente e considerar medidas de otimização pré-operatória, incluindo suporte nutricional e fisioterapia.
Dsolicitar teste ergométrico, pois pacientes idosos devem sempre ser submetidos a estratificação funcional antes da cirurgia.
Esolicitar ecocardiograma de rotina para todos os pacientes idosos antes de qualquer cirurgia abdominal.
Revelar gabarito e comentário▾
GabaritoC — avaliar a fragilidade como fator de risco independente e considerar medidas de otimização pré-operatória, incluindo suporte nutricional e fisioterapia.
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
Avaliação de risco cirúrgico em idosos: o papel da fragilidade
Gabarito: letra C. A paciente idosa apresenta sinais clássicos de fragilidade — fadiga aos mínimos esforços, duas quedas em 6 meses e perda de peso não intencional de 5 kg no último ano —, que é um fator de risco independente para complicações pós-operatórias, mesmo na ausência de doença cardíaca ativa. A conduta correta é avaliar a fragilidade formalmente e otimizar o paciente no pré-operatório (suporte nutricional, fisioterapia, revisão de medicações), e não simplesmente liberar a cirurgia ou cancelá-la. Essa abordagem está alinhada com as diretrizes de avaliação pré-operatória, que priorizam a condição funcional global sobre a idade cronológica.
A fragilidade é uma síndrome geriátrica caracterizada pela diminuição da reserva fisiológica e da resistência a estressores, resultando em maior vulnerabilidade a desfechos adversos. No contexto cirúrgico, ela se traduz em maior risco de complicações, maior tempo de internação, maior mortalidade e pior recuperação funcional. A avaliação da fragilidade não substitui a avaliação cardíaca tradicional (como o risco de eventos cardíacos pelo índice de Lee), mas a complementa, pois captura dimensões que os escores cardíacos não preveem — como sarcopenia, desnutrição e capacidade funcional reduzida.
A paciente em questão tem 78 anos, IMC de 20 kg/m² (limítrofe para baixo peso), fadiga, quedas e perda de peso — todos componentes do fenótipo de fragilidade. A hipertensão está controlada (PA 128/70 mmHg), a ausculta cardíaca é normal e os exames laboratoriais estão dentro da normalidade. Isso significa que, pela avaliação cardíaca tradicional, ela não tem doença cardíaca ativa e o risco de eventos cardíacos maiores é baixo. No entanto, a fragilidade é um preditor independente de mau prognóstico cirúrgico, e ignorá-la seria um erro. A conduta adequada é reconhecer a fragilidade, avaliá-la com instrumentos validados (como a Escala de Fragilidade Clínica ou o fenótipo de Fried) e implementar medidas de otimização pré-operatória, como suporte nutricional, fisioterapia e revisão da polifarmácia.
A otimização pré-operatória da fragilidade é uma estratégia conhecida como pré-habilitação. Ela envolve intervenções multidisciplinares — exercício físico, nutrição, revisão de medicamentos, controle de comorbidades — realizadas no período que antecede a cirurgia, com o objetivo de melhorar a reserva fisiológica e reduzir complicações. No caso de uma colecistectomia eletiva, que é uma cirurgia de baixo risco, a pré-habilitação pode ser feita em poucas semanas e tem potencial de melhorar significativamente o desfecho. Cancelar a cirurgia seria uma conduta extremada e inadequada, pois a paciente tem indicação cirúrgica (colelitíase sintomática) e a fragilidade, embora aumente o risco, não é contraindicação absoluta para procedimentos eletivos.
A distinção crucial aqui é entre avaliação de risco cardíaco e avaliação de risco global do paciente idoso. A primeira, baseada em diretrizes como as da ACC/AHA, foca em doença cardíaca ativa, capacidade funcional e tipo de cirurgia. A segunda, mais abrangente, incorpora a fragilidade, a desnutrição, a sarcopenia e o declínio funcional. A banca explora exatamente essa lacuna: o candidato que se fixa apenas na avaliação cardíaca (e conclui que não há necessidade de avaliação adicional) erra, pois ignora a fragilidade. O candidato que superestima a fragilidade (e cancela a cirurgia) também erra, pois a fragilidade não é contraindicação, mas sim um alvo de otimização.
A pegadinha central desta questão é a tentação de aplicar algoritmos cardíacos de forma mecânica e ignorar a avaliação geriátrica ampla. A paciente não tem doença cardíaca ativa, então a alternativa A parece atraente. Mas a presença de fragilidade muda a conduta: ela precisa ser avaliada e otimizada, não ignorada. A alternativa C captura exatamente essa nuance — avaliar a fragilidade como fator de risco independente e considerar medidas de otimização pré-operatória.
Critério
Avaliação cardíaca tradicional (A/D/E)
Avaliação geriátrica ampla (C)
Foco principal
Doença cardíaca ativa, capacidade funcional, tipo de cirurgia
Escala de Fragilidade Clínica, fenótipo de Fried, avaliação funcional
Papel da fragilidade
Não prevista
Fator de risco independente para complicações
Conduta na paciente
Liberar cirurgia (A) ou solicitar exames de rotina (D/E)
Avaliar fragilidade e otimizar com pré-habilitação (C)
Resultado
Ignora risco global
Reduz complicações e melhora desfecho
Fragilidade no pré-operatório
1Sinais na paciente
Fadiga aos mínimos esforços
Duas quedas em 6 meses
Perda de peso não intencional
2Conduta correta
Avaliar fragilidade formalmente
Otimização pré-operatória
Suporte nutricional
Fisioterapia
3Erros comuns
Ignorar fragilidade (só risco cardíaco)
Cancelar cirurgia eletiva
Teste ergométrico de rotina
Ecocardiograma de rotina
LEVEL · soulevel.com.br
Alternativa A — ❌ Incorreta
Afirma que se pode prosseguir com a cirurgia sem avaliação adicional porque não há doença cardíaca ativa. O erro está em limitar a avaliação pré-operatória ao risco cardíaco. A paciente apresenta sinais de fragilidade (fadiga, quedas, perda de peso), que é um fator de risco independente para complicações cirúrgicas, mesmo com coração normal. A conduta correta é avaliar a fragilidade e otimizar o paciente, não simplesmente liberar a cirurgia.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Afirma que a fragilidade contra-indica qualquer procedimento eletivo. Isso é um erro de generalização. A fragilidade aumenta o risco, mas não é contraindicação absoluta. A colecistectomia eletiva é uma cirurgia de baixo risco, e a paciente tem indicação clara (colelitíase sintomática). A conduta adequada é otimizar a paciente no pré-operatório (pré-habilitação), não cancelar a cirurgia. Cancelar um procedimento indicado por causa da fragilidade, sem tentar otimização, é uma conduta inadequada e privaria a paciente de um tratamento benéfico.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Esta é a conduta mais adequada. A paciente apresenta sinais de fragilidade (fadiga, duas quedas em 6 meses, perda de peso não intencional de 5 kg), que é um fator de risco independente para complicações pós-operatórias. A conduta correta é avaliar a fragilidade formalmente (com instrumentos validados) e considerar medidas de otimização pré-operatória, como suporte nutricional e fisioterapia (pré-habilitação). Isso está alinhado com as diretrizes de avaliação pré-operatória em idosos, que priorizam a condição funcional global sobre a idade cronológica. A cirurgia não deve ser cancelada, mas o paciente deve ser preparado adequadamente.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Afirma que pacientes idosos devem sempre ser submetidos a teste ergométrico antes da cirurgia. Isso é uma generalização indevida. O teste ergométrico é indicado seletivamente, com base na avaliação clínica (capacidade funcional, risco cardíaco, tipo de cirurgia). Não é um exame de rotina para todos os idosos. No caso da paciente, ela não tem doença cardíaca ativa, tem boa capacidade funcional (consegue realizar atividades da vida diária, apesar da fadiga) e a cirurgia é de baixo risco. Portanto, o teste ergométrico não é indicado. A avaliação da fragilidade é mais relevante que o teste ergométrico neste caso.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Afirma que se deve solicitar ecocardiograma de rotina para todos os pacientes idosos antes de qualquer cirurgia abdominal. Isso também é uma generalização indevida. O ecocardiograma é indicado seletivamente, quando há suspeita de doença cardíaca estrutural (sopros, insuficiência cardíaca, etc.) ou quando o exame pode mudar a conduta. Não é um exame de rotina para todos os idosos. No caso da paciente, a ausculta cardíaca é normal e não há suspeita de doença cardíaca, portanto o ecocardiograma não é indicado. A avaliação da fragilidade é mais relevante que o ecocardiograma neste caso.