Um homem de 70 anos procura atendimento ambulatorial devido à tosse persistente e a uma fadiga, nos últimos 3 meses. Relata também perda de peso não intencional e alguns episódios de tosse acompanhados de hemoptise. É tabagista crônico, com carga de 45 maços/ano. Nega febre ou infecções respiratórias recentes.Ao exame físico, observa-se redução do murmúrio vesicular no terço superior do hemitórax direito.A tomografia de tórax evidencia massa cavitada localizada no lobo superior direito. Foi agendada broncoscopia para investigação diagnóstica complementar.Exames laboratoriais revelam:• Hemoglobina: 13,4 g/dL (VR: 13,5–17,5 g/dL);• Leucócitos: 7.200/mm³ (VR: 4.000–11.000/mm³);• Plaquetas: 275.000/mm³ (VR: 150.000–450.000/mm³);• Sódio sérico: 139 mEq/L (VR: 135–145 mEq/L);• Potássio sérico: 4,1 mEq/L (VR: 3,5–5,0 mEq/L);• Cálcio sérico: 12,5 mg/dL (VR: 8,5–10,5 mg/dL);• Albumina sérica: 4,0g/dl (VR: 3,5-5,0 g/dL);• Paratormônio: 5 pg/mL (VR: 15–65 pg/mL);• Creatinina sérica: 0,9 mg/dL (VR: 0,7–1,3 mg/dL).Com base nesse quadro clínico, o diagnóstico mais provável é
Acarcinoma de pequenas células de pulmão.
Btumor carcinoide brônquico.
Cmesotelioma pleural.
Dhamartoma pulmonar.
Ecarcinoma escamoso de pulmão.
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GabaritoE — carcinoma escamoso de pulmão.
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Carcinoma escamoso de pulmão: diagnóstico sindrômico e paraneoplásico
Gabarito: letra E. O quadro — tabagista crônico (45 maços/ano), massa cavitada em lobo superior, hemoptise e hipercalcemia com PTH suprimido — aponta para carcinoma escamoso de pulmão, que classicamente se associa à hipercalcemia humoral por produção de PTHrP (peptídeo relacionado ao paratormônio). A combinação de massa cavitada central + hipercalcemia paraneoplásica é a assinatura desse subtipo histológico.
O carcinoma escamoso (epidermoide) é um dos principais tipos de câncer de pulmão de não pequenas células (CPNPC). Ele se origina do epitélio brônquico e tem forte associação com tabagismo. Sua localização típica é central (hilar/peribrônquica), e uma característica radiológica marcante é a tendência a formar cavitações — áreas de necrose central que se comunicam com a via aérea, criando imagem de massa com nível hidroaéreo ou paredes espessas irregulares. A hemoptise é comum justamente pela invasão de vasos da mucosa brônquica, como descrito na propedêutica da hemoptise: a origem é quase sempre em vasos arteriais sob a mucosa dos brônquios, lesados por invasão neoplásica.
O dado laboratorial que fecha o diagnóstico é a hipercalcemia (cálcio 12,5 mg/dL, VR 8,5–10,5) com PTH suprimido (5 pg/mL, VR 15–65). Isso configura hipercalcemia não dependente de PTH, típica da hipercalcemia humoral maligna: o tumor produz PTHrP (proteína relacionada ao PTH), que mimetiza a ação do PTH nos ossos e rins, elevando o cálcio, mas o PTH nativo está baixo por feedback negativo. O carcinoma escamoso é o subtipo de câncer de pulmão mais associado a essa síndrome paraneoplásica. A albumina normal (4,0 g/dL) afasta a hipercalcemia por hipoalbuminemia (cálcio total corrigido seria ainda mais alto), e a creatinina normal (0,9 mg/dL) afasta insuficiência renal como causa.
Na prática, o raciocínio clínico é: paciente tabagista + massa cavitada central + hemoptise → pensar em carcinoma escamoso; a hipercalcemia com PTH baixo reforça fortemente, pois é paraneoplasia clássica desse tumor. A broncoscopia confirmará o diagnóstico histológico, mas o quadro já permite a suspeita sindrômica. As demais alternativas não explicam a combinação de cavitação + hipercalcemia paraneoplásica.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a associação automática entre tabagismo e carcinoma de pequenas células (alternativa A), que também é fortemente tabaco-relacionado. Mas o pequenas células não costuma cavitar e sua paraneoplasia clássica é a SIADH (hiponatremia) e a síndrome de Cushing — não a hipercalcemia. O sódio está normal (139 mEq/L), afastando SIADH. A cavitação + hipercalcemia com PTH baixo é a pista do escamoso.
O carcinoma de pequenas células (CPPC) é tabaco-dependente e central, mas raramente cavita — sua apresentação típica é massa hilar volumosa com linfonodomegalia mediastinal. Suas síndromes paraneoplásicas clássicas são SIADH (hiponatremia), síndrome de Cushing e síndrome de Eaton-Lambert. O sódio normal (139 mEq/L) e a massa cavitada falam contra. A hipercalcemia não é a paraneoplasia característica do CPPC.
Alternativa B — ❌ Incorreta
O tumor carcinoide brônquico é um tumor neuroendócrino de baixo grau, mais comum em pacientes mais jovens e não tabagistas. Costuma se apresentar como nódulo endobrônquico bem delimitado, com sintomas obstrutivos (tosse, hemoptise) e, raramente, cavitação. Não se associa à hipercalcemia paraneoplásica. O perfil do paciente (idoso, tabagista pesado) e a massa cavitada não se encaixam.
Alternativa C — ❌ Incorreta
O mesotelioma pleural está associado à exposição ao amianto, não ao tabagismo. Radiologicamente, manifesta-se como espessamento pleural difuso, derrame pleural e massa pleural — não como massa pulmonar cavitada em lobo superior. A hipercalcemia não é paraneoplasia típica do mesotelioma. Não há menção a exposição ocupacional no caso.
Alternativa D — ❌ Incorreta
O hamartoma pulmonar é o tumor benigno mais comum do pulmão, geralmente assintomático e achado incidental. Na TC, apresenta-se como nódulo com calcificações em "pipoca" e gordura — não como massa cavitada. Não causa sintomas constitucionais (perda de peso, fadiga) nem hipercalcemia. O quadro clínico agressivo do paciente afasta tumor benigno.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
O carcinoma escamoso de pulmão é o subtipo que melhor explica o conjunto: tabagista crônico, massa cavitada central (necrose tumoral), hemoptise (invasão vascular) e hipercalcemia com PTH suprimido (produção de PTHrP). É a paraneoplasia mais característica desse tumor. A localização no lobo superior é comum, e a cavitação é um achado radiológico típico. A broncoscopia confirmará, mas o diagnóstico sindrômico é claro.