Questão de Medicina — Farmacologia e Anestesiologia — FGV 2025
Medicina›Farmacologia e Anestesiologia
Código
fg114448
Banca
FGV
Órgão
HUEM
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Residência Médica - Prova Geral
Um homem de 60 anos comparece à consulta de acompanhamento. Ele tem histórico de hipertensão arterial e insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida (FEVE = 35%). Usa atualmente enalapril e metoprolol. Há três meses, seu médico introduziu uma novo medicamento para melhorar o controle pressórico e reduzir os sintomas de congestão.Desde então, o paciente relata dor e aumento do volume mamário bilateral, que lhe causa constrangimento. Nega secreção pelo mamilo, alterações cutâneas ou dor em outras regiões. O exame físico mostra pressão arterial de 122/70 mmHg, frequência cardíaca de 66 bpm, melhora do edema de membros inferiores e testículos sem alterações.O mecanismo de ação do medicamento mais provavelmente responsável pelo efeito adverso descrito, é
Aantagonista do receptor de aldosterona.
Bantagonista do receptor de angiotensina II.
Cbloqueador beta-1 adrenérgico.
Dinibidor do cotransportador sódio-glicose 2 (SGLT2).
Ebloqueador do canal de cálcio tipo L.
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GabaritoA — antagonista do receptor de aldosterona.
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Ginecomastia induzida por espironolactona: o antagonista do receptor de aldosterona
Gabarito: letra A. O efeito adverso descrito — dor e aumento do volume mamário bilateral em homem de 60 anos, sem secreção ou alterações cutâneas — é a ginecomastia, reação adversa clássica da espironolactona, um antagonista do receptor de aldosterona (ARM). O mecanismo envolve o bloqueio dos receptores de aldosterona e a inibição da ligação da testosterona ao seu receptor, com aumento da conversão periférica em estrogênio, o que estimula o tecido mamário. O contexto clínico reforça o diagnóstico: paciente com insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida (ICFEr), em uso de enalapril (IECA) e metoprolol (betabloqueador), que recebeu um novo medicamento para controle pressórico e congestão — exatamente o cenário em que se adiciona um ARM (espironolactona) à terapia tripla.
A ginecomastia é um aumento benigno do tecido mamário masculino, geralmente bilateral, que pode ser doloroso e causa desconforto estético. Ela ocorre por um desequilíbrio entre estrogênios e andrógenos no tecido mamário. No caso da espironolactona, o mecanismo é duplo: (1) bloqueio direto do receptor de aldosterona, que também tem afinidade por receptores de andrógenos, inibindo a ação da testosterona; e (2) aumento da conversão periférica de testosterona em estradiol pela aromatase. O resultado é um predomínio relativo de estrogênio, que estimula a proliferação do tecido mamário. Esse efeito é dose-dependente e mais comum em homens idosos, como o paciente do caso.
A Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial de 2025 recomenda, para pacientes com ICFEr e hipertensão, o tratamento com medicamentos que tenham ação anti-hipertensiva e que melhorem o prognóstico: betabloqueadores, IECA (ou BRA) e ARM (antagonistas dos receptores mineralocorticoides). O paciente já usava enalapril (IECA) e metoprolol (betabloqueador); a introdução de um ARM (espironolactona) é o passo seguinte na otimização do tratamento, visando melhorar o controle pressórico e reduzir os sintomas de congestão — o que explica a melhora do edema de membros inferiores relatada. A espironolactona é o ARM mais utilizado e o mais associado à ginecomastia; a eplerenona, outro ARM, tem menor incidência desse efeito adverso.
A pegadinha da questão está em associar o efeito adverso a outras classes de anti-hipertensivos que também são usadas na ICFEr, mas que não causam ginecomastia com a mesma frequência ou por mecanismo semelhante. O candidato precisa reconhecer o padrão clínico (ginecomastia em homem idoso com ICFEr em uso de IECA + betabloqueador) e identificar a classe farmacológica que foi adicionada e que é responsável pelo efeito. A chave é saber que a espironolactona (ARM) é a única entre as opções que tem a ginecomastia como efeito adverso bem estabelecido e característico.
Ginecomastia por espironolactona: Mecanismo (Bloqueia receptor de aldosterona, Inibe ligação da testosterona, Aumenta conversão em estrogênio); Contexto clínico (ICFEr (FEVE 35%), IECA + betabloqueador em uso, Adição de ARM (espironolactona)); Efeitos adversos clássicos (Ginecomastia, Hipercalemia, Distúrbios menstruais)
Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
O antagonista do receptor de aldosterona (ARM), representado pela espironolactona, é o medicamento mais provavelmente responsável pela ginecomastia. O mecanismo envolve o bloqueio dos receptores de aldosterona e a inibição da ligação da testosterona ao seu receptor, com aumento da conversão periférica em estrogênio. O contexto clínico é decisivo: paciente com ICFEr, em uso de enalapril e metoprolol, que recebeu um novo medicamento para controle pressórico e congestão — exatamente o cenário de adição de um ARM. A melhora do edema confirma a eficácia do novo fármaco, e a ginecomastia é o efeito adverso clássico da espironolactona.
Alternativa B — ❌ Incorreta
O antagonista do receptor de angiotensina II (BRA), como losartana ou valsartana, é uma alternativa ao IECA e também é usado na ICFEr. No entanto, a ginecomastia não é um efeito adverso característico dos BRA. O paciente já usa enalapril (IECA); a substituição por um BRA não é o cenário descrito, e o efeito adverso não se encaixa. A confusão pode ocorrer porque BRA e IECA atuam no mesmo sistema renina-angiotensina, mas seus perfis de efeitos adversos são distintos — os BRA não causam tosse nem ginecomastia.
Alternativa C — ❌ Incorreta
O bloqueador beta-1 adrenérgico (metoprolol) já está em uso pelo paciente. Embora os betabloqueadores possam causar ginecomastia em casos raros, esse não é um efeito adverso típico ou esperado dessa classe. Além disso, o medicamento foi introduzido há três meses, enquanto o metoprolol já era usado anteriormente. A ginecomastia não é um efeito adverso comum dos betabloqueadores, e o contexto clínico aponta para a adição de um novo fármaco como causa.
Alternativa D — ❌ Incorreta
O inibidor do cotransportador sódio-glicose 2 (SGLT2), como dapagliflozina ou empagliflozina, é recomendado para pacientes com ICFEr para redução de hospitalização e morte cardiovascular. No entanto, a ginecomastia não é um efeito adverso associado a essa classe. Os efeitos adversos típicos dos inibidores de SGLT2 incluem infecções genitourinárias, depleção de volume e cetoacidose diabética. A confusão pode ocorrer porque os SGLT2 também são usados na ICFEr, mas o perfil de efeitos adversos é completamente diferente.
Alternativa E — ❌ Incorreta
O bloqueador do canal de cálcio tipo L (BCC), como anlodipino, é um anti-hipertensivo amplamente utilizado, mas não é uma das classes recomendadas como terapia padrão para ICFEr com benefício prognóstico comprovado. Além disso, a ginecomastia não é um efeito adverso característico dos BCC. Os efeitos adversos típicos incluem edema de membros inferiores, cefaleia e rubor facial. A confusão pode ocorrer porque os BCC são usados no tratamento da hipertensão, mas não se encaixam no contexto clínico de ICFEr com adição de um novo medicamento para congestão.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a associação entre a ICFEr e as classes de medicamentos com benefício prognóstico comprovado (BB, IECA/BRA, ARM, SGLT2). O candidato pode confundir a espironolactona (ARM) com outras classes usadas no mesmo cenário, como BRA ou SGLT2. A chave é reconhecer que a ginecomastia é um efeito adverso característico da espironolactona, enquanto as demais classes têm perfis de efeitos adversos distintos. Fique atento: a espironolactona é o único ARM que causa ginecomastia com frequência; a eplerenona tem menor incidência.
PEGA ESSA DICA!
Para questões de efeitos adversos de medicamentos, monte uma tabela mental com as classes e seus efeitos adversos mais característicos. Para a espironolactona, lembre-se de ginecomastia, hipercalemia e distúrbios menstruais. Para os BRA, tosse (menos que IECA) e angioedema (raro). Para os SGLT2, infecções genitourinárias e cetoacidose. Para os BCC, edema e cefaleia. Essa tabela ajuda a identificar rapidamente o fármaco responsável pelo efeito adverso descrito no caso clínico.