Questão de Medicina — Doenças Infecto-Parasitárias — FGV 2025
Medicina›Doenças Infecto-Parasitárias
Código
fg114439
Banca
FGV
Órgão
HUEM
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Residência Médica - Prova Geral
Uma mulher de 60 anos procura o pronto-socorro com quadro de dor abdominal tipo cólica em quadrante inferior e diarreia há quatro dias. Refere de seis a sete evacuações diárias, aquosas, sem muco ou sangue. Relata náuseas, mas sem vômitos ou febre. Os sintomas iniciaram cerca de uma semana após o término de um tratamento de dez dias com clindamicina para abscesso dentário. Nega doenças intestinais prévias, viagens recentes ou contato com pessoas com sintomas semelhantes.No exame físico, encontra-se afebril, com dor à palpação no quadrante inferior esquerdo, sem sinais de irritação peritoneal. Exames laboratoriais mostram função renal preservada e hemograma sem alterações significativas.Dos agentes a seguir, assinale o mais provável responsável pelo quadro clínico dessa paciente.
AEscherichia coli enteroinvasiva.
BShigella spp.
CClostridium difficile.
DSalmonella enterica.
EEscherichia coli entero-hemorrágica.
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GabaritoC — Clostridium difficile.
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Diarreia associada a antibióticos: Clostridioides difficile
Gabarito: letra C. O quadro — diarreia aquosa de início cerca de uma semana após uso de clindamicina, sem sangue, sem febre, com dor em fossa ilíaca esquerda — é o padrão clássico de diarreia associada a antibióticos por Clostridioides difficile (antigo Clostridium difficile). O gatilho é o uso recente de antibiótico de amplo espectro, e a clindamicina é um dos agentes mais classicamente implicados.
A diarreia infecciosa aguda se divide em dois grandes padrões fisiopatológicos, e é essa divisão que resolve a questão. A diarreia inflamatória é causada por patógenos que invadem o epitélio ou produzem citotoxinas, acometendo o íleo distal e o cólon; cursa com fezes de pequeno volume, com muco, pus ou sangue, febre, tenesmo e dor abdominal importante. Já a diarreia não inflamatória é causada por patógenos que aderem à mucosa do intestino delgado e produzem enterotoxinas, resultando em fezes volumosas e aquosas, sem produtos patológicos, geralmente sem febre significativa.
A paciente apresenta diarreia aquosa de grande volume (6–7 evacuações/dia), sem muco ou sangue, sem febre — o que afasta as causas inflamatórias clássicas como Shigella, Salmonella e E. coli enteroinvasiva. O dado epidemiológico decisivo é o uso recente de clindamicina: a antibioticoterapia de amplo espectro altera a flora colônica normal, que é a principal barreira contra a colonização por C. difficile. A toxina A (enterotoxina) e a toxina B (citotoxina) produzidas pela bactéria lesam o epitélio colônico, causando desde diarreia leve até colite pseudomembranosa. O diagnóstico é feito pela pesquisa das toxinas A e B nas fezes, e o tratamento de primeira linha envolve vancomicina oral ou fidaxomicina.
A distinção que importa aqui é entre os patógenos que causam diarreia inflamatória (Shigella, Salmonella, Campylobacter, E. coli enteroinvasiva, E. coli entero-hemorrágica) e os que causam diarreia não inflamatória (vírus, Vibrio cholerae, E. coli enterotoxigênica, C. difficile em suas formas leves). A presença de sangue, febre e tenesmo aponta para o primeiro grupo; a ausência desses sinais, somada ao uso de antibiótico, aponta fortemente para C. difficile.
A pegadinha da banca está em oferecer patógenos que causam diarreia inflamatória (Shigella, Salmonella, E. coli enteroinvasiva, E. coli entero-hemorrágica) como distratores, quando o quadro é claramente não inflamatório e tem um gatilho epidemiológico específico. O candidato que não associa o uso de clindamicina à diarreia por C. difficile pode se perder entre as bactérias enteroinvasivas. Guarde o par: antibiótico recente + diarreia aquosa = C. difficile até prova em contrário.
Diarreia infecciosa aguda
1Inflamatória (invasão/citotoxina)
Febre, sangue, muco, tenesmo
Shigella, Salmonella, EIEC, EHEC
2Não inflamatória (enterotoxina)
Aquosa, volumosa, sem sangue
Vírus, Vibrio, ETEC
C. difficile (formas leves)
Gatilho: antibiótico recente
Clindamicina (clássico)
Toxinas A e B
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Alternativa A — ❌ Incorreta
A Escherichia coli enteroinvasiva (EIEC) causa diarreia inflamatória, com fezes de pequeno volume contendo muco, pus e sangue, além de febre e tenesmo. O quadro da paciente é de diarreia aquosa, sem sangue e sem febre, o que não se encaixa. Além disso, não há o gatilho epidemiológico do uso de antibiótico.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A Shigella spp. é um patógeno enteroinvasivo que causa disenteria: febre alta, dor abdominal em cólica, tenesmo e fezes com sangue e muco. A paciente não apresenta nenhum desses sinais — a diarreia é aquosa, sem sangue e sem febre. O uso de clindamicina não é um fator de risco específico para shigelose.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
O Clostridioides difficile é a causa mais provável de diarreia associada a antibióticos. A clindamicina, usada pela paciente por 10 dias, é um dos antibióticos mais classicamente implicados. O quadro de diarreia aquosa, sem sangue e sem febre, iniciado cerca de uma semana após o término do antibiótico, é típico. A dor em fossa ilíaca esquerda pode ocorrer pela inflamação colônica. O diagnóstico é confirmado pela pesquisa das toxinas A e B nas fezes.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A Salmonella enterica causa gastroenterite aguda, geralmente por ingestão de alimentos contaminados, com diarreia, febre, náuseas e vômitos. O quadro costuma ser autolimitado e não tem relação com uso de antibiótico. A paciente nega viagens e contato com pessoas doentes, e o gatilho principal é a clindamicina.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A Escherichia coli entero-hemorrágica (EHEC) causa diarreia sanguinolenta, geralmente sem febre e sem tenesmo, e pode evoluir com síndrome hemolítico-urêmica. A paciente tem diarreia aquosa, sem sangue, o que afasta esse diagnóstico. Além disso, não há relato de ingestão de carne mal passada ou contato com animais, fatores de risco clássicos para EHEC.
Gabarito: letra C — Clostridioides difficile, pela associação com uso recente de clindamicina e quadro de diarreia aquosa não inflamatória.