Questão de Medicina — Cardiologia e Alterações Vasculares — FGV 2025
Medicina›Cardiologia e Alterações Vasculares
Código
fg121484
Banca
FGV
Órgão
TCE-PE
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Auditor de Controle Externo – Contas Públicas de Saúde
Paciente masculino, 56 anos, tabagista, em tratamento para hipertensão arterial sistêmica e dislipidemia, nega outras comorbidades. Em consulta na Unidade Básica de Saúde, informa que há um mês teve alta hospitalar, após ser internado devido a um infarto agudo do miocárdio, com colocação de stent em artéria descendente anterior (ADA). Traz o laudo do cateterismo mostrando que, além da angioplastia da ADA, possui lesões com obstrução de 40% nas artérias coronárias direita e na circunflexa, que não foram abordadas. Vem em consulta para continuar seguimento clínico e traz exames de sangue realizados há 12 meses, e os últimos realizados no dia de sua alta hospitalar.Os exames de 12 meses atrás e os atuais estão descritos a seguir.Após o evento isquêmico, foram iniciadas as seguintes drogas: metoprolol 100mg ao dia, ácido acetilsalicílico 100mg ao dia e clopidogrel 75mg ao dia. Além disso, o paciente faz uso contínuo, há mais de 2 anos, de enalapril 10mg 1 comprimido de 12 em 12h, hidroclorotiazida 25 mg 1 comprimido pela manhã, anlodipino 10mg ao dia e sinvastatina 40mg ao dia.Diante desta situação, assinale a opção que apresenta a melhor conduta para esse paciente.
ATrocar a sinvastatina e prescrever atorvastatina em alta dose.
BPrescrever evolocumab imediatamente e suspender a estatina.
CAssociar um fibrato ao esquema terapêutico.
DSubstituir a sinvastatina por ezetimiba 10mg ao dia.
EManter a dose de sinvastatina já usada e reforçar dieta hipolipídica associada à atividade física.
Revelar gabarito e comentário▾
GabaritoA — Trocar a sinvastatina e prescrever atorvastatina em alta dose.
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
Dislipidemia pós-infarto: intensificação da estatina
Gabarito: letra A. Após síndrome coronariana aguda (SCA), a diretriz brasileira de dislipidemias recomenda o uso de estatina em alta dose (Classe I, Nível de Evidência A) — e a atorvastatina 80 mg é a opção de alta potência disponível entre as alternativas. O paciente já usa sinvastatina 40 mg (dose moderada), insuficiente para a meta agressiva de LDL-c pós-infarto, e os exames de 12 meses atrás versus os atuais mostram que o LDL-c permaneceu elevado, reforçando a necessidade de intensificação.
O infarto agudo do miocárdio (IAM) coloca o paciente na categoria de risco muito alto para novos eventos cardiovasculares. Nesse cenário, a meta de LDL-c é agressiva: redução de pelo menos 50% em relação ao valor basal e/ou LDL-c abaixo de 50 mg/dL. A sinvastatina 40 mg é uma estatina de intensidade moderada, que reduz o LDL-c em cerca de 30–40% — insuficiente para atingir as metas pós-SCA. A atorvastatina 80 mg é uma estatina de alta intensidade, capaz de reduzir o LDL-c em mais de 50%, sendo a escolha recomendada pelas diretrizes para prevenção secundária após evento coronariano agudo.
A lógica por trás da recomendação é dupla: (1) as estatinas de alta intensidade promovem maior redução do LDL-c, diretamente proporcional à redução de eventos cardiovasculares; (2) há efeitos pleiotrópicos — estabilização da placa aterosclerótica, melhora da função endotelial e redução da inflamação — que são particularmente benéficos no período pós-infarto. Estudos como o PROVE-IT TIMI 22 demonstraram que a atorvastatina 80 mg é superior à pravastatina 40 mg na redução de eventos após SCA, consolidando a recomendação de alta intensidade.
Na prática, o paciente em questão tem indicação formal de estatina de alta intensidade, independentemente do valor do LDL-c, pois o IAM é um evento aterotrombótico que exige a máxima redução lipídica. A troca da sinvastatina 40 mg por atorvastatina 80 mg é a conduta que atende a essa recomendação. As demais opções — evolocumabe, fibrato, ezetimiba isolada ou apenas mudança de estilo de vida — não substituem a estatina de alta intensidade como primeira linha nesse contexto.
A pegadinha central desta questão é a tentação de "otimizar" o tratamento com drogas mais modernas (evolocumabe) ou de "complementar" com outros hipolipemiantes (fibrato, ezetimiba), quando a diretriz manda, em primeiro lugar, intensificar a estatina para alta dose. O evolocumabe (inibidor de PCSK9) é reservado para pacientes que não atingem a meta com estatina de alta intensidade associada à ezetimiba, ou com intolerância à estatina — não é primeira linha. O fibrato é indicado para hipertrigliceridemia grave, não para LDL-c elevado. A ezetimiba isolada é menos eficaz que a estatina de alta intensidade. E a mudança de estilo de vida, embora essencial, é adjuvante — não substitui a farmacoterapia de alta intensidade pós-IAM.
Guarde o critério decisivo: pós-SCA = estatina de alta intensidade (atorvastatina 80 mg ou rosuvastatina 40 mg) como primeira linha, independentemente do LDL-c basal. É exatamente nesse ponto que as alternativas se dividem.
Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A troca da sinvastatina 40 mg (intensidade moderada) pela atorvastatina em alta dose (80 mg) é a conduta recomendada pela diretriz brasileira de dislipidemias para pacientes pós-SCA. A recomendação é Classe I, Nível de Evidência A: "Uso de estatinas em altas doses no contexto das SCA nas primeiras 24 horas". Embora o paciente já esteja em uso de sinvastatina, a intensificação para alta potência é mandatória para atingir a meta agressiva de LDL-c (< 50 mg/dL ou redução ≥ 50%) e reduzir novos eventos. A atorvastatina 80 mg é a estatina de alta intensidade mais disponível e estudada no cenário brasileiro.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Prescrever evolocumabe imediatamente e suspender a estatina é um erro duplo. O evolocumabe (inibidor de PCSK9) é uma terapia de segunda linha, indicada apenas quando o paciente não atinge a meta com estatina de alta intensidade associada à ezetimiba, ou em casos de intolerância comprovada à estatina. Suspender a estatina é contraindicado, pois ela é a base do tratamento pós-IAM, com benefício comprovado na redução de mortalidade e novos eventos. A conduta correta seria manter a estatina de alta intensidade e, se necessário, associar ezetimiba — nunca suspender a estatina em favor do evolocumabe.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Associar um fibrato ao esquema terapêutico não é a conduta de primeira linha neste caso. O fibrato é indicado principalmente para hipertrigliceridemia grave (triglicerídeos > 500 mg/dL) ou para pacientes com triglicerídeos elevados e HDL-c baixo, com risco residual. O enunciado não menciona triglicerídeos elevados — o foco é o LDL-c elevado pós-IAM. Além disso, a associação de fibrato com estatina aumenta o risco de miopatia e rabdomiólise, exigindo cautela. A prioridade é intensificar a estatina, não adicionar fibrato.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Substituir a sinvastatina por ezetimiba 10 mg ao dia é inadequado. A ezetimiba é um inibidor da absorção intestinal de colesterol, com redução modesta do LDL-c (cerca de 15–20%), muito inferior à da estatina de alta intensidade. Ela é uma terapia adjuvante à estatina, não substituta. A diretriz recomenda a associação de ezetimibe à estatina no contexto da SCA (Classe IIa, Nível de Evidência B), mas em adição à estatina de alta intensidade, não em substituição. Trocar a estatina por ezetimiba deixaria o paciente sem a proteção cardiovascular da estatina.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Manter a dose de sinvastatina 40 mg e reforçar apenas dieta e atividade física é insuficiente. A sinvastatina 40 mg é uma estatina de intensidade moderada, que não atinge a meta agressiva de LDL-c pós-IAM. A mudança de estilo de vida é fundamental e deve ser sempre recomendada, mas é adjuvante — não substitui a necessidade de estatina de alta intensidade. A diretriz é clara: pós-SCA, a estatina de alta intensidade é mandatória (Classe I, Nível de Evidência A), independentemente dos valores de LDL-c. Manter a dose moderada e apenas reforçar medidas não farmacológicas é conduta inadequada.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a associação automática entre "dislipidemia" e "fibrato" ou "ezetimiba", e a tentação de usar o "moderno" evolocumabe. Mas o gatilho é o IAM recente: pós-SCA, a regra é estatina de alta intensidade (atorvastatina 80 mg ou rosuvastatina 40 mg) como primeira linha. O evolocumabe só entra se a meta não for atingida com estatina + ezetimiba; o fibrato é para triglicerídeos; a ezetimiba é adjuvante, não substituta. Com treino, você enxerga o contexto de SCA e já elimina as alternativas que não intensificam a estatina 💪
Gabarito: letra A — trocar a sinvastatina por atorvastatina em alta dose.