Pular para o conteúdo principal

Questão de Medicina — Clínica Médica Humana — FGV 2025

MedicinaClínica Médica Humana
Código
fg114435
Banca
FGV
Órgão
HUEM
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Residência Médica - Prova Geral
Mulher de 38 anos, com diagnóstico prévio de hipotireoidismo em uso de levotiroxina, com exames recentes (TSH e T4 livre) dentro da normalidade, procura atendimento ambulatorial por fadiga intensa, perda de 4 kg nos últimos 2 meses e náuseas recorrentes.Ao exame físico, destaca-se hiperpigmentação difusa da pele, mais evidente em áreas expostas ao Sol. Nega febre, tosse ou sudorese noturna.Os exames laboratoriais revelam:• sódio sérico de 128 mEq/L;• potássio de 6,1 mEq/L;• cortisol plasmático matinal de 2 µg/dL (valor de referência: 5–25 µg/dL);• hemoglobina de 13,2 g/dL;• leucócitos totais normais com eosinofilia leve (800/µL);• proteína C-reativa dentro da normalidade.Com base nesses achados, a fisiopatologia mais provável da condição apresentada é
  1. Aa supressão crônica do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal por uso de glicocorticoides exógenos.
  2. Ba destruição autoimune da adrenal com perda de secreção de glicocorticoides e mineralocorticoides.
  3. Ca produção ectópica de ACTH por neoplasia neuroendócrina.
  4. Da redução da secreção de ACTH pela hipófise anterior.
  5. Eo defeito congênito na conversão de colesterol em pregnenolona.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — a destruição autoimune da adrenal com perda de secreção de glicocorticoides e mineralocorticoides.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Insuficiência adrenal primária (doença de Addison)

Gabarito: letra B. O quadro clínico-laboratorial — hiperpigmentação cutânea, hiponatremia, hipercalemia, cortisol matinal baixo e eosinofilia — é a apresentação clássica da insuficiência adrenal primária (doença de Addison), cuja fisiopatologia é a destruição autoimune da glândula adrenal, com perda concomitante da secreção de glicocorticoides e mineralocorticoides. A hiperpigmentação é o dado-chave que diferencia a forma primária da secundária: na primária, a falta de cortisol retira o feedback negativo sobre a hipófise, elevando o ACTH, que estimula os melanócitos.

A insuficiência adrenal é a incapacidade do córtex da adrenal de produzir quantidades adequadas de glicocorticoides (cortisol) e, dependendo da causa, mineralocorticoides (aldosterona). Ela se divide em três grandes grupos, conforme o local da lesão:

  • Primária (doença de Addison): a lesão está na própria glândula adrenal. A causa mais comum é a adrenalite autoimune, que destrói o córtex adrenal. Como há destruição de toda a glândula, há deficiência tanto de cortisol quanto de aldosterona. A perda de aldosterona leva à hiponatremia e hipercalemia (por perda renal de sódio e retenção de potássio). A perda de cortisol retira o feedback negativo sobre a hipófise, elevando o ACTH — e é o ACTH elevado que causa a hiperpigmentação (o ACTH e o MSH compartilham o mesmo precursor, a POMC).

  • Secundária: a lesão está na hipófise anterior, com redução da secreção de ACTH. Como a aldosterona é regulada principalmente pelo sistema renina-angiotensina-aldosterona (e não pelo ACTH), a deficiência isolada de ACTH poupa a secreção de aldosterona. Por isso, não há hipercalemia e não há hiperpigmentação (o ACTH está baixo).

  • Terciária: a lesão está no hipotálamo, com redução do CRH. Clinicamente semelhante à secundária.

A distinção entre primária e secundária é feita pela dosagem de ACTH: na primária, o ACTH está elevado; na secundária/terciária, está baixo ou inapropriadamente normal. O teste de estimulação com ACTH exógeno (cosintropina) também diferencia: na primária, o cortisol não responde; na secundária, pode haver resposta (embora atrasada em casos crônicos).

No caso apresentado, a paciente tem hiponatremia (Na 128 mEq/L) e hipercalemia (K 6,1 mEq/L) — o par clássico da deficiência de aldosterona, que só ocorre na insuficiência adrenal primária. O cortisol matinal baixo (2 µg/dL) confirma a deficiência de glicocorticoide. A hiperpigmentação é a assinatura da forma primária. A eosinofilia é um achado inespecífico, mas classicamente associado à insuficiência adrenal (o cortisol suprime os eosinófilos; sua falta permite a eosinofilia).

A paciente também tem hipotireoidismo tratado e compensado (TSH e T4 livre normais), o que é um dado relevante: a associação de doença de Addison com tireoidite autoimune (Hashimoto) é comum, configurando a síndrome poliglandular autoimune tipo 2 (Addison + tireoidite + diabetes tipo 1, entre outros). Isso reforça a etiologia autoimune da insuficiência adrenal nesta paciente.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre insuficiência adrenal primária e secundária. A presença de hiperpigmentação e de hipercalemia é o que fecha o diagnóstico de primária (destruição da glândula). Na secundária (redução de ACTH), não há hiperpigmentação nem hipercalemia, pois a aldosterona é poupada. Guarde: hiperpigmentação + hipercalemia = Addison (primária); sem hiperpigmentação + sem hipercalemia = secundária/terciária.

Característica

Insuficiência Adrenal Primária (Addison)

Insuficiência Adrenal Secundária

Local da lesão

Glândula adrenal

Hipófise anterior (deficiência de ACTH)

Cortisol

↓↓ (baixo)

↓ (baixo)

Aldosterona

↓↓ (deficiente)

Preservada (regulada pelo SRAA)

ACTH

↑↑ (elevado)

↓ ou inapropriadamente normal

Hiperpigmentação

Presente (ACTH alto estimula melanócitos)

Ausente (ACTH baixo)

Hiponatremia

Presente (perda renal de sódio)

Geralmente ausente

Hipercalemia

Presente (retenção de potássio)

Ausente

Eosinofilia

Pode estar presente

Pode estar presente

Causa mais comum

Adrenalite autoimune

Supressão por glicocorticoide exógeno

1Primária (Addison)
Destruição da glândula
Hiperpigmentação (ACTH alto)
Hipercalemia (aldosterona baixa)
2Secundária (hipófise)
Redução de ACTH
Sem hiperpigmentação
Sem hipercalemia
3Terciária (hipotálamo)
Redução de CRH
Igual à secundária
Insuficiência adrenal
LEVELsoulevel.com.br
Insuficiência adrenal: Primária (Addison) (Destruição da glândula, Hiperpigmentação (ACTH alto), Hipercalemia (aldosterona baixa)); Secundária (hipófise) (Redução de ACTH, Sem hiperpigmentação, Sem hipercalemia); Terciária (hipotálamo) (Redução de CRH, Igual à secundária)

Alternativa A — ❌ Incorreta

A supressão crônica do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal por glicocorticoides exógenos causa insuficiência adrenal secundária (supressão do ACTH). Nesse caso, não haveria hiperpigmentação (o ACTH está baixo) e, por poupar a aldosterona, não haveria hipercalemia. A paciente tem hiperpigmentação e hipercalemia, o que afasta essa hipótese.

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A destruição autoimune da adrenal (adrenalite autoimune) é a causa mais comum de doença de Addison. A perda de cortisol e aldosterona explica todos os achados: hiponatremia e hipercalemia (deficiência de aldosterona), cortisol baixo (deficiência de glicocorticoide) e hiperpigmentação (ACTH elevado por falta de feedback negativo). A associação com hipotireoidismo autoimune (Hashimoto) é típica da síndrome poliglandular autoimune.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A produção ectópica de ACTH por neoplasia neuroendócrina causa síndrome de Cushing (hipercortisolismo), com cortisol elevado, não baixo. O quadro seria de ganho de peso, hiperglicemia, hipertensão, e não hiperpigmentação por insuficiência adrenal. O cortisol de 2 µg/dL afasta completamente essa hipótese.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A redução da secreção de ACTH pela hipófise anterior causa insuficiência adrenal secundária. Nesse caso, não haveria hiperpigmentação (ACTH baixo) e, por poupar a aldosterona, não haveria hipercalemia. A presença de hiperpigmentação e hipercalemia na paciente aponta para a forma primária.

Alternativa E — ❌ Incorreta

O defeito congênito na conversão de colesterol em pregnenolona (deficiência da enzima CYP11A1/desmolase) é uma causa raríssima de insuficiência adrenal congênita, que se manifesta na infância com crise adrenal neonatal e ambiguidade genital (por deficiência de todos os esteroides). Não se aplica a uma mulher de 38 anos com quadro de instalação insidiosa e associação com doença autoimune da tireoide.

Gabarito: letra B — a destruição autoimune da adrenal com perda de glicocorticoides e mineralocorticoides é a fisiopatologia da doença de Addison, que explica todos os achados da paciente.

Link permanente: /questoes/fg114435