Questão de Medicina — Oncologia — FGV 2025
- Código
- fg114436
- Banca
- FGV
- Órgão
- HUEM
- Ano
- 2025
- Nível
- Superior
- Cargo
- Residência Médica - Prova Geral
- AIntolerância à lactose.
- BColelitíase.
- CTabagismo.
- DHipercalcemia.
- ESíndrome do intestino irritável.
GabaritoC — Tabagismo.
Gabarito: letra C. O tabagismo é o fator de risco modificável mais fortemente associado ao adenocarcinoma de pâncreas, com aumento de cerca de duas vezes no risco em fumantes de longa data — exatamente o perfil do paciente (tabagista há 40 anos). As demais alternativas (intolerância à lactose, colelitíase, hipercalcemia e síndrome do intestino irritável) não são fatores de risco estabelecidos para esse tumor.
O adenocarcinoma ductal é o tipo mais comum de neoplasia maligna do pâncreas, correspondendo a cerca de 90% dos casos. Trata-se de um tumor de prognóstico sombrio: a maioria dos pacientes já apresenta doença localmente avançada ou metastática ao diagnóstico, e a sobrevida global em 5 anos é de apenas 10 a 25%. A apresentação clássica inclui icterícia obstrutiva indolor (como no caso), perda ponderal, dor abdominal e, por vezes, diabetes de início recente. O diagnóstico é confirmado por biópsia, geralmente guiada por ultrassom endoscópico, como ocorreu com o paciente.
Os fatores de risco mais bem estabelecidos para o adenocarcinoma de pâncreas são:
Tabagismo — o mais importante fator de risco modificável; aumenta o risco em aproximadamente 2 vezes, com relação dose-dependente (maior tempo e intensidade de tabagismo, maior risco).
Idade avançada — a incidência aumenta progressivamente após os 50 anos, com pico na sétima década.
História familiar — cerca de 5 a 10% dos casos têm componente hereditário (síndromes como BRCA1/BRCA2, Lynch, Peutz-Jeghers, pancreatite hereditária).
Pancreatite crônica — especialmente a forma hereditária, mas também a alcoólica.
Diabetes mellitus — tanto o de longa data quanto o de início recente (que pode ser manifestação paraneoplásica).
Obesidade — associação modesta, mas consistente.
Exposição ocupacional — a certos solventes e pesticidas.
O consumo de álcool, por si só, não é considerado um fator de risco independente para o câncer de pâncreas — sua associação se dá indiretamente, por meio do desenvolvimento de pancreatite crônica. Já a colelitíase (cálculos na vesícula biliar) não é fator de risco para neoplasia pancreática; ela se associa a outras condições, como colecistite e coledocolitíase. A intolerância à lactose e a síndrome do intestino irritável são condições funcionais ou de má absorção, sem relação com carcinogênese pancreática. A hipercalcemia, por sua vez, é uma manifestação paraneoplásica que pode ocorrer em alguns tumores (como carcinoma de células claras do rim e câncer de pulmão), mas não é fator de risco para o adenocarcinoma de pâncreas.
A pegadinha desta questão está em o enunciado descrever um paciente com múltiplos fatores potencialmente confundidores: tabagista, etilista ocasional, idoso, com perda ponderal. O candidato pode ser tentado a escolher a colelitíase (por ser uma condição biliar, e o tumor está na cabeça do pâncreas obstruindo a via biliar) ou a hipercalcemia (por ser uma alteração laboratorial que pode acompanhar neoplasias). No entanto, a pergunta é objetiva: qual fator está mais associado ao desenvolvimento do tumor — e a resposta é o tabagismo, o fator de risco modificável mais forte e bem documentado na literatura.
Guarde a distinção central: fatores de risco (o que aumenta a chance de desenvolver a doença) são diferentes de manifestações clínicas (o que a doença causa). Colelitíase e hipercalcemia podem aparecer no contexto de um paciente oncológico, mas não são fatores etiológicos do adenocarcinoma de pâncreas.
A intolerância à lactose é um distúrbio de má absorção de carboidratos, causado por deficiência da enzima lactase. Não há qualquer associação epidemiológica ou fisiopatológica entre essa condição e o desenvolvimento de adenocarcinoma de pâncreas. É um distrator que explora o sintoma de desconforto abdominal, mas não se relaciona com carcinogênese pancreática.
A colelitíase (presença de cálculos na vesícula biliar) não é fator de risco para câncer de pâncreas. Embora o paciente tenha icterícia obstrutiva por obstrução da via biliar pelo tumor na cabeça do pâncreas, a presença de cálculos biliares não aumenta o risco de neoplasia pancreática. A confusão surge porque ambas as condições podem cursar com colestase, mas a etiologia é completamente distinta.
O tabagismo é o fator de risco modificável mais fortemente associado ao adenocarcinoma de pâncreas. Estudos epidemiológicos demonstram aumento de aproximadamente 2 vezes no risco entre fumantes, com relação dose-dependente — quanto maior o tempo e a intensidade do tabagismo, maior o risco. O paciente da questão é tabagista há 40 anos, o que reforça a associação. O mecanismo envolve carcinógenos do tabaco que atingem o pâncreas tanto por via hematogênica quanto pelo refluxo biliar.
A hipercalcemia é uma síndrome paraneoplásica que pode ocorrer em diversos tumores (como carcinoma de pulmão, mama, rim e mieloma múltiplo), mas não é um fator de risco para o desenvolvimento de adenocarcinoma de pâncreas. Na verdade, a hipercalcemia no câncer de pâncreas é rara. A alternativa inverte o raciocínio: confunde uma possível consequência (manifestação paraneoplásica) com um fator causal.
A síndrome do intestino irritável (SII) é um distúrbio funcional gastrointestinal caracterizado por dor abdominal e alteração do hábito intestinal, sem doença orgânica subjacente. Não há evidência de que a SII aumente o risco de neoplasias pancreáticas. É um distrator que explora o sintoma de desconforto abdominal difuso relatado pelo paciente, mas que não tem relação etiológica com o tumor.
A banca mistura fatores de risco com manifestações clínicas. O paciente tem icterícia (sugerindo obstrução biliar — o que pode levar o candidato a pensar em colelitíase) e perda ponderal (que pode lembrar hipercalcemia paraneoplásica). Mas a pergunta é sobre o que causa o tumor, não o que ele causa. Tabagismo é o fator de risco clássico e mais forte — decore: câncer de pâncreas + tabagismo = associação direta.
Para questões de oncologia, separe mentalmente os fatores em dois grupos: (1) modificáveis — tabagismo, obesidade, álcool (este indireto, via pancreatite crônica), dieta; (2) não modificáveis — idade, sexo, história familiar, mutações genéticas. Quando a banca perguntar "fator mais associado", priorize o tabagismo, a menos que haja história familiar forte ou síndrome genética no enunciado.
Gabarito: letra C
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