Pular para o conteúdo principal

Questão de Medicina — Doenças Reumatológicas e do Sistema Imunológico — FGV 2025

MedicinaDoenças Reumatológicas e do Sistema Imunológico
Código
fg114434
Banca
FGV
Órgão
HUEM
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Residência Médica - Prova Geral
Uma mulher de 35 anos apresenta episódios recorrentes de mudança de coloração e dor nos dedos das mãos, ao serem expostos ao frio. Refere que os dedos ficam inicialmente pálidos e dormentes, depois arroxeados, tornando-se em seguida eritematosos e dolorosos.Relata, ainda, fadiga, rigidez em mãos e punhos, pirose e disfagia de condução para alimentos sólidos. Ao exame, observa-se espessamento cutâneo na região das mãos, com esclerodactilia e redução da abertura oral. O exame físico pulmonar, cardiovascular e abdominal é normal. Exames laboratoriais revelam fator antinuclear (ANA) positivo, com padrão centromérico na imunofluorescência.O diagnóstico mais provável é
  1. Alúpus eritematoso sistêmico.
  2. Bmiastenia gravis.
  3. Cpolimiosite.
  4. Desclerose sistêmica cutânea limitada.
  5. Ehipotireoidismo de Hashimoto.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — esclerose sistêmica cutânea limitada.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Esclerose sistêmica: subtipos e diagnóstico

Gabarito: letra D. O quadro — fenômeno de Raynaud trifásico, esclerodactilia, redução da abertura oral, disfagia de condução, ANA com padrão centromérico e ausência de acometimento visceral relevante — é a apresentação clássica da esclerose sistêmica cutânea limitada (antiga CREST). O padrão centromérico do ANA é o marcador sorológico que fecha o diagnóstico e o distingue da forma difusa.

A esclerose sistêmica (ES) é uma doença autoimune do tecido conjuntivo caracterizada por fibrose cutânea e visceral, vasculopatia (fenômeno de Raynaud) e autoanticorpos específicos. Ela se divide em dois grandes subtipos, definidos pela extensão do espessamento cutâneo: a forma cutânea limitada (acometimento distal a cotovelos e joelhos, poupando o tronco) e a forma cutânea difusa (acometimento proximal, incluindo tronco). Essa distinção não é meramente topográfica — ela carrega implicações prognósticas e sorológicas importantes.

O fenômeno de Raynaud descrito no enunciado (palidez → cianose → eritema, desencadeado pelo frio) é o sintoma inicial em cerca de 90% dos pacientes com ES e costuma preceder o diagnóstico em anos. A esclerodactilia (espessamento cutâneo dos dedos) e a microstomia (redução da abertura oral) são consequências diretas da fibrose cutânea. A disfagia de condução e a pirose refletem o acometimento do esôfago — o órgão interno mais frequentemente envolvido na ES, tanto na forma limitada quanto na difusa. A fadiga e a rigidez articular são manifestações constitucionais e musculoesqueléticas inespecíficas, presentes em várias doenças reumáticas.

O padrão centromérico do ANA é o dado laboratorial decisivo. Ele é altamente específico da forma cutânea limitada e está associado a um risco aumentado de hipertensão arterial pulmonar (HAP), mas a um risco menor de doença intersticial pulmonar e de crise renal esclerodérmica, quando comparado ao anticorpo anti-Scl-70 (anti-topoisomerase I), típico da forma difusa. A presença de autoanticorpos específicos para ES (anticentrômero, anti-RNA polimerase III, anti-Scl-70) é um dos critérios de classificação da doença, conforme os critérios ACR/EULAR de 2013.

A pegadinha desta questão está em não reconhecer que o padrão centromérico, somado à ausência de acometimento visceral grave (exame pulmonar, cardiovascular e abdominal normais), aponta para a forma limitada — e não para a difusa, que cursaria com espessamento proximal e maior risco de fibrose pulmonar e crise renal. Além disso, o ANA positivo isoladamente não fecha diagnóstico de lúpus: ele está presente em 95% dos pacientes com LES, mas também na maioria dos pacientes com esclerodermia e miosite, e em 15–25% dos indivíduos saudáveis. O diagnóstico diferencial se faz pela combinação de achados clínicos e sorológicos, não por um único exame.

Guarde a tríade que decide esta questão: fenômeno de Raynaud + esclerodactilia + ANA padrão centromérico = esclerose sistêmica cutânea limitada. É exatamente essa combinação que separa a alternativa correta das demais.

Critério

Esclerose Sistêmica Cutânea Limitada (Gabarito)

Lúpus Eritematoso Sistêmico (Alternativa A)

Fenômeno de Raynaud

Trifásico, presente em ~90% dos casos, frequentemente sintoma inicial

Presente em 16–40% dos casos, não é o achado central

Padrão do ANA

Centromérico (altamente específico da forma limitada)

Homogêneo ou pontilhado fino (padrão centromérico não é típico)

Acometimento cutâneo

Esclerodactilia, microstomia, espessamento cutâneo distal (poupando tronco)

Eritema malar, fotossensibilidade, úlceras orais (sem esclerodactilia)

Acometimento visceral típico

Esôfago (disfagia de condução, pirose); risco de HAP

Nefrite, serosite, envolvimento hematológico e do SNC

Diagnóstico diferencial decisivo

Combinação Raynaud + esclerodactilia + padrão centromérico

ANA positivo isoladamente não fecha diagnóstico (baixa especificidade)

Esclerose sistêmica
  • 1Cutânea limitada
    • ANA padrão centromérico
    • Raynaud + esclerodactilia
    • Risco: hipertensão pulmonar
  • 2Cutânea difusa
    • Anti-Scl-70
    • Espessamento proximal/tronco
    • Risco: fibrose pulmonar e crise renal
LEVEL · soulevel.com.br

Alternativa A — ❌ Incorreta

O lúpus eritematoso sistêmico (LES) é uma doença autoimune multissistêmica que pode cursar com fenômeno de Raynaud (em 16–40% dos casos) e ANA positivo, mas o padrão centromérico não é característico do LES — os padrões mais comuns são homogêneo e pontilhado fino. Além disso, o LES cursa com manifestações como eritema malar, fotossensibilidade, úlceras orais, artrite, serosite e nefrite, que estão ausentes no caso. O espessamento cutâneo com esclerodactilia e microstomia não faz parte do espectro típico do LES.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A miastenia gravis é uma doença autoimune da junção neuromuscular, caracterizada por fraqueza muscular flutuante (piora com o esforço e melhora com o repouso), ptose e diplopia. Não cursa com fenômeno de Raynaud, esclerodactilia, disfagia de condução ou ANA com padrão centromérico. A disfagia, quando presente na miastenia, é por fraqueza da musculatura faríngea, não por dismotilidade esofágica como na esclerose sistêmica.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A polimiosite é uma miopatia inflamatória idiopática, caracterizada por fraqueza muscular proximal e simétrica (cinturas pélvica e escapular), elevação de enzimas musculares (CK, aldolase) e, frequentemente, anticorpos específicos de miosite (anti-Jo-1, anti-SRP). Não cursa com esclerodactilia, microstomia ou padrão centromérico do ANA. Embora a disfagia possa ocorrer por acometimento da musculatura esofágica, o quadro cutâneo e o padrão sorológico afastam o diagnóstico.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A esclerose sistêmica cutânea limitada reúne todos os elementos do caso: fenômeno de Raynaud trifásico, esclerodactilia, microstomia, disfagia de condução por dismotilidade esofágica, fadiga, rigidez articular e ANA com padrão centromérico — o marcador sorológico mais específico dessa forma. A ausência de espessamento cutâneo proximal (tronco) e de acometimento visceral grave (pulmão, coração, rim) ao exame físico é compatível com a forma limitada, que tem melhor prognóstico cutâneo, mas exige vigilância para hipertensão arterial pulmonar.

Alternativa E — ❌ Incorreta

O hipotireoidismo de Hashimoto é uma doença autoimune da tireoide, caracterizada por fadiga, ganho de peso, intolerância ao frio, constipação e mixedema. Embora o ANA possa ser positivo em pacientes com tireoidite autoimune (como em outras doenças autoimunes não reumáticas), o padrão centromérico não é típico, e o quadro de Raynaud, esclerodactilia e disfagia de condução não se explica pela disfunção tireoidiana. O espessamento cutâneo do mixedema é não-depressível e difere da esclerodactilia.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a associação automática entre ANA positivo e lúpus eritematoso sistêmico, levando o candidato à letra A. Mas o ANA é um exame de baixa especificidade — está presente em 95% dos casos de LES, porém também na maioria dos casos de esclerodermia e miosite, e em 15–25% dos indivíduos saudáveis. O que decide é o padrão da imunofluorescência: o padrão centromérico é praticamente exclusivo da esclerose sistêmica cutânea limitada. Fique atento: quando a questão trouxer Raynaud + esclerodactilia + padrão centromérico, o diagnóstico é esclerose sistêmica, não lúpus.

PEGA ESSA DICA!

Para diferenciar os subtipos de esclerose sistêmica na prova, memorize a associação sorológica: anticentrômero → forma limitada (risco de HAP) e anti-Scl-70 → forma difusa (risco de fibrose pulmonar e crise renal). O padrão do ANA é o atalho mais rápido para o subtipo.

Gabarito: letra D — esclerose sistêmica cutânea limitada.

Link permanente: /questoes/fg114434