Entre as frases abaixo, retiradas do livro O Mulato, de Aluísio Azevedo, aquela que mostra a expressão “é que” com valor sintático, ou seja, não tendo valor de ênfase, é a seguinte:
A“— Ah!... volveu terrível o Freitas, é que ela hoje é outra coisa!... Hoje não se compara! — há muito mais luxo, mas muito!”
B“— O que lhe posso afiançar, doutor, é que não há criança que, nessa tarde, não tenha a sua pratinha amarrada na ponta do lenço.”
C“Só depois de cinquenta e seis anos, é que o governador Joaquim de Melo e Póvoas mandou abrir uma boa estrada, a qual vem a ser hoje a nossa pitoresca Rua dos Remédios.”
D“— Meu caro senhor Mundico, hoj’em dia já não se acredita em coisa alguma!... por isso é que os tempos estão como estão — cheios de febres, de bexigas, de tísicas e de paralisias, que nem mesmo os doutores de carta sabem o que aquilo é!”
E“— Credo, minha Nossa Senhora! que inferno não irá por esse mundão de esconjurados! Por isso é que agora está se vendo o que se vê, benza-me Deus!”
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GabaritoB — “— O que lhe posso afiançar, doutor, é que não há criança que, nessa tarde, não tenha a sua pratinha amarrada na ponta do lenço.”
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Distinção entre função sintática e ênfase em "é que"
Gabarito: letra B. A única frase em que "é que" não exerce função enfática, mas sim integra a estrutura sintática como verbo de ligação + conjunção integrante, é a opção B. Nela, "é que" aparece na oração principal "O que lhe posso afiançar é que...", onde "é" é verbo de ligação e "que" introduz a oração subordinada substantiva predicativa. Nas demais opções, "é que" funciona como partícula de realce (ênfase).
PEGA ESSA DICA!
Para identificar o valor de "é que", substitua-o por "exatamente" ou "justamente". Se a frase mantiver o sentido, é enfático; se não, é sintático. Apenas em B essa substituição não se sustenta.
Alternativa A — ❌ Incorreta
“— Ah!... volveu terrível o Freitas, é que ela hoje é outra coisa!... Hoje não se compara! — há muito mais luxo, mas muito!”
Aqui, "é que" realça o conteúdo da fala, equivalendo a "é que" enfático ("acontece que"). É possível substituir por "justamente" sem prejuízo: "justamente ela hoje é outra coisa". Portanto, há ênfase.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
“— O que lhe posso afiançar, doutor, é que não há criança que, nessa tarde, não tenha a sua pratinha amarrada na ponta do lenço.”
A estrutura é: sujeito oracional "O que lhe posso afiançar" + verbo de ligação "é" + conjunção integrante "que" + oração subordinada substantiva predicativa. "É que" não pode ser retirado ou substituído por um advérbio enfático sem alterar a estrutura. A função é puramente sintática.
Alternativa C — ❌ Incorreta
“Só depois de cinquenta e seis anos, é que o governador Joaquim de Melo e Póvoas mandou abrir uma boa estrada...”
Trata-se de uma clivada: "Só depois de cinquenta e seis anos é que..." = "Foi só depois de cinquenta e seis anos que...". O "é que" aqui é partícula de realce, enfatizando o adjunto adverbial temporal. Pode ser substituído por "exatamente" ("Só depois de cinquenta e seis anos exatamente...").
Alternativa D — ❌ Incorreta
“— Meu caro senhor Mundico, hoj’em dia já não se acredita em coisa alguma!... por isso é que os tempos estão como estão...”
A expressão "por isso é que" equivale a "por isso mesmo", com valor conclusivo enfático. O "é que" reforça a consequência. Pode ser substituído por "exatamente por isso".
Alternativa E — ❌ Incorreta
“— Credo, minha Nossa Senhora! que inferno não irá por esse mundão de esconjurados! Por isso é que agora está se vendo o que se vê, benza-me Deus!”
Mesma estrutura da anterior: "por isso é que" com valor enfático, realçando a causa. Novo teste de substituição confirma a ênfase.
Conclusão: Somente em B o "é que" exerce função meramente sintática, sem acrescentar realce.
NÃO CAIA NESSA!
Sujeito nunca tem preposição
Se um termo vem regido de preposição (de, em, a...), ele não é o sujeito da oração. Serve para não confundir sujeito com objeto/adjunto preposicionado.