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Questão de Português — Interpretação de Textos — FGV 2025

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
fg124376
Banca
FGV
Órgão
CPRM
Ano
2025
Nível
Médio
A questão refere-se ao TEXTO a seguir:


A vida é selvagem
Ailton-Krenak


A vida é selvagem. Esse é um elemento essencial para um pensamento que tem me provocado: como a ideia de que a vida é selvagem poderia incidir sobre a produção do pensamento urbanístico hoje? É uma convocatória a uma rebelião do ponto de vista epistemológico, de colaborar com a produção de vida. Quando falo que a vida é selvagem, quero chamar a atenção para uma potência de existir que tem uma poética esquecida, abandonada pelas escolas, formadoras de profissionais que perpetuam a lógica de que a civilização é urbana, de que tudo fora das cidades é bárbaro, primitivo – e que a gente pode tacar fogo.

Como atravessar o muro das cidades? Quais possíveis implicações poderiam existir entre comunidades humanas que vivem na floresta e as que estão enclausuradas nas metrópoles? Pois se a gente conseguir fazer com que continuem existindo florestas no mundo, existirão comunidades dentro delas. Eu vi um número que a World Wide Fund for Nature (WWF) publicou em um relatório, dizendo que 1,4 bilhão de pessoas no mundo dependem da floresta, no sentido de ter uma economia ligada a ela. Não é a turma das madeireiras, não: é uma economia que supõe que os humanos que vivem ali precisam de floresta para viver.

A antropóloga Lux Vidal escreveu um trabalho muito importante sobre habitações indígenas, no qual relaciona materiais e conceitos que organizam a ideia de habitat equilibrado com o entorno, com a terra, o Sol, a Lua e as estrelas. Um habitat que está integrado ao cosmos, diferente desse implante que as cidades viraram no mundo. Aí eu me pergunto: como fazer a floresta existir em nós, em nossas casas, em nossos quintais? Podemos provocar o surgimento de uma experiência de florestania começando por contestar essa ordem urbana sanitária ao dizer: eu vou deixar o meu quintal cheio de mato, quero estudar a gramática dele. Como eu acho no meio do mato um ipê, uma peroba rosa, um jacarandá? E se eu tivesse um buritizeiro no quintal?
Assinale a opção que indica o efeito das perguntas feitas no texto.
  1. APersuadir o leitor.
  2. BProvocar uma reflexão.
  3. CMarcar somente a entonação.
  4. DExprimir incerteza sobre o tema.
  5. EQuestionar autoridades.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — Provocar uma reflexão.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Efeito das perguntas no texto de Krenak

Gabarito: letra B. As perguntas presentes no texto têm por finalidade principal provocar uma reflexão no leitor, conduzindo-o a repensar conceitos estabelecidos sobre urbanização, floresta e habitat. A banca cobra a identificação do efeito discursivo das interrogações, que não são meramente retóricas para persuadir ou questionar autoridades, mas sim para instigar um questionamento crítico.

“Como atravessar o muro das cidades? Quais possíveis implicações poderiam existir entre comunidades humanas que vivem na floresta e as que estão enclausuradas nas metrópoles? [...] como fazer a floresta existir em nós, em nossas casas, em nossos quintais?”

Tais perguntas não buscam respostas imediatas; elas operam como convite à reflexão sobre a possibilidade de integrar a natureza à vida urbana, em sintonia com a tese central de que “a vida é selvagem” e que é preciso “colaborar com a produção de vida”. O autor não expressa dúvida (alternativa D), mas sim provoca o leitor a pensar criticamente.

Alternativa A — ❌ Incorreta

A persuasão implica convencer o leitor a adotar uma ação ou crença específica. As perguntas, porém, têm caráter exploratório e interrogativo, sem uma conclusão imposta. O texto não ordena nem conclama diretamente; convida à reflexão, não à persuasão.

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

As interrogações funcionam como estímulo à reflexão. A pergunta “como fazer a floresta existir em nós?” é um convite a pensar sobre formas de integração ecológica. O texto é uma “convocatória a uma rebelião do ponto de vista epistemológico” – rebelar-se pelo pensamento, refletindo sobre as premissas urbanísticas vigentes.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Marcar a entonação é função da pontuação no discurso oral ou escrito para indicar melodia, mas não é o efeito principal das perguntas no texto. A questão pede função textual, não marca prosódica.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Embora as perguntas expressem curiosidade, o autor não está incerto sobre o tema; ele defende uma tese clara (a vida é selvagem; as cidades enclausuram). As perguntas são retóricas, usadas para engajar o leitor, não para demonstrar hesitação.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Questionar autoridades não é o foco. O autor contesta a “ordem urbana sanitária” e as escolas que perpetuam a dicotomia civilização/barbárie, mas as perguntas não são dirigidas a figuras de autoridade; são questionamentos amplos sobre nossa própria relação com a natureza.

Gabarito: letra B.

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