Questão de Medicina — Cardiologia e Alterações Vasculares — FGV 2025
Medicina›Cardiologia e Alterações Vasculares
Código
fg114444
Banca
FGV
Órgão
HUEM
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Residência Médica - Prova Geral
Mulher de 60 anos, com longa história de hipertensão arterial mal controlada e tabagismo, é levada ao pronto-socorro após desenvolver cefaleia súbita, intensa, descrita como “a pior de sua vida”, durante subida de escada. Logo após o início da dor, apresentou breve perda de consciência.No momento da avaliação, encontra-se sonolenta, com fotofobia, cefaleia difusa intensa e rigidez de nuca. O exame neurológico não identificou déficit focal. Sinais vitais: PA 186 x 106 mmHg e FC 88 bpm. A tomografia computadorizada de crânio sem contraste foi inconclusiva. A punção lombar revelou líquor xantocrômico, com aumento difuso do número de hemácias em todos os tubos coletados.Assinale o mecanismo mais provável para a condição apresentada.
AAngiopatia amiloide cerebral.
BTrombose de seio venoso intracraniano.
CRuptura de aneurisma sacular cerebral.
DRuptura de veias de ponte.
ERuptura de artéria meníngea.
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GabaritoC — Ruptura de aneurisma sacular cerebral.
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Gabarito: letra C. O quadro clínico — cefaleia súbita e intensa ("a pior da vida"), perda de consciência, rigidez de nuca, TC inconclusiva e liquor xantocrômico com hemácias em todos os tubos — é clássico de hemorragia subaracnóidea (HSA), cuja causa mais comum é a ruptura de aneurisma sacular cerebral (responsável por cerca de 80% dos casos). A alternativa C é a única que nomeia o mecanismo fisiopatológico correto.
A hemorragia subaracnóidea é o extravasamento de sangue para o espaço subaracnóideo, entre a aracnoide e a pia-máter, onde circula o líquido cefalorraquidiano (LCR). O sangue irrita as meninges, causando rigidez de nuca e fotofobia, e aumenta a pressão intracraniana, podendo levar à perda de consciência. A causa mais frequente é a ruptura de um aneurisma sacular — uma dilatação focal e circunscrita da parede arterial, geralmente em bifurcações do polígono de Willis. Fatores de risco incluem hipertensão arterial, tabagismo, idade avançada e história familiar. O esforço físico (como subir escadas) pode precipitar a ruptura ao elevar a pressão arterial.
O diagnóstico é confirmado por TC de crânio sem contraste, que tem alta sensibilidade nas primeiras 24 horas. Quando a TC é inconclusiva ou negativa, a punção lombar é o próximo passo: na HSA, o liquor apresenta-se xantocrômico (amarelado) devido à degradação da hemoglobina, e as hemácias não diminuem entre o primeiro e o último tubo coletado (diferentemente de uma punção traumática, em que a contagem cai progressivamente). O contexto clínico da paciente — hipertensa, tabagista, cefaleia em trovoada durante esforço, perda de consciência e rigidez de nuca — fecha o diagnóstico de HSA por aneurisma.
A banca explora a distinção entre os diferentes tipos de hemorragia intracraniana e suas causas. É fundamental diferenciar a HSA (sangramento no espaço subaracnóideo, geralmente por aneurisma) da hemorragia intraparenquimatosa (sangramento dentro do tecido cerebral, frequentemente por hipertensão crônica ou angiopatia amiloide), do hematoma subdural (sangramento entre a dura-máter e a aracnoide, por ruptura de veias de ponte) e da trombose venosa cerebral (que causa cefaleia progressiva, não súbita). A rigidez de nuca e o liquor xantocrômico são os achados que apontam diretamente para o espaço subaracnóideo.
NÃO CAIA NESSA!
A banca tenta confundir o candidato com outras causas de hemorragia intracraniana. A chave é o liquor xantocrômico com hemácias em todos os tubos — isso é patognomônico de HSA. Na punção traumática (erro de técnica), as hemácias diminuem nos tubos seguintes. Além disso, a rigidez de nuca e a cefaleia em trovoada durante esforço são sinais clássicos de HSA, não de hemorragia intraparenquimatosa ou trombose venosa.
Característica
Hemorragia Subaracnóidea (HSA)
Hemorragia Intraparenquimatosa (HIP)
Hematoma Subdural (HSD)
Hematoma Extradural (HED)
Trombose Venosa Cerebral (TVC)
Mecanismo/causa típica
Ruptura de aneurisma sacular (80%)
Hipertensão crônica ou angiopatia amiloide
Ruptura de veias de ponte (pós-trauma)
Ruptura de artéria meníngea (pós-trauma)
Trombofilia, gestação, puerpério
Local do sangramento
Espaço subaracnóideo
Parênquima cerebral
Espaço subdural
Espaço extradural
Seios venosos (sem sangramento primário)
Início da cefaleia
Súbita ("em trovoada")
Súbita, com déficit focal
Progressiva
Intervalo lúcido + deterioração rápida
Gradual e progressiva (dias)
Líquor (punção lombar)
Xantocrômico, hemácias em todos os tubos
Pode ter sangue, mas sem padrão xantocrômico difuso
Geralmente sem alteração liquórica
Geralmente sem alteração liquórica
Sem xantocromia
Sinais meníngeos (rigidez de nuca, fotofobia)
Presentes
Ausentes
Ausentes
Ausentes
Ausentes
Hemorragia subaracnóidea (HSA): Causa mais comum (Ruptura de aneurisma sacular (80%)); Diagnóstico (TC de crânio sem contraste, Punção lombar: liquor xantocrômico); Quadro clínico (Cefaleia em trovoada, Rigidez de nuca, Perda de consciência); Fatores de risco (Hipertensão arterial, Tabagismo, Esforço físico)
Alternativa A — ❌ Incorreta
A angiopatia amiloide cerebral é causa de hemorragia intraparenquimatosa (HIP), não de HSA. Ela ocorre pela deposição de proteína amiloide nas paredes de pequenas artérias e arteríolas, tornando-as frágeis e propensas a romper dentro do parênquima cerebral. O quadro típico é de déficit neurológico focal súbito (hemiparesia, afasia), não de cefaleia em trovoada com rigidez de nuca. Além disso, é mais comum em idosos (>70 anos) e não se associa ao liquor xantocrômico.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A trombose de seio venoso intracraniano (TVC) causa cefaleia, mas geralmente de instalação gradual e progressiva ao longo de dias, frequentemente associada a fatores de risco como trombofilias, gestação e puerpério. Pode haver convulsões e déficits focais, mas o liquor não apresenta xantocromia com hemácias em todos os tubos. O exame de escolha é a angiorressonância magnética com venografia, não a punção lombar com achado hemorrágico.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A ruptura de aneurisma sacular cerebral é o mecanismo mais provável. A paciente tem fatores de risco (hipertensão, tabagismo, idade), apresenta cefaleia súbita e intensa durante esforço, perda de consciência, rigidez de nuca e liquor xantocrômico com hemácias em todos os tubos — o conjunto é diagnóstico de HSA, cuja causa mais comum é a ruptura de aneurisma sacular (80% dos casos). A TC inconclusiva reforça a necessidade da punção lombar, que confirmou o sangramento subaracnóideo.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A ruptura de veias de ponte causa hematoma subdural (HSD), não HSA. As veias de ponte atravessam o espaço subdural e podem romper após traumatismo craniano, especialmente em idosos e alcoólatras. O quadro é de cefaleia progressiva, confusão mental e déficits focais, sem rigidez de nuca e sem liquor xantocrômico. A paciente não tem história de trauma, e o liquor hemorrágico aponta para o espaço subaracnóideo.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A ruptura de artéria meníngea causa hematoma extradural (HED), geralmente após traumatismo craniano com fratura de osso temporal. O quadro clássico é de intervalo lúcido seguido de deterioração neurológica rápida, com midríase ipsilateral e hemiparesia contralateral. Não há rigidez de nuca nem liquor xantocrômico. A paciente não tem história de trauma, e o quadro é de HSA, não de HED.
Gabarito: letra C — ruptura de aneurisma sacular cerebral, causa mais comum de hemorragia subaracnóidea, confirmada pelo liquor xantocrômico com hemácias em todos os tubos.