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Questão de Medicina — Geriatria — FGV 2025

MedicinaGeriatria
Código
fg124555
Banca
FGV
Órgão
EBSERH
Ano
2025
Nível
Superior
Paciente feminina, 65 anos, com histórico de Diabetes Mellitus tipo 2 de longa data e neuropatia autonômica conhecida, procurou o pronto-socorro devido a uma agudização de sintomas gastrointestinais. Referiu dor abdominal do tipo cólica de forte intensidade, distensão abdominal progressiva, náuseas e episódios de vômitos. É o segundo episódio agudo com esses sinais e sintomas nos últimos seis meses, sendo o atual o mais grave. Cronicamente, queixa-se de constipação crônica e inchaço abdominal pós-prandial.Ao exame físico, apresentava-se desidratada, com abdome muito distendido, doloroso à palpação difusa, mas sem sinais de peritonite. Ruídos hidroaéreos diminuídos. Hemograma de admissão com leucocitose discreta (11.500/mm³) sem desvio à esquerda. Uma tomografia computadorizada de abdome e pelve com contraste demonstrou alças intestinais difusamente dilatadas em delgado e cólon, sem evidência de obstrução mecânica ou massa intraluminal ou extraluminal, mas com diminutos focos de Pneumatosis intestinalis. Exames laboratoriais de admissão revelaram hipocalemia (potássio sérico 2,8 mEq/L) e hipoalbuminemia (2,5 g/dL).Diante do quadro clínico e dos resultados dos exames, a conduta inicial mais apropriada para essa paciente é
  1. Ainiciar antibioticoterapia empírica visando a um possível supercrescimento bacteriano intestinal.
  2. Bprogramar colonoscopia diagnóstica de urgência para exclusão de obstrução mecânica baixa.
  3. Cadministrar laxativos osmóticos e estimulantes em altas doses para alívio imediato da constipação e distensão abdominal.
  4. Diniciar suporte hidroeletrolítico intravenoso, suspender a dieta oral e considerar procinético como eritromicina, prucaloprida ou anticolinesterásico, dependendo da disponibilidade e tolerância.
  5. Esolicitar exames como sorologias para doença celíaca, hormônios tireoidianos, marcadores inflamatórios e painel de autoanticorpos (ex.: antineuronais e de canais iônicos) para investigar a etiologia subjacente.
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GabaritoD — iniciar suporte hidroeletrolítico intravenoso, suspender a dieta oral e considerar procinético como eritromicina, prucaloprida ou anticolinesterásico, dependendo da disponibilidade e tolerância.

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Abdome agudo em paciente diabética com neuropatia autonômica: pseudo-obstrução intestinal

Gabarito: letra D. O quadro — dor abdominal em cólica, distensão progressiva, vômitos, constipação crônica, ausência de obstrução mecânica na TC e pneumatose intestinal — é a apresentação clássica de pseudo-obstrução intestinal (íleo paralítico/adinâmico) secundária à neuropatia autonômica diabética. A conduta inicial apropriada é o suporte clínico: hidratação intravenosa, correção de distúrbios hidroeletrolíticos (hipocalemia), suspensão da dieta oral e uso de procinéticos (eritromicina, prucaloprida ou anticolinesterásicos), conforme a disponibilidade e tolerância.

A pseudo-obstrução intestinal é uma síndrome caracterizada por sintomas e sinais de obstrução intestinal (dor em cólica, distensão, vômitos, constipação) sem que exista uma causa mecânica que justifique o quadro. Ou seja, o intestino está dilatado, mas não há um ponto de bloqueio físico — a falha está na motilidade. No caso da paciente, a causa é a neuropatia autonômica diabética, uma complicação crônica do diabetes mellitus que compromete o sistema nervoso autônomo, incluindo o plexo mioentérico, responsável pela coordenação dos movimentos peristálticos. Isso leva a um íleo paralítico (ou adinâmico), com retardo ou ausência do trânsito intestinal.

O diagnóstico é eminentemente clínico e radiológico. A TC de abdome é o exame de escolha para excluir obstrução mecânica (aderências, hérnias, neoplasias, volvo) e identificar sinais de complicações, como a pneumatose intestinal (presença de gás na parede intestinal), que, embora possa ser um achado benigno, também pode indicar isquemia ou necrose. A ausência de sinais de peritonite, a leucocitose discreta sem desvio e a dilatação difusa de delgado e cólon reforçam a hipótese de pseudo-obstrução.

O tratamento inicial é conservador e de suporte, visando corrigir os fatores que perpetuam o íleo e aliviar os sintomas. Os pilares são: (1) reposição volêmica e eletrolítica — a paciente está desidratada e hipocalêmica (K+ 2,8 mEq/L), e a hipocalemia por si só é causa de íleo paralítico, criando um ciclo vicioso; (2) suspensão da dieta oral para reduzir a distensão e o risco de vômitos e broncoaspiração; (3) uso de procinéticos para estimular a motilidade intestinal, como a eritromicina (agonista do receptor de motilina), a prucaloprida (agonista do receptor 5-HT4) ou anticolinesterásicos (como a neostigmina), que aumentam a disponibilidade de acetilcolina na junção neuromuscular. A escolha depende da disponibilidade e da tolerância do paciente.

A distinção crucial que separa as alternativas é: obstrução mecânica (exige abordagem cirúrgica/endoscópica) versus pseudo-obstrução (exige suporte clínico e procinéticos). A TC já excluiu a obstrução mecânica, então a conduta não pode ser direcionada a ela. Além disso, a paciente tem um fator causal identificável (neuropatia autonômica diabética), o que torna a investigação etiológica extensa (alternativa E) menos prioritária na fase aguda. O tratamento da constipação com laxativos (alternativa C) é inadequado e potencialmente perigoso na vigência de íleo paralítico, pois pode causar distensão excessiva, dor e até perfuração. A antibioticoterapia empírica (alternativa A) não é indicada sem sinais de infecção ou supercrescimento bacteriano confirmado, e a colonoscopia de urgência (alternativa B) não tem papel no diagnóstico de obstrução mecânica já excluída pela TC.

1Causa
Neuropatia autonômica diabética
Hipocalemia
2Diagnóstico
TC exclui obstrução mecânica
Dilatação difusa sem ponto de bloqueio
3Conduta inicial (SOPA)
Suporte hidroeletrolítico
Suspender dieta oral
Procinéticos (eritromicina, prucaloprida, neostigmina)
Afastar complicações (isquemia, perfuração)
4Contraindicações
Laxativos em altas doses
Antibiótico empírico sem infecção
Colonoscopia de urgência
Pseudo-obstrução intestinal (íleo paralítico)
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Pseudo-obstrução intestinal (íleo paralítico): Causa (Neuropatia autonômica diabética, Hipocalemia); Diagnóstico (TC exclui obstrução mecânica, Dilatação difusa sem ponto de bloqueio); Conduta inicial (SOPA) (Suporte hidroeletrolítico, Suspender dieta oral, Procinéticos (eritromicina, prucaloprida, neostigmina), Afastar complicações (isquemia, perfuração)); Contraindicações (Laxativos em altas doses, Antibiótico empírico sem infecção, Colonoscopia de urgência)

Alternativa A — ❌ Incorreta

Iniciar antibioticoterapia empírica para supercrescimento bacteriano intestinal não é a conduta inicial apropriada. O supercrescimento bacteriano é uma complicação possível da pseudo-obstrução, mas o tratamento empírico não é indicado na apresentação aguda sem sinais de infecção sistêmica (a paciente tem leucocitose discreta, sem desvio, e não há febre ou outros sinais de sepse). A prioridade é o suporte hidroeletrolítico e a descompressão. A antibioticoterapia seria considerada em casos de supercrescimento bacteriano confirmado (teste do hidrogênio expirado) ou em situações de isquemia/perfuração, que não estão presentes.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Programar colonoscopia diagnóstica de urgência para exclusão de obstrução mecânica baixa é desnecessário e potencialmente arriscado. A TC de abdome com contraste já excluiu obstrução mecânica, demonstrando alças dilatadas sem ponto de obstrução. A colonoscopia de urgência não é indicada para pseudo-obstrução e pode, inclusive, agravar a distensão ou causar perfuração em um cólon dilatado. A indicação de colonoscopia seria para investigar causas de obstrução mecânica (neoplasia, estenose) ou para descompressão em casos selecionados de pseudo-obstrução colônica aguda (síndrome de Ogilvie) refratária ao tratamento clínico, mas não como primeiro passo diagnóstico.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Administrar laxativos osmóticos e estimulantes em altas doses para alívio imediato da constipação e distensão é contraindicado na pseudo-obstrução aguda. O intestino está dilatado e com motilidade comprometida; laxativos estimulantes aumentam a secreção e a motilidade, mas em um intestino que não responde adequadamente, podem causar distensão excessiva, dor intensa, desequilíbrio hidroeletrolítico e até perfuração intestinal. O manejo da constipação na pseudo-obstrução é feito com medidas que não forcem o trânsito, como suporte, procinéticos e, em casos refratários, descompressão endoscópica ou cirúrgica.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Iniciar suporte hidroeletrolítico intravenoso, suspender a dieta oral e considerar procinético (eritromicina, prucaloprida ou anticolinesterásico) é a conduta inicial mais apropriada. A paciente está desidratada e hipocalêmica, e a correção desses distúrbios é fundamental para restaurar a motilidade intestinal. A suspensão da dieta oral reduz a distensão e o risco de vômitos. Os procinéticos são a base do tratamento farmacológico da pseudo-obstrução, estimulando a motilidade. A escolha do agente depende da disponibilidade e da tolerância, como mencionado na alternativa. Essa abordagem aborda diretamente a fisiopatologia (íleo paralítico por neuropatia autonômica) e os fatores agravantes (hipocalemia, desidratação).

Alternativa E — ❌ Incorreta

Solicitar exames como sorologias para doença celíaca, hormônios tireoidianos, marcadores inflamatórios e painel de autoanticorpos para investigar a etiologia subjacente é uma conduta prematura na fase aguda. Embora a investigação etiológica seja importante, a paciente já tem uma causa provável (neuropatia autonômica diabética) e apresenta um quadro agudo que exige manejo imediato. A investigação extensa de outras causas (doença celíaca, tireoidopatias, doenças autoimunes) deve ser feita após a estabilização do quadro agudo, em caráter eletivo, se a resposta ao tratamento não for adequada ou se houver suspeita de outra etiologia. Na emergência, a prioridade é o suporte e o alívio dos sintomas.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre obstrução mecânica e pseudo-obstrução. O candidato pode ser tentado a buscar uma causa obstrutiva (alternativas B e C) ou a tratar uma infecção (alternativa A), mas a TC já excluiu a obstrução mecânica, e o quadro é de íleo paralítico por neuropatia autonômica diabética. A chave é reconhecer que a conduta inicial é sempre o suporte clínico e a correção dos fatores agravantes, não a intervenção mecânica ou o tratamento empírico.

PEGA ESSA DICA!

Na pseudo-obstrução, lembre-se do mnemônico "SOPA": Suporte (hidroeletrolítico), Olhar para causas reversíveis (hipocalemia, hipomagnesemia, fármacos), Procinéticos, Afastar complicações (isquemia, perfuração). Se a TC não mostra obstrução mecânica, a conduta é clínica, não cirúrgica.

Gabarito: letra D

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